Imigrante alemã completa 100 anos em plena Páscoa

Imigrante alemã completa 100 anos em plena Páscoa

Anna Bley de Moraes veio com dois anos para o Brasil e vive em Porto Alegre

Felipe Nabinger

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Para muitas culturas e crenças a Páscoa representa o início de um novo ciclo. A metáfora é usada também ao completarmos mais um ano de vida. Imagine então celebrar um aniversário em plena data festiva. Não qualquer aniversário, mas sim um centenário. Anna Bley de Moraes nasceu no dia 17 de abril de 1922, em Bösel, na Baixa Saxônia, na Alemanha, um dia após a Páscoa daquele ano. “Vim com dois anos para o Brasil. Viemos de navio com a família toda”, relembra a moradora do bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre. Ela fala, além de português, o alemão tradicional e os dialetos Plattdeutsch e o Hunsrük, muito falado no interior.

A família, composta pelos pais, Klemens e Maria Helena, os irmãos, Maria Angela, Rosa Antonieta, Bernard, Heinerich, Johanna e Klemens Filho, mais os avós maternos, Angela Brinker Tebben e Johan Hein Tebben, fixou-se em Rolante, município que na época fazia parte de Santo Antônio da Patrulha, e que desde 1882 recebia imigrantes alemães. Já no Brasil, nasceram ainda mais dois irmãos Pedro e Elisabeth. Por complicações no parto, a Oma (avó, em alemão) Anna perdeu a mãe quando tinha cinco anos.

Inicialmente, a família buscou trabalho na agricultura, até que Klemens construiu uma atafona para produção de farinha. “Tinha mais gente, mas nós trabalhávamos ajudando. Tínhamos que ter boi e carroças para trazer a mandioca na roça. Ajudávamos cortando as pontas e passando na raladeira”, lembra, dando exemplo de funções que realizava apoiando a família. A produção familiar era exportada para diversas cidades, incluindo algumas de fora do Estado.

Em 1956, já morando na Capital, Anna conheceu Sérgio Câmara de Moraes, com quem casaria no ano seguinte. O Correio do Povo tem papel importante na história da aniversariante deste domingo de Páscoa. O encontro entre os dois foi justamente no prédio onde ambos trabalhavam e ainda hoje fica a redação do jornal. Anna trabalhava nos serviços gerais e Sérgio era mecânico das máquinas de linotipo, antigo sistema usado na impressão de periódicos. Em 1993, juntos, chegaram a viajar para a Alemanha, para a cidade natal de Anna, que lembra de ter visitado a casa em que os Bley moraram. “Vi minhas primas. Meu marido não sabia uma palavra de alemão. Ficamos lá umas três semanas”, relembra.

Ela deixou o emprego após o casamento, enquanto o esposo trabalhara, ao todo, durante 30 anos no jornal. Da união, nasceram os filhos Vitor e Beatriz. Anna, que já havia perdido a mãe cedo, passaria por um novo baque. Um acidente de trânsito culminou com a morte da filha, que tinha apenas 10 anos de idade, quando foi atropelada na avenida Plínio Brasil Milano, em 1970. Vitor, que tinha 12, relata que o trauma fez com que ele desenvolvesse síndrome do pânico, começando a se recuperar anos depois, por meio de tratamentos homeopáticos.

Anos depois, quando já passara dos 80 anos de idade, Anna viu o esposo desenvolver o mal de Alzheimer. “Eu fazia as coisas, cuidava dele. Os médicos diziam que eu não podia cuidar do meu marido, mas eu fiquei até o fim. Ele não estava incomodando nem nada. Ele me chamava de ‘meu anjinho’”, relembra a aniversariante, com carinho, junto a um álbum de fotos das bodas de ouro, quando completaram 50 anos de casados, em 2007. Por quatro anos, ela cuidou de Sérgio, falecido em 2009. Foi nesta época que Anna foi diagnosticada com câncer de mama, mais um desafio na vida desta imigrante. Aos 87 anos, ela encarou uma cirurgia e o tratamento, vencendo a doença.

Como uma espécie de presente, essa vitória coincidiu com a chegada do único neto, João Vitor, hoje com 12 anos de idade, filho de Vitor Bley de Moraes, hoje jornalista, que começou a carreira na rádio Guaíba, localizada no mesmo prédio em que os pais se conheceram.

Anna diz que não há grandes segredos para chegar aos cem anos e que nem esperava atingir essa idade. “Eu não sabia que ia viver cem anos. Mas sempre trabalhei, depois cuidei dos filhos”. Sem nunca ter bebido ou fumado, ela elenca a boa alimentação como algo que a ajudou. “Como uma fatia de pão com mel e canela, que dizem que é muito bom. Como muita fruta e verduras, além de tomar muita água. Estou bem, apesar da dor na perna para caminhar”, diz, lembrando que faz sessões de fisioterapia uma vez por semana em casa e que conta com uma cuidadora para tarefas domésticas.


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