Especialistas defendem importância de cumprir normas de saúde para frear a disseminação da Covid-19

Especialistas defendem importância de cumprir normas de saúde para frear a disseminação da Covid-19

Infectologistas e epidemiologistas criticam aqueles que não usam máscara, aglomeram e pedem fim o isolamento social

Gabriel Guedes

Para especialistas, o uso inadequado de máscaras é um dos fatores que fazem o vírus seguir circulando entre a população

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O enfrentamento à Covid-19, bem como ressaltou o governador Eduardo Leite na última quinta-feira, durante anúncio da bandeira preta válida para todo o Rio Grande do Sul, que entra em vigor neste sábado, não depende apenas dele assinar um decreto. Na ocasião, ele lembrou que todos os gaúchos precisam seguir nesta direção. E isso inclui que a população siga estritamente os protocolos e as recomendações. Um pedido corroborado pela crítica de especialistas em infectologia e epidemiologia, que pessoas que andam sem máscara pelas cidades, promovem aglomerações e frequentam festas clandestinas e eventos não autorizados, repetidas vezes, estão ajudando a piorar a situação já bastante deteriorada da pandemia no Rio Grande do Sul.

Se não bastasse, esse comportamento despreocupado com a saúde acarreta em prejuízos econômicos. Se houvesse a adoção em massa destas pequenas e cotidianas atitudes por muitos, poderia até não ser necessário medidas que restringem de forma agressiva o funcionamento do comércio e outras atividades, por exemplo.

“As medidas já preconizadas, desde o princípio, são as que nós sabemos. Não precisa repetir. E elas dependem basicamente do comportamento das pessoas. O que se tem visto, se não por toda população, mas por uma parcela significativa, são máscaras nos queixos, pessoas sem máscara, praias lotadas e festas clandestinas. Isso fez com que o vírus circulasse”, aponta o mestre e doutor em epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da Faculdade de Odontologia da instituição, Paulo Petry.

“Quando se fala aglomeração, se pensa como se fosse 30 ou 50 pessoas juntas. Mas quatro pessoas, de ambientes diferentes, juntas, já é uma aglomeração. As pessoas que se aglomeram, são responsáveis pela transmissão do vírus para outros”, acrescenta o infectologista e professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Alessandro Pasqualotto.

A médica do Controle de Infecção no Hospital de Pronto Socorro (HPS), Isabel Freitas diz que se a precaução fosse algo praticado por todos durante a pandemia, “o quadro seria bem diferente de hoje, com certeza”. Ela lembra também que as pessoas subestimam algumas situações e acabam colocando outras pessoas e a si mesmas em risco.

“Os surtos nunca são um fator só. São vários fatores juntos. As pessoas se liberam mais nas praias, nas festas de Natal e réveillon, bares, jardins e praças. O verão propicia isso. Mas ao mesmo tempo em que elas estão ao ar livre, estão próximas”, destaca.

Isso inclui encontros em família, onde as pessoas baixam ainda mais a guarda para a Covid-19. “Têm festas de família e aí as pessoas não usam máscara. E isso é muito complicado. E hoje em dia as pessoas precisam entender que precisam usar máscara, mesmo que sejam de outras casas. Se tem um positivo, positiva a família inteira”, alerta.

“Botar máscara, manter distanciamento, manter ventilação. Essas três coisas diminuem o risco”, repete a epidemiologista e reitora da UFCSPA, Lucia Pellanda. Mas ela lamenta que a população não tenha se cuidado e acredita isso foi significativo para o colapso do sistema de saúde neste momento, coincidindo com a circulação de novas variantes do Coronavírus, que segundo Petry, são também mais transmissíveis.

“É difícil que seja só uma das duas coisas. Mas o comportamento certamente é um elemento importante. As duas coisas juntas foram ingredientes explosivos. As pessoas praticamente desistiram do vírus, mas o vírus não desistiu de nós”, argumenta. Também houve o efeito ilusório da proximidade da vacinação, o que teria feito muitos se arriscarem ainda mais.

“Alguns já estavam vacinados e com a sensação de que estavam protegidos. Tem que vacinar 70% da população, pelo menos, para ver uma melhora. As pessoas tiveram uma falsa ideia de que as coisas iriam melhorar”, lembra Isabel. Já Pasqualotto diz que também tem gente se enganando com exames de farmácia que detectam Covid-19, que tendem a apresentar resultados que não são os verdadeiros. “Há uma invasão no mercado de testes pouco sensíveis”, avisa.

Mas essa condescendência de parte da população com as recomendações repetidas à exaustão já está custando caro e pode custar muito mais.  “Não sei o que será de nós. Os novos casos estão surgindo em um momento de colapso do sistema de saúde. Os vírus têm infectado mais jovens. E por mais que a gente tenha medidas duras, elas não vão poder durar para sempre, porque em um certo momento precisaremos de uma abertura. É preciso que cada uma tenha sua responsabilidade”, cobra Pasqualotto.

“Acredito que se todo mundo se cuidasse não seriam necessárias muitas restrições. Houve lugares que contiveram o vírus com muito menos restrições”, frisa Lucia. “Ainda vai piorar antes de melhorar. Agora a gente vai cuidar mais. Mas os próximos dias ainda vai ter um aumento (de casos, internações e óbitos). Ainda vai ter o reflexo de duas ou três semanas atrás. Mas temos que persistir. Temos que aguentar, porque vai passar”, conclui a reitora da UFCSPA.

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