“O salário vai atrasar e vou dizer o porquê”, diz Melo sobre greve dos rodoviários

“O salário vai atrasar e vou dizer o porquê”, diz Melo sobre greve dos rodoviários

A mobilização seguirá até a votação na Câmara do projeto

Christian Bueller

Segundo o prefeito, a privatização resultará em uma tarifa mais barata

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Os rodoviários da Carris permanecem em vigília na frente da sede da empresa na rua Albion, no bairro Partenon, na zona Leste de Porto Alegre. A mobilização seguirá até a votação na Câmara do projeto que trata sobre a desestatização da companhia, o que poderá ocorrer já na sessão que reunirá os vereadores nesta segunda-feira. Além de se oporem à privatização, os funcionários são contra a demissão de trabalhadores e a extinção gradual do cargo de cobrador.

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As deliberações contidas no projeto de lei enviado pelo prefeito Sebastião Melo ao Legislativo afetam diretamente pessoas como Leandro Nascimento, 38 anos, cobrador há sete. Conhecido como Náufrago, ele iniciou na vigília ainda na madrugada de domingo e ficaria mobilizado até as 19 horas junto a outros colegas, que se revezam desde quarta-feira do lado de fora da garagem da Carris. “Cravamos o pé aqui, organizamos uma estrutura básica e só arredamos com a retirada do projeto da votação”, garante. Nem a chuva incessante que começou no sábado tirou o foco dos funcionários, que exibiram faixas com os dizeres “Carris Unida jamais será vendida!” e “Prefeito Melo# A Carris é do povo de Porto Alegre” integram a mobilização. “Foi um perrengue de noite, mas conseguimos uns gazebos para nos proteger. Estamos fortes”, contou.

O projeto de lei prevê um período superior a um ano em que os rodoviários da Carris poderão escolher entre um plano de demissão voluntária (PDV), a aposentadoria ou a requalificação por meio de cursos. Nem mesmo a ideia de um improvável reaproveitamento em outra função atrai Nascimento. “Apesar da aprovação do fim do cargo de cobrador em Porto Alegre, ainda não desisti, vamos rumo à vitória”, diz, otimista, apesar de não esconder a tristeza com o resultado de 1º de setembro. “É cruel. Aquelas pessoas que votaram ‘sim’ ganham em um mês o que eu levo um ano para receber”, lamenta. Casado, mas ainda sem filhos, o cobrador lembra que as mudanças não afetam somente os funcionários da Carris. “Serão milhares de pessoas, incluindo as famílias, diretamente atingidas”, completou.

Sebastião Melo reafirmou a posição de cortar de ponto e salário imediatamente de trabalhadores se não for cumprido o acordo judicial na greve da Carris. A Justiça do Trabalho determinou a manutenção de, no mínimo, 65% da frota de ônibus operando em Porto Alegre e multa diária de R$ 20 mil ao sindicato da categoria em caso de descumprimento. O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transporte de Porto Alegre (Stetpoa) reiterou que o movimento, “de dentro para fora” da empresa por parte dos funcionários, não pode ser considerada greve de fato, já que “não é 100% e foi achatada” após a mediação.

Melo disse esperar uma manifestação “concreta” por parte dos rodoviários. “Abri um prazo de dez dias mas se dizer contra a privatização sem apresentar proposta não me comove. Eu falei para eles ‘vocês têm propostas para zera o déficit da Carris? Assumem a diretoria?’, os dez dias passaram e não teve manifestação neste sentido”, garantiu o prefeito. Ele diz lamentar a greve dos rodoviários. “É injusta e inoportuna, feita por quem está recebendo em dia. A empresa tem um prejuízo de R$ 500 mil por dia com a greve. Então, no final do mês, o salário vai atrasar e vou dizer o porquê”, advertiu.

Segundo o prefeito, a privatização resultará em uma tarifa mais barata. “Dois motivos explicam por que a passagem de ônibus de Porto Alegre seja a mais cara das capitais brasileiras: o número excessivo de isenções, que chegam a 30%, e o custo-Carris, que é 21% mais alto do que qualquer quilômetro rodado por empresas privadas. Essa empresa tem um faturamento de R$ 6 milhões por mês e custo no bolso do cidadão é o dobro disso. Esse valor eu colocaria na questão dos moradores de rua”, frisou. “O serviço é publico, mas pode ser prestado por um parceiro. Está cheio de bons exemplos por aí na saúde e na cultura”, disse Melo.


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