Economia circular busca promover a inovação e a sustentabilidade
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Economia circular busca promover a inovação e a sustentabilidade

Modelo pretende ser uma alternativa ao ainda predominante ciclo linear de produção

Por
Franceli Stefani

Inovação e sustentabilidade são alternativas ao modelo econômico linear

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Um termo novo, mas que pode mudar o modelo de negócios e promover a inovação. É dessa maneira que o gerente executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Davi Bomtempo, vê a economia circular, uma alternativa ao modelo linear. O conceito pressupõe que as empresas invistam além da reciclagem. Trata-se de redução de resíduos e produção mais eficiente. “Para a alavancagem da economia circular, é preciso considerar melhorias em políticas públicas, no acesso ao crédito e em incentivos à inovação.”

O professor do Programa de Pós-graduação de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Osmar Tomaz de Souza, explica as diferenças entre os modelos linear e circular. O primeiro utiliza recurso natural na sua produção, gerando, ao término, o resíduo. Quanto mais a empresa produz e vende, mais lucro é gerado. “Neste caso temos a lógica de fazer com que o produto dure menos tempo, com o máximo possível de valor de troca, como carro, celular e computador. Não é sustentável, usa muito recurso natural e as pessoas trocam rapidamente”, detalha. Já o segundo é um sistema fechado com incentivo no processo de produção. “A lógica é que tudo o que é usado para produzir o bem seja reaproveitado no sistema. Tem política ambiental para tentar estimular seu uso para as empresas”, frisa. 

O que antes ia para o aterro sanitário, hoje é separado e processado e volta para o Hospital Moinhos de Vento para ser utilizado de diversas formas | Foto: Mauro Schaefer

 

De acordo com Bomtempo, o conceito parte da importância de reutilizar os resíduos, no sentido amplo da palavra. “O seu reúso é pensado já no início da cadeia, para que possa reduzir seus reflexos no meio ambiente no futuro”, expressa. Algumas das propostas do Mapa Estratégico da Indústria 2018-2022, elaborado pela CNI, vê a economia circular como oportunidade para o uso mais eficiente dos recursos e aumento da competitividade da indústria. Entre os objetivos centrais para essa agenda apontados no documento está a gestão de resíduos como recursos de valor, com destaque para o plástico, aumentando a proporção de reciclagem desse material dos atuais 9,8% para 12,5% até 2022. Bomtempo enfatiza que o plástico foi escolhido para integrar as metas do Mapa por apresentar maiores desafios do ponto de vista técnico e de viabilidade econômica. “Se avançarmos na reciclagem desse material, será mais fácil puxar outras cadeias”, expressa.

O gestor diz que as mudanças já começaram a acontecer. “A sociedade cada vez mais também busca a proposta sustentável dos produtos que consome, então essa identificação reflete na indústria. Ao observarmos o cenário atual, é uma oportunidade de negócio.” É preciso, porém, romper algumas barreiras: a falta incentivos ao novo modelo da economia, a ausência de financiamento e linhas de crédito e a baixa inovação. “Além disso, será preciso definir critérios específicos do que é preciso ser para ter o título de circular. O setor automotivo, por exemplo, reutilizar a água. Os compartilhamentos propostos pelas empresas de transporte por aplicativo também pode ser um reaproveitamento, é um tema complexo”, diz Bomtempo.

Conforme o gerente-executivo, a economia circular deve ser tratada como agenda de Estado. Ele salienta que o futuro será mais sustentável pela consciência que já é formada pelas pessoas. “Precisamos pressionar o governo para que haja atenção especial para essa área, que é fundamental”, declara. Mesmo com o tema sendo novo, o professor acredita que esse seja um novo jeito de fazer negócio. “Não é apenas vender o bem, mas o serviço que ele oferece. Não é mais vender copiadora, mas vai vender cópia. Não vai vender a bicicleta, mas a mobilidade e os benefícios para a natureza.” Souza ressalta que, nessa lógica, gera interesse no consumidor que produz um produto com grande durabilidade, serviço de qualidade e que, quando for necessário dar um fim, pode ser recolhido e facilmente reutilizado. “Essa seria a lógica. Cria uma dinâmica completamente diferente, sempre design facilitado. É uma maneira totalmente inovadora.”

As atuais tendências de aumento populacional, crescimento da procura e consequente pressão nos recursos naturais têm vindo a sublinhar a necessidade das sociedades modernas avançarem para um paradigma mais sustentável, uma economia que assegure desenvolvimento econômico, melhoria das condições de vida e de emprego, bem como a regeneração do “capital natural”. O professor destaca que, se a empresa não tiver interesse em fazer o produto sustentável, a política pode ajudar nisso e os consumidores também. A exigência do mercado faz com que os empreendimentos se superem. “Hoje não existe nenhum modelo 100% circular. Há empresas que fecham o ciclo em 97%, a dificuldade maior é fazer com o todo”, explica Souza. Embora sem fechar o ciclo, muitas empresas já organizam iniciativas para entrar na economia circular e vêm investindo no conceito.

Ciclos do plástico

A diretora da área de Reciclagem e Plataforma Wecycle da Braskem, Fabiana Quiroga, afirma a sustentabilidade é um pilar da empresa, mas faltava engajar toda cadeia, “ser protagonista na transformação”. De acordo com ela, foram lançadas iniciativas que envolvem a reciclagem de polietileno, polipropileno e PVC, além do desenvolvimento de soluções, produtos e processos e o reforço do compromisso com a inovação e tecnologia para a sustentabilidade.

“Preocupa-nos desde o design do produto para que tenhamos uma reciclagem renovável. A Braskem é produtora de resina. A de propileno nós transformamos em outros materiais, vendemos a resina para o nosso transformador, que é nosso cliente, que transforma em diferentes produtos, que vão para o mercado”, explica. Fabiana destaca que, além da resina virgem produzida de fonte renovável - o que para economia circular é importante - o reaproveitamento do material é um avanço conquistado. “Estamos produzindo a resina reciclada e fechando o ciclo, voltando novamente para o processo produtivo.”

Entre os produtos desenvolvidos, ela cita o Qualitá. A iniciativa utiliza materiais descartados nas estações instaladas em hiper e supermercados do GPA (redes Extra e Pão de Açúcar), que são doados para cooperativas parceiras. “Eles têm pontos de entrega onde o cidadão pode fazer o descarte. Os materiais são utilizados para fazer a resina, que produz novamente um potinho”, frisa. Depois de selecionado e separado, o plástico é enviado a uma recicladora que fabrica a resina composta de 70% de material reciclado e 30% de polietileno virgem. O material é então vendido para o transformador de plástico, que produz a embalagem do produto e realiza o envase. Todo o volume de tira-manchas Qualitá vendido no Brasil tem embalagens fabricadas com a resina reciclada. 

A Braskem, junto com a Embalixo, que produz sacos para lixo, fabrica novos sacos utilizando materiais plásticos descartados nas Estações de Reciclagem Pão de Açúcar Unilever e sacarias industriais utilizadas pela Braskem na entrega de suas resinas. “O ciclo, neste setor, é fechado. Tudo é reaproveitado, fabricamos a resina, o cliente utiliza, processa e tem essa nova aplicação.” Os materiais descartados são utilizados para a produção de uma linha premium de sacos.

Outro ponto destacado por Fabiana é a parceria entre Braskem, Martiplast, do segmento de utilidades domésticas, e a Leroy Merlin, para a confecção de caixas organizadoras de plástico 100% reciclável. Por meio da plataforma Wecycle as empresas desenvolveram a aplicação que utiliza 60 toneladas por ano de polipropileno de big bags reciclados. “A gente vem trabalhando em várias iniciativas para fechar o ciclo”, afirma.

Segundo ela, é retirado do meio ambiente, por ano, de 500 a 1.000 toneladas. Para os próximos a expectativa é de que haja uma escalada nos processos. “Queremos ensinar e mostrar a importância do descarte adequado e pretendemos ampliar a parceria com as cooperativas. O plástico tem incontáveis funções. É utilizado desde a saúde, transporte até a construção civil e, hoje, percebemos que a destinação correta é um problema”, relata. 

A Plataforma Wecycle foi estruturada em 2015. “Tem muito resíduo, mas não é separado de forma adequada”, destacou. Entre os projetos da empresa está o apoio às cooperativas. Os desafios são muitos. Conforme a diretora da área de Reciclagem e Plataforma Wecycle, para mais empresas se engajarem na iniciativa é preciso olhar para dentro, avaliar seus processos e iniciar os questionamentos. “Como você pode fechar o seu ciclo? O que pode gerar menos resíduos? Se você utilizar os bens e produtos de forma consciente está dentro da economia circular.” 

Para Fabiana, é fundamental esse pensamento para que todos tenham um meio ambiente melhor no futuro. “A Braskem fez isso com suas embalagens, agora estamos avançando com os clientes.” Ela lembra que o papel do consumidor, separando e descartando seus resíduos de forma correta é importante, porém pondera que o do indústria é fundamental para transformar uma economia que hoje é linear em circular.

Reaproveitamento

O que antes ia para o aterro sanitário hoje volta em forma de outros produtos utilizados dentro da própria instituição. O pet retorna como vassoura. O polietileno de alta densidade se torna saco de lixo. Esses são apenas dois exemplos de reaproveitamento feito pelo Hospital Moinhos de Vento. O gestor ambiental da casa de saúde, Rogério Almeida da Silva, ressalta que além da economia proporcionada pela reciclagem, há o ganho ambiental. 

Na parte operacional, uma colaboradora faz a triagem do material. No caso do blister (embalagem de comprimidos), por exemplo, é separado o plástico do papel. “Isso ia para o aterro. Hoje eu consigo valorizar o papel, que vai para a indústria e volta como papel higiênico utilizado pelos colaboradores.” Silva pondera que, com a separação, a economia circular é trabalhada de uma melhor forma. “Sem a triagem ele é um lixo, com o procedimento, coloca cada um no devido lugar. Separamos e encaminhamos para indústria.”

“Nessa área somos totalmente sustentáveis. Temos cerca de R$ 6 mil de economia por mês. Deixamos de comprar papel. Na verdade, nem todo papel que enviamos para indústria retorna em rolos, a outra fica com a empresa.” O gestor explica que a iniciativa apareceu da necessidade. “Na questão da sustentabilidade financeira a gente tinha uma despesa alta com resíduo, pegamos e fizemos um cálculo de quanto a gente investiria em um ano e quanto retornaria. Fizemos o investimento e ele já se pagou”, declara.

Produtos que são produzidos dentro da instituição retornam para ela, focando na economia circular | Foto: Mauro Schaefer

Na questão ambiental, Silva revela que 30 toneladas de lixo deixaram de ser enviadas ao aterro sanitário. “Aqui entra a história do passivo ambiental, que era levado para Minas do Leão e São Leopoldo. Estamos encarando o resíduo como matéria-prima e não mais como lixo, porque atende os três pilares: sustentabilidade ambiental, econômica e social”, pontua. Ele frisa que a sustentabilidade social não foi esquecida. Foram contratados e capacitados seis colaboradores. Um deles, que recebeu ensino fundamental, médio e está finalizando o técnico em elétrica, será o novo técnico da unidade de saúde. 

Os resíduos infectantes também são reaproveitados. Na área de esterilização, qualquer possível contaminação biológica é eliminada. Tudo é colocado em uma autoclave (aparelho de esterilização) e, posteriormente, triturado. Dentro do equipamento são dispostos os aventais de TNT ou sujos de sangue. “Do material infectante nós fizemos um estudo e descobrimos que 70% é polímero, PVC ou polietileno. Poucas coisas não são plástico.” De acordo com ele, 30% do que é gerado não é reaproveitado. “Isso é basicamente resíduo comum e o químico, que totaliza de 3% a 4%.” 

Silva destaca que o ciclo está fechado para papel, plástico e o resíduo alimentar, que se torna adubo. “A próxima etapa é trabalhar também com o fornecedor, para nos entregarem produtos que possamos reutilizar. Para o polietileno de alta, por exemplo, já temos uma fornecedora de soro que não entrega mais de PVC. Isso é economia circular, que começo lá na ponta. Queremos fazer isso com todos os 2 mil fornecedores.”