Natal do reencontro: após um 2020 de distanciamento social, famílias voltam a se reunir

Natal do reencontro: após um 2020 de distanciamento social, famílias voltam a se reunir

Com o avanço da vacinação e o maior controle da pandemia, as festas de fim de ano voltam a programação normal

Giullia Piaia*

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As festas de fim de ano, em especial a de Natal, são, habitualmente, um momento de reencontro. Filhos voltam para a casa dos pais. Tios, tias e primos se reúnem na casa dos avós em uma grande ceia para celebrar o momento. O Natal de 2021, porém, trouxe reencontros especiais. Das centenas de eventos e confraternizações postergadas ou canceladas em 2020 por conta da pandemia de Covid-19, talvez o Natal seja a mais simbólica. Celebrações menores, marcadas pelo distanciamento social foram a regra no ano passado. Com o avanço da vacinação, que no Rio Grande do Sul passa de 80% de aplicação, muitas famílias puderam voltar a comemorar a data juntas.

A psicóloga Francine Guimarães Gonçalves destaca que o final de ano por si só é um momento gerador de ansiedades e angústias. "Somos seres sociais, fomos feitos para estarmos com pessoas. Sendo assim, aqueles que tem com quem compartilhar de forma saudável essas festividades experenciam a sensação de pertencimento, de trocas afetivas e bem-estar, o que pode reduzir demais dificuldades em outros domínios da vida", explica.

Luana Schwade passou o Natal com os pais em Santa Catarina. Foto: Arquivo pessoal / Divulgação / CP

Luana Schwade, aluna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, passou um Natal um tanto quanto solitário em 2020. "Eu tive Covid-19 bem na época e não pude ir pra casa dos meus pais", lembra. Maria Lisete e Paulo Schwade, pais de Luana, moram em Estrela enquanto ela se mudou para Porto Alegre para cursar a faculdade. A universitária não sentiu sintomas muito severos da doença. Perdeu o olfato e sentiu bastante cansaço, mas se recuperou rapidamente. Consciente, após receber o diagnóstico, Luana passou os dias em seu apartamento, evitando expor outras pessoas ao vírus. Isso, no entanto, significou passar a noite de Natal sozinha. "Eu sempre havia passado o fim de ano com meus pais, então não parecia que era Natal. Eles se mantiveram em contato comigo, me ligavam mais de uma vez por dia, e no dia de Natal nós fizemos uma ligação por vídeo", recorda. No dia 24, a estudante recebeu um presente dos amigos, que compraram comida no supermercado e entregaram na casa dela, para que ela pelo menos pudesse comer a ceia. Luana também sentiu as dificuldades de enfrentar a doença sem o carinho e cuidado da família. "Eu tinha que me alimentar bem, mas era uma luta para conseguir preparar até mesmo uma refeição simples", conta.

Já esse ano, ela pode novamente se reunir com os pais no Natal, todos com saúde, dessa vez em Santa Catarina, na cidade de Itapema. Não foi feita nenhuma grande festa, inclusive por cuidados com a situação da pandemia, mas ficou feliz de poder passar com a família esse momento especial. O irmão de Luana ficou em Estrela e passou o Natal com a namorada. "Como estávamos só em três esse ano, não fizemos aquela ceia tradicional com chester. Mas fizemos uma janta especial ainda assim, para marcar o momento", afirma.

A família do editor de vídeo Gian Panisson é grande e o momento de celebrar o Natal é aguardado o ano inteiro por todos. Cerca de 25 pessoas se reúnem anualmente na noite do dia 24. Tios, tias, primos e avó vão comer a ceia na casa da família em Vila Segredo, distrito de Ipê, na Serra Gaúcha. É a mãe de Gian, Elza Lorencet Panisson, quem organiza e se encarrega de todos os preparativos para a noite. "Como meus primos vêm de longe, minha mãe quer sempre ajeitar tudo, para ter lugar para todo mundo dormir, comida do gosto de todos", afirma Gian. Na pequena vila de cerca de mil habitantes, o Natal é uma data muito valorizada. Concurso de decoração de casas, com direito à troféus para os vencedores, visita do Papai Noel, coral de crianças e exibição de fogos de artifício são algumas das atrações natalinas. "É um clima bem legal. É uma situação bem atípica, é um lugar que nunca tem nenhum atrativo, mas o empenho das famílias na decoração das casas acaba mudando isso", opina. 

Coral natalino em Vila Segredo. Foto: Gian Panisson / Especial / CP

Em 2020, porém, as celebrações foram pausadas e muitos parentes não compareceram a ceia de Natal, respeitando as precauções por conta do coronavírus. A reunião desse ano, que contou com a participação de todos os parentes, foi, então, mais especial. "Eu estava sem ver alguns deles há dois anos, pois vejo só no Natal e ano passado não aconteceu", diz Gian saudoso. A celebração contou, inclusive, com a presença digital da prima Kamila Panisson que está em Portugal. Antes da janta, a família trocou presentes de amigo secreto. "Na hora de revelar o amigo, nós relembramos e falamos sobre momentos que passamos com aquela pessoa. Também é uma forma de presentear tias, tios ou outros familiares que não costumamos dar presente", conta.

O tradicional amigo secreto da família Panisson. Foto: Gian Panisson / Especial / CP

Anita Spies da Cunha é servidora pública e costuma participar de três celebrações de Natal. A primeira delas, durante o dia 24, com a família paterna do namorado, o engenheiro Augusto Scapini Alles. A segunda, na noite do dia 24, na casa da família dela, a tradicional ceia de Natal. E a última, no dia 25 com a família materna de Augusto. A agenda movimentada de final de ano ficou vazia em 2020, as celebrações com a família do namorado aconteceram virtualmente, por chamadas de vídeo. Até o amigo secreto foi feito de forma digital. "Aí simplificamos, era um presente por família. Nós ganhamos uma caixa de vinhos", relembra Anita. Esse ano, as festas voltaram com tudo e o casal participou dos três eventos com todos os outros integrantes das famílias. "Todos já se vacinaram, então nos sentimos seguros para voltar com as reuniões", comenta.

A festa do dia 25 é comandada pelas mulheres da família, que têm, inclusive, um grupo de Whatsapp só delas, para organizar tudo. "Cada uma leva um prato e uma bebida no almoço. E temos que comer por turnos, dos mais velhos aos mais novos, é tanta gente que não cabe todo mundo na mesa ao mesmo tempo", observa Anita. "Estou feliz com a volta das festas, por que, mesmo que tenhamos feitos encontros virtuais no ano passado, não havia o clima natalino, não parecia Natal".

Os três Natais de Anita: acima com a família Alles e abaixo com a família Scapini. Foto: Arquivo pessoal / Divulgação / CP

E aqui com a família Spies da Cunha. Foto: Arquivo pessoal / Divulgação / CP

A psicóloga Francine acredita que ter com quem confraternizar aumenta de maneira significativamente a felicidade. "Se questionarmos cada indivíduo, veremos que cada um de nós tem uma percepção e um sentimento sobre o final de ano. Baseado em suas vivências anteriores, no seu estado de humor atual, suas relações, entre outros fatores. Pesquisas sobre felicidade, apontam que aqueles que tem relações positivas e tem com quem contar, são pessoas com uma vida feliz. Ainda que, muitos possam estar sozinhos nesta data e estarem bem. Depende como cada um irá gerenciar e lidar com este momento", pondera. 

Aos que ainda passarão o final de ano sozinhos em 2021, Francine deixa um conselho: "trate-se como trataria um amigo querido. Cuide de você. Faça atividades prazerosas, alimente-se com algo gostoso, assista um vídeo ou uma música que lhe tragam um bem-estar. Viva este momento, com as emoções que surgirem dele. Seja uma boa companhia para você".

*Sob supervisão


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