Negócios não resistem à crise da Covid-19 e colocam em xeque sonhos de empreendedores

Negócios não resistem à crise da Covid-19 e colocam em xeque sonhos de empreendedores

Empresas tiveram que fechar as portas de foma temporária ou definitiva em Porto Alegre

Por
Gabriel Guedes

Pandemia do coronavírus provocou fechamentos temporários e definitivos em Porto Alegre


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Empreender no Brasil já é difícil, mas a crise econômica em decorrência das medidas de combate ao coronavírus acabou determinando o fechamento temporário e a alteração de funcionamento de muitos empreendimentos. Manter um negócio se tornou um desafio. 

De acordo com a pesquisa Monitoramento dos Pequenos Negócios na Crise, do Sebrae-RS, feita em abril, 70% dos empreendimentos foram afetados negativamente. Também tiveram 91% de redução no faturamento. E destes, 62% apresentaram uma redução de mais de 50% no faturamento. Em decorrência deste cenário, alguns já não aguentaram e encerraram as atividades de forma definitiva. O cenário, também repleto de incertezas, ainda pode corroborar com fechamentos.

Na rua Professor João de Souza Ribeiro, 1010, no bairro Humaitá, zona Norte de Porto Alegre, havia uma sorveteria. O ex-militar Jonatan Nunes Linhares, 28 anos, no dia 3, teve que executar uma difícil missão: fechar o negócio definitivamente. Há cerca de sete meses, depois de ter deixado as Forças Armadas após oito anos de trabalho temporário, ele e a esposa resolveram abrir o estabelecimento. 

“Foi a primeira experiência como empreendedor. A ideia surgiu por um estudo que eu e ela realizamos aqui no bairro Humaitá e percebemos que aqui poderia ter uma sorveteria com buffet de cachorro-quente, o que não existia aqui no bairro”, relembrou. 

Atividades tiveram que ser interrompidas. Foto: Alina Souza

Mas veio a pandemia do novo coronavírus e, com ela, a exigência de realizar tele-entrega ou retirada no balcão, o que acabou afetando em cheio o desempenho nas vendas e, por consequência, dificultar o custeio de despesas como energia, água e aluguel. “Para não virar uma bola de neve, tomamos a decisão de fechar para não ter um prejuízo muito grande”, ratificou Linhares. No último dia de funcionamento da sorveteria, ele torrou o pequeno estoque com 50% de desconto.

“Crise é bastante violenta”

“A crise é bastante violenta. É muito grave”, afirmou o diretor-superintendente do Sebrae-RS, André Vanoni de Godoy. “Não sabemos quando a situação vai melhorar. Esta crise tem como característica, não poupar ninguém. Há setores que ampliaram seus ganhos, como aqueles que operam por tele-entregas. Mas toda cadeia produtiva é atingida”, apontou. 

Para ao menos ter uma renda, Linhares afirma que vai trabalhar justamente com entregas e vai utilizar a moto e a mochila que era usada na sorveteria para isso. “Seguir adiante é complicado, já que minha experiência profissional é militar. Então, acabei ficando com a moto e com a mochila que era do negócio, e me cadastrei em aplicativos de delivery e também fiz contatos com estabelecimentos do bairro para fazer entregas”, contou.

O percentual de 44% de empresas gaúchas que pretendem manter seus negócios é razoável, de acordo com o levantamento do Sebrae-RS, que apontou ainda um índice de 27% de negócios que pretendem buscar um reposicionamento. “É um lado menos dramático, com empresários pensando em reposicionar suas empresas. Estes estão olhando para crise com outro prisma”, acreditou Godoy. 

Negócios criativos 

Neste ambiente hostil, empresas cujos negócios estão mais atrelados à economia digital e criativa têm mais chances de sobreviver. “Aquelas empresas que estão mais ligadas a negócios tradicionais, a crise fez com que perdessem o contato com seu consumidor. Nós imaginamos que o fluxo de pessoas vá demorar a voltar ao normal”, projetou o especialista. “Airbnb e Uber são digitais, mas por depender de pessoas se tornaram empresas inviabilizadas”, acrescentou Godoy.

O executivo do Sebrae ainda acredita que o momento, por mais desafiador que tenha se apresentado, vai colocar muitos trabalhadores que perderam seus empregos no caminho do empreendedorismo. “Tanto é que a modalidade de abertura de MEI (Microempreendedor individual) teve um crescimento muito expressivo como alternativa à falta de emprego. Não se pode falar mais de emprego tradicional, mas de ocupação. E o emprego não vai voltar a ser como era antigamente”, disse. 


Mesmo em meio à crise, Godoy acredita que ideias mais alinhadas ao momento poderão ter uma vantagem adiante. “O fato de começar por necessidade, não quer dizer que ele não possa fazer um bom negócio”, concluiu.