Moradores de Guaíba relatam momentos de desespero em passagem de temporal

Moradores de Guaíba relatam momentos de desespero em passagem de temporal

Fortes chuvas causaram grande destruição no município

André Malinoski

publicidade

Os três gatos de estimação da cabeleireira Simone Assis, de 45 anos, estavam agitados nesta terça-feira depois do cenário de destruição deixado pela tempestade que atingiu Guaíba no dia anterior, danificando dezenas de residências, derrubando árvores, postes e até caminhões na estrada. “O estrondo foi horrível. Achei que minha casa estava caindo e me escondi debaixo da mesa com minha neta. Foram pelo menos uns dez minutos de terror”, lembrou. “O temporal destruiu a casa do vizinho e caiu tudo em cima da minha”, mostrava Simone em meio a destroços de concreto, madeira e sujeira. “Tenho seguro da casa, mas não sei como será para reaver tudo o que perdi”, compartilhava sua preocupação. 

A casa dela estava bastante danificada, com partes do telhado destruídas, paredes rachadas e móveis sujos de lama. O marido Claudiomar França Rocha, 45, salientou que seria difícil conseguir algum pedreiro ou carpinteiro para começar a arrumar tudo. “Estão todos trabalhando pelos bairros da cidade. A destruição é muito grande”, reconheceu o mecânico, parado perto da sala, outro local destruído pela força da natureza. “São coisas que a gente acha que só acontecem com os outros”, deixou escapar, não escondendo a incredulidade.

Foi uma manhã de semblantes abatidos e de limpeza. Os moradores do bairro Cohab, um dos mais afetados pela chuva da segunda-feira, carregavam telhas e colocavam lonas pelos telhados. A agente de trânsito Cecília Machado, da prefeitura de Guaíba, orientava as pessoas no cruzamento da avenida Nei Brito com a rua Osvaldo Jardim. O trecho estava interrompido em função dos postes inclinados e das árvores derrubadas. “Temos muitos postes e árvores caídas”, explicava para quem chegava sem saber ao certo o que encontraria pela frente.

Sem internet, luz e água

A diarista Eloá Boeira Vidal, 60, acompanhava ao lado de uma vizinha o cenário da destruição. “Foi tipo um tornado, que derrubou as árvores e arrancou telhas. As pessoas ficaram desesperadas”, recordou, dizendo que estava preocupada com a geladeira de sua casa por causa da falta de luz. Também não havia sinal de internet e faltava água em várias regiões da cidade. Sentado no outro lado da rua de onde tem uma loja de gesso, Anselmo Pedrozo, 59, contava que desde 1982, quando começou a viver no bairro, apenas dois outros temporais foram tão intensos. “Mas não tão violentos como o dessa segunda-feira”, pontuou. O comerciante lamentava que havia terminado de reformar sua loja apenas há duas semanas. “E acontece uma catástrofe dessas”, comentou, com as mãos nos joelhos e os olhos fixos no céu.

Quatro ou cinco quarteirões adiante, a cena era semelhante. Pessoas em cima de telhados trocando telhas, estendendo lonas e recolhendo restos de árvores e concreto dos jardins e até de dentro de casa. “Assim, com essa força, nunca tinha visto uma tempestade. Tenho que arrumar rápido porque daqui a pouco vem mais chuva”, acreditava o pedreiro Roque de Campos, 63, em torno das 10h, quando o tempo estava encoberto em Guaíba. 

Em uma das casas atingidas, a aposentada Eva Farias, 75, moradora há 40 anos do bairro Cohab, também queixava-se da falta de água e luz. “Os quartos destelharam e o meu marido e o vizinho estão consertando. O susto foi grande”, relatou, atrás das grades do portão principal. Perto dali, o comerciante José Edson Soares Leal, 66, também contava quantas telhas foram arrancadas pela força do vento. “Moro desde 1981 aqui e nunca vi isso. Parecia um tornado”, repetiu o que outros vizinhos também disseram sobre o temporal.

Um dos locais mais destruídos foi O Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Caudilho Guaibense, situado na avenida João Arnaldo Gonzáles, 220, era outro local completamente destroçado pela tempestade. A dona de casa Marcia Rasche, 39, atua como patroa do ponto de encontro e veneração aos costumes gaúchos. “Foi um desastre e eu só conseguia chorar, porque é como a segunda casa da gente”, comparava. “Vamos ter que nos reerguer de novo. Tentamos apresentar a cultura para os jovens aqui no CTG, onde temos quatro grupos atuantes”, afirmou, enquanto mostrava várias partes do teto descobertas e alguns quadros com fotos que escaparam da destruição empilhados em mesas.

Patroa de CTG afirma que só conseguia chorar com a passagem do temporal | Foto: Alina Souza 

Na BR-116, era possível ver árvores e galhos derrubados, além de muitos postes inclinados com os fios no chão. Equipes da prefeitura de Guaíba limpavam os trechos do acostamento da via em torno das 10h30min, recolhendo as partes dos vegetais. Um caminhão seguia tombado em outra parte da estrada. “A prefeitura instituiu o Comitê de Crise e decretou o estado de emergência enquanto o tornado ainda acontecia. Rapidamente, estabelecemos um protocolo organizado de ações. Trinta minutos após o desastre, as famílias já recebiam lonas. Atendemos mais de 31 famílias até o momento. Temos um QG (abreviatura de quartel-general) dentro do bairro Santa Rita, para atender ali e o Cohab, onde mora 20% da cidade e há a maior concentração dos estragos. Nesta terça, temos 150 homens nos bairros fazendo a recuperação e realizando a limpeza urbana”, explicou o diretor de Governança da prefeitura, Luís Maffini.

As lonas estão sendo distribuídas no QG, em frente ao Atual Supermercados, localizado na avenida Lupicínio Rodrigues, 1.551. Outra equipe da prefeitura está batendo de porta em porta para fazer um levantamento de quantas telhas precisarão ser compradas. 

Tornado ou não

Conforme a MetSul Meteorologia, o que ocorreu em Guaíba não foi um tornado. “A análise preliminar, com base nos dados disponíveis apenas duas horas depois do evento (avaliações de fenômenos severos de vento levam dias nos Estados Unidos), não sugerem que tenha sido um tornado a causa do vento destrutivo na cidade de Guaíba”, explicou o meteorologista Luiz Nachtigall.

“Tornado é um fenômeno que atravessa uma faixa limitada de terreno, deixando um rastro de destruição numa espécie de linha (irregular) por onde passa. Os danos observados na cidade de Guaíba ocorreram numa zona muito ampla em que os danos estão dispersos por muitos pontos. Os vídeos mostram vento destrutivo na horizontal e por um período prolongado e não de poucos segundos, como ocorreria em um tornado”, completou.


Mais Lidas

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895