Menos da metade dos moradores em situação de rua recebeu duas doses da vacina em Porto Alegre

Menos da metade dos moradores em situação de rua recebeu duas doses da vacina em Porto Alegre

Prefeitura de Porto Alegre pretende imunizar de 2.674 moradores de rua contra a Covid-19

André Malinoski

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A Prefeitura de Porto Alegre pretende vacinar um total de 2.674 moradores de rua contra a Covid-19. A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) imunizou com as duas doses da vacina até agora 963 pessoas nessa condição, ou seja, menos da metade. O número de vacinados com a primeira dose é de 1.799 pessoas nessa parcela do público-alvo. A situação não é simples como pode parecer em um primeiro momento e nem todos desejam receber a imunização. “A maior dificuldade é convencer que a Covid é uma ameaça à vida, pois a cada dia eles lutam para sobreviver à fome e aos mais variados tipos de violência na rua”, relata a SMS.

Qualquer cidadão que tem por hábito ou por necessidade caminhar pelas ruas da Capital percebe que há muitos moradores de rua debaixo de marquises, onde buscam proteção contra a chuva e até o forte calor; perto de estabelecimentos que lidam com alimentos, na expectativa de ganhar alguma sobra; em degraus de igrejas e sentados ou deitados em bancos de praças. Alguns ainda não foram vacinados, como é o caso de Leandro de Oliveira Leonadas, de 43 anos. “Não pude ser vacinado na Unidade de Saúde Santa Marta, pois não tenho carteira de identidade”, contou o morador de rua. Ele vive nessa situação desde que se separou da esposa há 15 anos. Ironicamente, estava sentado a poucos metros do Paço Municipal. “Pretendo ainda receber a vacina. Fiz o teste para saber se estava com Covid na Unidade de Saúde da Vila Cruzeiro e também no Hospital Vila Nova. Não estava contaminado”, diz aliviado.

As equipes de assistência e abordagem social, os abrigos e os Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros POPs) realizam o trabalho de educação para a saúde desse público. “Essas equipes informam sobre o uso de máscaras, sua troca, higienização, distanciamento social e sobre quais os sintomas e como acessar as Unidades de Saúde”, enumera a SMS. Apesar desse esforço coletivo, não é difícil flagrar moradores de rua sem máscaras nas ruas, o que representa um risco maior de serem infectados.

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João Antônio, 61 anos, vive há quatro anos em situação de rua. Enquanto descansava em um banco da Praça da Alfândega, compartilhou como procedeu para não ter se contaminado até agora com a doença. “Tomei a primeira dose e, assim que foi possível, recebi a segunda. Fui na Unidade de Saúde Santa Marta, aqui pertinho”, aponta com o dedo. Procurar essas pessoas em vulnerabilidade social também é uma alternativa. Conforme expõe a Secretaria da Saúde, “foram feitos levantamentos de locais na cidade para que as equipes das Unidades de Saúde possam fazer a vacinação itinerante. Dessa forma, as equipes integradas de saúde e de assistência social conseguiram acessar os usuários mais resistentes.”

A pessoa que vive em situação de rua chegou até essa realidade pelos mais diversos fatores. Uso de álcool ou substâncias psicoativas, desorganização familiar, desestruturação da família em razão do desemprego e questões de saúde mental são alguns dos motivos mais comuns. Antes alguns conseguiam pagar um aluguel modesto, o que agora está mais difícil. Dessa forma, os moradores de rua precisam de apoio social. “A parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) foi fundamental para alcançar o direito à vacinação, para uma população que, muitas vezes por dificuldades ao acesso a serviços de saúde e assistência, se expõe mais aos riscos, impactos e complicações ocasionados pela doença”, avalia a presidente da Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), Cátia Lara Martins. Não há dados sobre óbitos entre essa parcela da população. “Pois não é notificada a condição ‘em situação de rua’ junto com a causa da morte”, esclarece a SMS.

Atualmente, de acordo com levantamento da Prefeitura, existem mais de 2,6 mil moradores de rua na Capital, sendo a maior parte habitando no Centro Histórico. Em 2020, eram mais de 3,8 mil pessoas enfrentando essa situação, o que representa quase 39% a mais do que os dados de 2019. A pandemia foi uma das causas do crescimento verificado no ano passado. A vacinação dessa parcela da população pode amenizar em parte esse problema social.


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