Melhor expertise no enfrentamento à Covid-19 nos hospitais reduz taxa de letalidade

Melhor expertise no enfrentamento à Covid-19 nos hospitais reduz taxa de letalidade

Entretanto, coordenador do Grupo de Enfrentamento a doença do Cremers alerta para a possibilidade de colapso no sistema de saúde

Gabriel Guedes

Evolução do aprendizado do tratamento da doença ajudou a frear a letalidade no Estado

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Quem acompanhou o pronunciamento ao vivo do governador Eduardo Leite, no dia 30 de novembro, notou que o governador fez um parêntese a respeito dos óbitos pela doença no Rio Grande do Sul. "Uma notícia positiva é que os óbitos não acompanharam até aqui, pelo menos, o aumento observado nas internações. Os óbitos pararam de cair, mas não passaram a crescer ainda. Mas é um indicador tardio. Este aumento de internações em novembro pode significar um aumento de óbitos em dezembro", afirmou na transmissão ao vivo da última segunda-feira. De fato, os dados mais recentes do MonitoraCovid, da Fiocruz, apontam para um crescimento mais estável dos óbitos, um pouco mais acentuado dos casos e uma queda na letalidade no estado, que está em 2,12%.

Esta última avaliação o número de mortes em relação às pessoas que apresentam a doença ativa, e não em relação à população toda, ou seja, mede a porcentagem de pessoas infectadas que evoluem para óbito. E uma das respostas para este fenômeno está no tratamento efetuado nos hospitais.

"Até o dia 15 de novembro, o Brasil possuía a pior taxa de mortalidade dentre os 29 países com mais de 50 milhões de habitantes. Todavia, não possuía pior taxa de letalidade, estando, então, ordenado na 12ª colocação dentre os países referidos", informa o professor do curso de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e responsável pelo curso condução de crises e criação de gabinetes de crise em Saúde, Alcides Miranda.

Segundo ele, houve sim um conhecimento experimental agregado nos últimos meses, que implica em melhor manejo clínico das complicações e, portanto, numa diminuição da mortalidade. Mas sozinho não é o fator determinante.

"A interpretação desses dados significa que, infelizmente, tivemos as piores condições de transmissibilidade e contágio - daí a pior taxa de mortalidade -, mas, as complicações clínicas decorrentes não tiveram os piores desfechos - letalidade. A explicação mais plausível para explicar tal fenômeno possui três letras: SUS (Sistema Único de Saúde)", afirma. 

Para Miranda, se não houvesse o SUS e a rede de cuidados assistenciais especializados para lidar com as complicações, o que agrega o conhecimento clínico empírico referido anteriormente, a mortalidade seria ainda bem maior. Para o infectologista Alessandro Pasqualotto, coordenador do Laboratório de Biologia Molecular da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, a mortalidade depende muito do tipo de doente que se infectou.

"Se é mais gente jovem ou gente com menos comorbidades. Não há uma pesquisa científica que comprove isso. Mas concordo que as equipes estejam mais preparadas", pondera o médico.

"A cada dia tem sido um aprendizado novo. Em fevereiro e março, ninguém sabia de nada. Agora já sabem ter alguma ideia da evolução dos pacientes", acredita o diretor-presidente do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Cláudio Oliveira.

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Tanto é, que em no final dos primeiros 60 dias de pandemia, a taxa de letalidade atingiu o pico de 4,35% no RS. Entretanto, este aprendizado, reforça Miranda, não é fruto de nenhuma fórmula pronta. “Os conhecimentos que têm sido aprendidos nos últimos meses, não têm nada a ver soluções mágicas, como cloroquina, ivermectina, etc", descarta o professor.

"Isso pode ser visto de mais de uma forma. Toda doença, como a Covid-19, tem uma curva de aprendizado. Aprendemos, por exemplo, que podemos tolerar o paciente com o oxigênio mais baixo no sangue por um tempo maior, por meio de técnicas menos invasivas. Então este aprendizado não existia no começo. Além disso, o conhecimento acumulativo agora é bem melhor. Temos uma série de publicações cientificas, com terapêuticas que funcionam ou não. É uma vantagem em relação ao início da pandemia", analisa, o conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), Fabiano Nagel, que coordena o Grupo de Trabalho de Enfrentamento à Covid-19 da entidade. 

Colapso iminente

Mas Nagel alerta que a situação atual está exigindo ainda mais dos médicos e outros profissionais que atuam na linha de frente. "Hoje nós temos mais pacientes aguardando cuidados hospitalares, do que tivemos em qualquer outro momento da pandemia. Situação mais grave do que foi considerado o ápice, em julho. Agora temos a possibilidade real de colapso do sistema, que a gente vinha evitando desde o começo da pandemia", acredita.

"Agora não temos como resolver esta equação. Todos estão cansados. Mas não respeitar as medidas, acarreta em um efeito que é inequívoco: as pessoas vão morrer pela doença, que poderiam não falecer se as medidas fossem respeitadas de maneira sistemática", aponta.


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