No Dia Internacional dos Arquivos, conheça os espaços de conhecimento e preservação da memória

No Dia Internacional dos Arquivos, conheça os espaços de conhecimento e preservação da memória

Milhões de documentos armazenados possibilitam viajar pelos séculos de acontecimentos que marcaram a história

Felipe Faleiro

Os três prédios do Arquivo Público reúnem documentos em 39 mil livros

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Espaços de conhecimento, preservação e memória, os arquivos públicos são locais onde é possível viajar pelos séculos de acontecimentos. O Rio Grande do Sul é bem servido destas instituições, mantidas, em sua maioria, por departamentos culturais ou de gestão do patrimônio. Sua importância se justifica pela disponibilidade de seu acervo, mas também por perpetuar a História como ela realmente foi, através dos documentos redigidos, filmados e fotografados.

Esta quinta-feira é o Dia Internacional dos Arquivos. A data marca o aniversário de fundação do Conselho Internacional dos Arquivos (ICA), criado em 1948 na França para nortear boas práticas arquivísticas, que por si só não envolvem apenas a guarda de materiais de interesse histórico, mas sua conservação e, principalmente, difusão ao público. Em 2009, o ICA estendeu as celebrações para a Semana Internacional dos Arquivos, e no Brasil ela é comemorada desde 2017.

“Os arquivos estão no dia a dia das pessoas e das instituições. Não importa se o documento é físico ou digital, se é uma fotografia, um papel, um processo, uma ata ou um contrato. O que importa são as condições contidas e registradas que garantem acesso a direitos, tanto a empresas quanto a pessoas”, salienta Vinícius Mitto Navarro, presidente da Associação dos Arquivistas do Rio Grande do Sul (AARS). Segundo ele, os registros permitem ainda a transparência, especialmente do poder público com relação aos atos relevantes à população.

Ingressar em um destes espaços dedicados à preservação ou ter em mãos algo que construiu parte da história de um povo é uma experiência que mexe de diferentes maneiras com os sentidos, e cria um senso único de responsabilidade. Mas, nos últimos anos, acontecimentos adversos, como os incêndios no Museu Nacional, do Rio de Janeiro, em 2018, e em um galpão da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, em 2021, nos quais milhares de itens se perderam nas chamas, colocaram novamente no holofote a necessidade de manutenção destas lembranças.

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Arquivo Público do Estado reúne 21 milhões de documentos

O Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (Apers), criado em 1906, tem 42 parceiros institucionais, entre entes públicos e privados. Sua sede fica na rua Riachuelo, no coração do Centro Histórico de Porto Alegre. Os três prédios reúnem cerca de 21 milhões de documentos em 39 mil livros, desde o ano de 1763 até os dias atuais. Mantido pela Secretaria Estadual de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), o local preserva a memória dos poderes Executivo, Judiciário e o registro civil, prestando assessoria ao governo, realizando oficinas e servindo à população.

“Todo mundo tem sua história, sua carteira de vacinação, certidão de nascimento, e isto vai contar a sua. As instituições também a têm, então como saberíamos o que aconteceu em tempos passados se não houvéssemos preservado estes documentos? Também estamos produzindo história enquanto estamos organizando”, afirma Aerta Grazzioli Moscon, diretora do Apers. A chefe da Divisão de Preservação, Acesso e Difusão do órgão, a arquivista Carla Segatto, diz que o local não é apenas para pesquisadores.

“Não adianta o arquivo ser colossal, se não pudermos ofertar isto para a sociedade. Existimos para que as pessoas possam conhecer e estudar estes documentos e ainda desenvolver trabalhos”, diz ela. O Apers está retomando as visitas presenciais agendadas e guiadas, com datas a partir do próximo dia 15 de junho, com horários às quartas-feiras, às 10h, e às sextas-feiras, às 14h. É preciso enviar e-mail para apers@spgg.rs.gov.br. As visitas virtuais agendadas também seguem sendo realizadas.

Com um acervo permanente de 60 mil itens, entre eles 11 mil títulos de filmes, a Cinemateca Capitólio, também no Centro Histórico, mantida pela Prefeitura de Porto Alegre, concentra grande parte da rica produção artística gaúcha e nacional ao longo das décadas, além de diversas obras estrangeiras. Filmes em rolos, CDs e fitas, livros e revistas relacionadas ao cinema, roteiros originais e cartazes, entre outros, compõem espaços dedicados do lugar, mais conhecido pela icônica sala de exibição para 164 espectadores. Há ainda áreas de tratamento técnico destes materiais.

Grande parte dos arquivos armazenados foi doada por profissionais da área, como cineastas, críticos de cinema, professores e jornalistas. “São materiais únicos, que não se encontram em outras partes. É muito importante manter um espaço como este, para consulta e memória futura, porque os filmes são materiais delicados, e requerem um tratamento especial para sua preservação”, salienta Rosemeri Franzin Iensen, arquivista da cinemateca. A biblioteca do espaço funciona de terças a sextas-feiras, das 8h ao meio-dia, mediante agendamento, e das 13h30min às 17h30min.

Arquivo Histórico concentra memórias de Porto Alegre

O Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho (AHPAMV) está localizado em um casarão construído em 1904, no bairro Santo Antônio. Hoje, concentra cerca de 2 milhões de documentos relacionados aos atos da Administração Municipal, desde o ano de 1764, época em que a cidade ainda não havia sido fundada. Uma hemeroteca (pesquisa de jornais) e uma mapoteca (pesquisa de mapas) também estão disponíveis. No entanto, ainda que o local esteja bem preservado, ainda há alguns problemas.

O ar-condicionado, por exemplo, está estragado há três meses, e para evitar a deterioração, os documentos devem ser mantidos em condições controladas de temperatura e umidade. “Comportamos três patrimônios, o ambiental, o documental e o arquitetônico. A população, além de vir conhecer a história do município através dos documentos, vai ter todo o contato com a natureza através das árvores tombadas e dos prédios”, conta Vera Lúcia Santos dos Santos, diretora do AHPAMV.

“A História é de todos e ela está sendo escrita o tempo todo, por considerar todos os sujeitos e agentes. Tentamos fazer com que a pessoa se sinta pertencente ao lugar onde ela está”, diz Adrielle Chiesa Gaio, estagiária no local e estudante da graduação em História na Ufrgs. Eventualmente, o Arquivo Histórico exibe parte de seu material. Em meio à Semana Nacional dos Arquivos, mapas históricos desde o período do nascimento de Porto Alegre estão sendo exibidos no salão de exposição, que ocupa parte de um dos edifícios.

Correio do Povo, um dos acervos mais completos do Rio Grande do Sul

Os principais acontecimentos da História passam até hoje pelas páginas do Correio do Povo. Fundado há 126 anos, o veículo mantém um arquivo robusto, tanto em fotografias, quanto em suas milhares de edições, catalogadas e organizadas em pastas, por sua vez guardadas em prateleiras e armários. “Sem dúvida, temos um dos arquivos mais completos em termos de registros históricos do Brasil”, diz Renato Bohusch, chefe do Arquivo Fotográfico do CP e titular da coluna Há um Século no Correio do Povo.

Bohusch, funcionário há 46 anos, fala com paixão e propriedade sobre o material ao qual zela e sabe como poucos as inúmeras histórias vividas dentro do jornal, cujo acervo ele define como “fantástico”. Sabe ainda os locais onde cada imagem repousa dentro dos arquivos existentes. “É fundamental que possamos preservar este patrimônio histórico, que é principalmente dos gaúchos. O trabalho de mais de uma geração está aqui, então este material é para quem quer fazer e entender a história do Rio Grande do Sul. Todos os fatos mais marcantes do último século estão aqui”, reforça ele.


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