Mais de 4,4 mil profissionais da saúde contraíram a Covid-19 no RS
capa

Mais de 4,4 mil profissionais da saúde contraíram a Covid-19 no RS

Segundo o governo do Estado, isto representa 11,8% do total de casos confirmados

Por
Jessica Hübler

Passo Fundo é a cidade que mais registra casos


publicidade

Mais de 4,4 mil profissionais da saúde apresentaram diagnóstico positivo para Covid-19 em 257 municípios do Rio Grande do Sul. Conforme o governo do Estado, foram 477 casos confirmados em julho e 2.283 casos em junho. No total, são 4.441. A cidade que apresentou o maior número foi Passo Fundo, na região Norte do Estado, totalizando 624 e reportou 59 novas infecções apenas nos oito primeiros dias do mês de julho. O primeiro caso confirmado de Covid-19 em um profissional de saúde no Rio Grande do Sul ocorreu em Porto Alegre, no dia 13 de março. A mulher já está recuperada.

Ainda segundo o levantamento do governo do Estado, 11,8% do total de casos confirmados são de profissionais de saúde e, além dos casos, foram registradas pelo menos quatro mortes: três técnicos de enfermagem e um médico. O óbito mais recente foi o da técnica de enfermagem da Fundação de Saúde Pública de Novo Hamburgo (FSNH), no Vale do Sinos. Mari Silva, de 52 anos, fazia parte do quadro de funcionários da Fundação e faleceu na segunda-feira, dia 6 de julho.

O diretor-presidente da Fundação de Saúde, Ráfaga Fontoura, reforçou que o óbito da profissional mostra o “heroísmo” de quem atua no combate ao coronavírus, além da necessidade de que a população leve a sério a epidemia. Entre as vítimas fatais do novo coronavírus na área da Saúde também está o médico do Brasil de Pelotas e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), José Raymundo, 70 anos.

Ele morreu no dia 22 de junho por conta da doença. Estava internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Raymundo atuava na área de Ortopedia e Traumatologia. As outras duas vítimas trabalhavam no Grupo Hospitalar Conceição. A técnica de enfermagem Mara Rúbia Cáceres, 44 anos, faleceu em 7 de abril e o técnico de enfermagem Abel da Cruz Neto, 61 anos, em 5 de junho.

Conforme levantamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), o Rio Grande do Sul é o 5º estado com maior número de casos da Covid-19 entre os profissionais da enfermagem. Até 9 de julho foram computados mais de 1,3 mil, entre confirmados e suspeitos. O número cresceu 120,94% entre 1º de junho e 9 de julho, passando de 616 para 1.361. Entre eles, 440 que tiveram o diagnóstico positivo, 177 não confirmados e 716 com suspeita estão em isolamento domiciliar. Entre as internações estão 11 confirmados e 15 suspeitos.

O presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS), Daniel Menezes de Souza, afirmou que a entidade tem muita preocupação com essas situações e que inclusive vem trabalhando e alertando desde o início da pandemia sobre essa exposição. “A enfermagem está 24 horas por dia junto aos pacientes, se submetendo a uma carga viral muito grande, por isso reforçamos a necessidade do correto fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), de qualidade e em quantidade, além da testagem dos profissionais”, afirmou.

Conforme Souza, o Cofen inclusive ingressou com uma ação judicial contra a União, no sentido de cobrar que o Ministério da Saúde faça uma ampla testagem nos profissionais que estão na linha de frente, especialmente da enfermagem. “Esse grande número já era esperado e está aumentando porque talvez esteja demorando essa testagem, estão sendo testados só os profissionais que apresentam sintomas, mas sabemos que a maioria que se contamina pode ser assintomática”, enfatizou, reforçando que as dificuldades podem aumentar agora, no inverno, por conta da concorrência com as demais doenças respiratórias. “Novos afastamentos podem ocorrer, não só pela Covid-19”, lembrou.

Afastamentos dos profissionais da saúde cresceu quase 40% em um mês

O número de profissionais da saúde afastados dos postos de trabalho no Rio Grande do Sul por conta da pandemia do novo coronavírus cresceu 38,18% entre o início de junho e o início de julho, chegando a pelo menos 2.052 no dia 3 deste mês. As causas são diversas, entre elas a suspeita ou a confirmação da doença, além dos afastamentos preventivos de funcionários que pertencem a grupos de risco ou que apresentaram sintomas gripais. O número é 160,07% superior ao registrado no levantamento de maio, feito pelo Correio do Povo, quando eram 789 profissionais afastados no Estado. No mês passado, este número chegou a 1.485.

Entre os afastados estão médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais funcionários dos setores administrativos das unidades de saúde. Em 12 das 19 cidades pesquisadas houve aumento no número de profissionais fora da linha de frente, em duas (Farroupilha e São Leopoldo) o número se manteve igual, sendo zero para Farroupilha e quatro em São Leopoldo. Já em Rio Grande, Esteio, Pelotas, Canguçu e Porto Alegre, o número é menor do que no mês anterior.

Na Capital o número de afastamentos chega a pelo menos 930. No Grupo Hospitalar Conceição (GHC) eram 645 afastados dos 9,1 mil no total. Conforme o diretor administrativo e financeiro do GHC, Cláudio Oliveira, os dados são da última sexta-feira, 3 de julho. Destes afastamentos, 497 estavam relacionados a síndromes gripais. Dos suspeitos e confirmados, Oliveira informou que desde o começo da pandemia, o GHC teve 366 que testaram positivo para Covid-19, sendo que 175 já retornaram ao trabalho e 191 seguem afastados. O número de positivos no GHC aumentou 226,78% no último mês, passando de 112 para 366.

No Hospital de Clínicas, até a tarde do dia 9 de julho, 285 funcionários estavam afastados, sendo 47 que aguardavam o resultado do exame do Covid-19 e 238, que tiveram resultado positivo e aguardavam o término do período de transmissão do vírus, de 14 dias, para retornar ao trabalho. No total, 2.027 funcionários do Clínicas foram testados e 323 tiveram diagnóstico positivo para o novo coronavírus, sendo que 85 já retornaram ao trabalho.

O presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Marcelo Matias, afirmou que vários dos afastamentos ao mérito inclusive dos gestores que se preocuparam com trabalhadores dos grupos de risco e, além disso, entre os técnicos de enfermagem houve maior risco. “Dentro das emergências e UTIs temos tipo um trabalho extenuante, e cada profissional que venha a ser afastado, é complicado também para quem fica na escala”, destacou.

Parece que a onda mais crítica da doença está chegando ao Rio Grande do Sul, de acordo com Matias, no pico do inverno. “Quando temos uma carência de leitos, acabamos tendo em um lugar mais restrito uma proporção maior de pacientes infectados pela Covid-19 e o risco de contaminação daquela equipe acaba sendo maior, por isso seria importante distribuir um número maior de leitos”, reiterou, reforçando a importância do uso de EPIs.

Matias enfatizou que nunca enfrentamos uma situação como essa. “É uma guerra contra um ser invisível, nunca tinha visto algo desse tipo acontecer e também teremos dificuldade de traçar uma estratégia adequada”, disse. Segundo ele, afastar grupos de risco é fundamental mas, além disso, o fornecimento de EPIs e o correto treinamento para os profissionais também é importante para que novos afastamentos sejam evitados. “O efeito é para todos, para as equipes que seguem atuando que terão escalas mais pesadas e para as pessoas que ficarão doentes e poderão ter dificuldades de atendimento”, declarou.

Cidades com mais casos confirmados em profissionais da saúde:


Passo Fundo: 628
Porto Alegre: 584
Caxias do Sul: 234
Novo Hamburgo: 232
Bento Gonçalves: 214
Canoas: 178
Santa Maria: 155
Lajeado: 111