Essenciais: Garis estão atentos para evitar o coronavírus

Essenciais: Garis estão atentos para evitar o coronavírus

Novo capítulo da série do CP mostra rotina dos trabalhadores que limpam a cidade em época de isolamento ou não

Por
Felipe Samuel

Coletores de resíduos saem para com luvas e máscaras para evitar a contaminação durante o trabalho nas ruas


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E ssenciais para evitar o alastramento de doenças e garantir a limpeza da cidade em qualquer época, as equipes das coletas regulares reforçaram os cuidados para recolhimento de materiais na Capital. Apesar de não usarem avental ou utilizarem instrumentos cirúrgicos para atender pacientes, os garis executam atividades de saúde pública que impactam no dia a dia da população. Somente em Porto Alegre, em média, são recolhidos 1,5 mil toneladas de lixo por dia. E no momento em que o novo coronavírus avança pelo Brasil, o trabalho desses profissionais ganha ainda mais importância.

Na sede da Belém Ambiental (BA Meio Ambiente), empresa contratada pelo Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) para efetuar serviços de coleta domiciliar, o entra e sai de caminhões e funcionários no hangar localizado na avenida Caldeia, no bairro Sarandi, zona Norte, demonstra a importância do serviço de coleta de lixo. Em meio à movimentação de veículos, Magno Maidana Mendes, de 34 anos, se prepara para mais um dia de trabalho. Se antes da propagação da Covid-19 os cuidados com a higiene já eram observados, a confirmação de casos na cidade o obrigou a redobrar atenção. “No dia a dia profissional, junto à minha equipe, procuro lavar as mãos sempre, passar álcool gel, usar máscara, além de outros equipamentos de proteção (EPI)”, afirma.

Há quatro anos, Mendes faz a coleta domiciliar naquele bairro. Se o trabalho já oferece riscos inerentes à profissão, que exige muitas vezes manuseio de materiais contaminados, com a chegada do novo coronavírus ele modificou alguns hábitos. O uso de álcool gel nas mãos se tornou frequente. Os EPIs também ganharam maior relevância, principalmente quando a equipe retorna para dentro da cabine do caminhão.

Solteiro, Mendes mora com o irmão Lucas, de 23 anos, e a tia Elisabete, de 40 anos. “Meu irmão também tem problema de saúde, por isso procuramos manter distanciamento com uso de máscara em casa em função da saúde dele”, revela. “Chego em casa, tiro a roupa e coloco para lavar. Faço higienização total do uniforme”, completa.

Mesmo em época de pandemia, ele garante que a população reconhece o esforço e dedicação da equipe. “Eles nos falam para continuarmos usando máscaras e ter maior cuidado em relação a pegar sacolas, em relação aos locais onde trabalhamos, e manter a cidade limpa”, admite. Mendes explica que é preciso tomar cuidado ao lidar com lixo para evitar acidentes e contaminação. “Sempre houve reconhecimento da população ao nosso trabalho, mas há destaque, hoje, com a chegada da Covid-19. Eles procuram conversar com a gente para continuar executando nosso serviço com maior cuidado possível”, frisa.

Colega de Mendes no caminhão de coleta de lixo, Valdeci Bica Rodrigues, de 32 anos, também viu a rotina profissional e familiar mudar com a necessidade de medidas preventivas para evitar contágio pela doença. Na empresa, onde trabalha há três meses, Rodrigues mantém no dia a dia cuidados de higiene como lavar as mãos com água e sabão e usar álcool gel. Durante o trabalho, o uso de máscaras e EPIs também garantem a segurança, além do reconhecimento da população, que elogia os cuidados no manuseio do lixo. “Eles dizem que se não fosse a gente, a cidade ficava suja”, destaca. “Várias empresas pararam, só nós que não paramos”, aponta.

Ao encerrar expediente e voltar para casa, adota os mesmos procedimentos. “Antes de entrar, já faço higiene. Tenho uma torneira na rua e sempre lavo as mãos, além de jogar uma água no corpo. Tiro a roupa, jogo na máquina e depois entro em casa”, explica. Casado com Andreia e pai de Laisla, de 11 anos, ele garante que outros cuidados também são adotados dentro e fora de casa. “O lixo sempre está organizado, temos local separado para colocá-lo”.

"A eração de resíduos ainda existe em casa"

Se o trabalho dos garis tem reconhecimento da maior parte da população, por outro lado existe ainda a necessidade de conscientização de moradores no que diz respeito ao descarte de resíduos. Ainda mais no momento em que existe a pandemia do novo coronavírus. É o que alerta o diretor-geral do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), René José Machado de Souza. “A geração do resíduo continua existindo, o que muda é o local da geração deste, que antes ocorria nos locais de trabalho é agora é gerado em casa. Não há redução da produção de resíduos”, afirma.

Souza ressalta que se não bastasse as 1,5 mil toneladas de lixo coletadas, em média, diariamente na Capital, as equipes ainda precisam dar conta de resíduos descartados irregularmente. O custo da operação para reparar a falta de educação e responsabilidade da população, por mês, dá dimensão do tamanho do problema para os cofres públicos: R$ 1,8 milhão. Éoque gasta a prefeitura para retirar resíduos descartados de forma irregular. “Toda vez que descartam assim, há custo maior, foge daquilo que se propõe. Esse valor poderia ser aplicado em saúde, educação, segurança ou outras prioridades que a cidade demanda e que está sendo, literalmente, jogado lixo”, compara.

Cuidados foram redobrados após início da pandemia. Foto: Fabiano do Amaral

Na sede da BA Meio Ambiente, a recomendação do DMLU à empresa terceirizada após o surgimento do novo coronavírus é redobrar os cuidados dos funcionários com a higiene. “Temos observado que prestadores de serviço têm ficado atento a isso, com medição de febre na entrada do expediente”, frisa. Ele garante que o DMLU orienta distribuir sabão, álcool gel e máscara, ou seja, todas medidas que visam à segurança do trabalho.

Chefe da Fiscalização de Coleta Domiciliar, Edmilson Gonçalves Lima, observa que o trabalho realizado pelas equipes de coleta é essencial para evitar proliferação de roedores e surgimento de doenças. Conforme Lima, a coleta domiciliar ocorre durante o dia e à noite de forma alternada. Exceto domingo, quando não há serviço. A rotina dos servidores começa na garagem da empresa, onde as equipes são distribuídas para atender aos bairros da Capital. Se a coleta não for realizada um dia, a equipe precisa trabalhar três dias para colocar em dia o cronograma de serviço. Por isso, Lima reforça que esse tipo de serviço ‘não pode parar’. “Aí vira uma bola de neve. Aquele dia que falhou já junta com a semana e levamos mais três dias para normalizar.”


Na coleta diurna são empregados 48 caminhões, enquanto à noite são mais 21. São 69 setores de coleta de resíduos domiciliares. Cada equipe é formada por um motorista e três coletores. Todos resíduos coletados na cidade são descarregados na Estação de Transbordo Lomba do Pinheiro (ETLP).