Oitavo dia do julgamento da Kiss tem ex-prefeito e depoimento marcante de Kiko Spohr

Oitavo dia do julgamento da Kiss tem ex-prefeito e depoimento marcante de Kiko Spohr

Elissandro Spohr, o Kiko, foi o primeiro dos quatro a falar, já na noite desta quarta-feira; Cezar Schirmer abriu os trabalhos

Correio do Povo

Spohr se emocionou ao dirigir-se para os familiares

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O oitavo dia de julgamento do caso da Boate Kiss foi realizado na noite desta quarta-feira, no Foro Central de Porto Alegre. As oitivas foram marcadas pelo início dos depoimentos dos réus. O primeiro a falar, já na noite de quarta-feira, foi Elissandro Spohr, o Kiko. O ex-prefeito Cezar Schirmer falou ainda pela manhã. Foi mais uma sessão longa, encerrada apenas por volta das 21h30min.

Por volta das 18h05 desta quarta-feira, 8, o juiz Orlando Faccini Neto chamou o réu Elissandro Spohr, o Kiko, para depor - o primeiro dos quatro acusados. Acompanhado pelo advogado Jader Marques, Kiko respondeu somente a perguntas do juiz Faccini e do seu advogado.
        
Ao ser questionado pelo juiz sobre a sua moradia, família e trajetória nos negócios, o réu disse que reside atualmente em Porto Alegre e que morou em diversas cidades do Estado. Kiko destacou que trabalhou com transporte e pneus antes de ser dono da Boate Kiss. Ao falar da família, Elissandro Spohr disse que a relação com o pai é distante. "Conheci meu pai com 12 anos de idade. Ele tem a família dele e eu tive com a minha mãe e irmã. Não somos inimigos. Eventualmente a gente se encontra", revelou.
         
Ao responder sobre o poder aquisitivo do pai, Kiko disse que não sabe e que sempre viveu do seu trabalho. "Trabalho desde os 10 anos deidade. O poder aquisitivo do meu pai, nem eu sei exatamente", ressaltou. Sobre o início da Boate Kiss, o réu lembrou que a música e a banda acabaram sendo o caminho para tornar-se proprietário de casa de festas, a Kiss. "Sempre tive espírito empreendedor. Desde os tempos que tive banda de rock gaúcho e tocava em circuito de shows, lembrando que comprou Kiss do ex-proprietário Thiago Mutti por um carro e R$ 15 mil. 
         
Elissandro Sphor destacou que no início não tinha posição ativa na Kiss, mesmo tendo comprado a boate recentemente. "O Alexandre era quem tocava a boate", afirmou Kiko, que destacou que no final acabou comprando a parte das demais pessoas que estavam na sociedade. Ele lembrou que o sucesso da Boate Kiss começou com a noite "Quinta Absoluta". "Era uma festa especial", disse emocionado, destacando ainda: "Se lembra só da parte ruim, mas também teve a parte boa", enfatizou.


         
Ainda durante o depoimento, Kiko destacou que no início não sabia enviar agenda para rádios nem quantas bebidas deixar num freezer. "Minha mãe e irmã começaram a trabalhar e me ajudavam muito", revelou. Ele lembrou que o barulho da boate e as pessoas fumando do lado de foram começaram a gerar problemas.

Kiko disse que nunca viu a banda Gurizada Fandangueira usar artefatos pirotécnicos em show na Kiss. "Eu não vi eles fazerem esse negócio. Não vi banda nenhuma fazer show pirotécnico. Se fizeram, eu não vi. A gente já discutiu até quando foi preso, lembrou Spohr, que disse ainda não lembrar se a banda pediu para usar artefatos. "Se tivessem pedido autorização não deixaria. Não autorizei o uso na noite da tragédia", ressaltou.
        
No depoimento, Spohr falou também  sobre a acusação de que os dutos da boate estavam desconectados na noite da tragédia, e que por isso não deram vazão à fumaça tóxica. "Os dutos não eram para saída de ar. Eles tinham outra função", afirmou. Bastante emocionado, Kiko lembrou que lidava com um cliente embriagado que causava incômodo na casa noturna, quando alguém lhe disse: "pegou fogo no palco". Chorando, o réu disse que gritou "sai, sai", para as pessoas abrirem as portas para todos da boate saírem
        
Com o relato de Kiko, o momento ficou bastante tenso no plenário. Ele chorou muito ao contar ao juiz Orlando Faccini Neto quando ficou sabendo da contagem de mortos. Sphor lembrou que tentou entrar na boate para ajudar, mas algumas pessoas não deixaram. Disse que começou a quebrar a parede da Kiss com as mãos durante o incêndio, para sair a fumaça. O réu destacou também que num determinado momento foi retirado por um pessoa do local com temor de represália. "Fui a delegacia informar sobre o incêndio. Querem me prender,me prendam. Estou cansado. Eu não quis isso. Não escolhi isso. Perdi amigos e funcionários", disse aos prantos Elissandro Sphor.

Mais calmo, após o intervalo determinado pelo juiz Orlando Faccini Neto, Elissandro Sphor  relatou ao juiz que processou o promotor de justiça Ricado Loza, o ex-prefeito de Santa Maria, Cesar Schirmer, o Corpo de Bombeiros e os músicos. "Processamos porque tínhamos o entendimento que essas pessoas também tinham que ajudar a explicar o que aconteceu na boate Kiss", explicou o réu, que destacou que foi na delegacia de polícia para pedir ajuda. "Fui lá por volta das 4h da manhã. Não fui na delegacia para me defender", enfatizou.

Perguntado por Faccini Neto sobre a relação posterior com as vítimas, Sphor disse que "queria dar um abraço".  O juiz respondeu que o réu poderia ter mandado uma carta aos pais, porque o abraço não seria possível. "O abraço exige reciprocidade", destacou Faccini. Kiko lembrou que o advogado dele, Jader Marques errou na petição de 20 de janeiro de 2013, quando disse que o limite da boate Kiss era de 600 pessoas. "Eu só assinava os documentos. Ele era o meu advogado. A gente não deixava entrar mais de 800 pessoas. Entrava conforme saía. Nosso sonho era chegar a mil. Não eram mil pessoas ao mesmo tempo. Era no giro, explicou Sphor, lembrando que os extintores foram recarregados semanas antes da tragédia. "O extintor do palco não funcionou, não sei se não tiraram o pino. Era minha responsabilidade, da casa, com certeza. Se tivesse funcionado, quem sabe não teria acontecido isso", disse o réu, que destacou, ainda, que a "Kiss não era a boate em que uma banda foi contratada pra ir lá e colocar fogo e matar alguém. Isso nunca passou pela nossa cabeça", afirmou Kiko.

Ex-prefeito também falou 

Quem abriu os trabalhos foi o prefeito de Santa Maria na época da tragédia, Cezar Schirmer. Em seu depoimento, o ex-chefe do Executivo se limitou a dizer que "houve um incêndio e a prefeitura não tem nenhuma responsabilidade sobre esse assunto”. A avaliação dos familiares é de que a testemunha está aproveitando para se promover politicamente com o júri. 

A oitiva de Schirmer era uma das mais aguardadas no julgamento. O ex-prefeito disse que ficou sabendo do incêndio por volta das 3h45min ou 4h da manhã daquele dia. Ele estava em casa dormindo com a esposa. “Quando eu cheguei lá havia muita tristeza”, disse.

O depoente afirmou que a gestão municipal de Santa Maria não fez nada para contribuir com o incêndio na Boate Kiss. Por várias vezes, Schirmer criticou o andamento do inquérito contra ele após a tragédia. “Desde o começo eu ouço insinuações de que deveria estar aqui, não como testemunha, mas como réu. Não fiz nada!”, exclamou. 

À época dos fatos, a investigação concluiu que o ex-prefeito estava entre os 28 responsáveis pelo incêndio que matou 242 pessoas na casa noturna. O inquérito contra o ex-prefeito foi arquivado pelo Ministério Público em 2016. No entanto, Schirmer continuou a fazer críticas sobre o processo, que definiu de "aberração jurídica", afirmando que “era notável é notória a má vontade da polícia”. 

Em outro momento, Schirmer disse que nunca quis dar entrevistas sobre a tragédia. "Imaginem: a cidade em uma tragédia como aquela e o prefeito começar a debater com policiais, bombeiros, promotores, jornalistas…” explicou, afirmando estar feliz por, hoje, “falar livremente” sobre o caso. 

Em protesto ao depoimento do ex-prefeito Cezar Schirmer, familiares das vítimas e sobreviventes da tragédia da Boate Kiss deixaram o plenário do júri do Foro Central, de Porto Alegre, nesta quarta. Após a manifestação, a sessão foi interrompida por alguns minutos. 

Promotor afirmou que MP não recomendou espuma 

O promotor de Justiça Ricardo Lozza contou que no projeto elaborado a pedido de Elissandro Spohr, um dos sócios-proprietários da casa noturna, para tratar a poluição sonora da boate não constava a instalação de espuma. “Não dá para dizer que a espuma tinha relação com o projeto que vem do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Jamais o Ministério Público recomendou qualquer coisa em relação à espuma. Nesse projeto não existe a palavra espuma", afirmou sobre o projeto de isolamento acústico da Kiss. 

Conforme o promotor, vizinhos do bairro da Kiss reclamaram de som alto do lugar em 2011 e um TAC foi firmado e apresentado pelo Ministério Público a Spohr. Uma das cláusulas foi a reparação de R$ 500 paga pela boate. Segundo Lozza, o TAC tinha três eixos principais a serem acordados com Spohr: reparação de danos com pagamento de multa, regularização estabelecida por meio de um prazo dado e contratação de um profissional para fazer um projeto de isolamento acústico no estabelecimento.  

A atuação de Lozza era na área ambiental, lidando com reparação civil. Segundo o promotor, som alto é considerado um dano ambiental. “Questionei se ele (Spohr) tinha licença, oficiei ao município. Foi dado um prazo para que ele buscasse a regularização junto ao município. No ensejo da tragédia, ele já tinha licença ambiental válida. O terceiro ponto foi a contratação de um profissional habilitado para fazer um projeto de isolamento acústico e executar o projeto de isolamento acústico”, explicou o promotor.

O gerente de vendas Geandro Kleber de Vargas Guedes também falou nesta quarta-feira. Ele afirmou que a conduta dos réus Mauro Hoffman e Elissandro Spohr na gestão de casas noturnas era muito boa. "Posso dizer e comprovar que o Mauro, como pessoa jurídica e empresa geradora de emprego, tudo que ele acordava conosco, sempre foi muito correto. Sempre tivemos ele como um grande parceiro e um grande empresário", afirmou na sessão do Foro Central de Porto Alegre. Guedes trabalhava fornecendo bebidas para a Kiss. 

Ele disse ter tido uma relação de menos tempo com Spohr, mas destacou que o sócio da boate na época também tinha aptidão para o ramo da noite. "Os dois têm capacidade de gestão. Acredito que prova de tudo é que a casa era o que ela era", afirmou. Guedes disse que nunca foi na Kiss durante as festas, nem assistiu a alguma apresentação da banda Gurizada Fandangueira. Também declarou nunca ter tido conhecimento que o grupo musical fazia performances com artifícios pirotécnicos.

Por volta das 21h25, após o advogado Jader Marques abrir mão de fazer questionamentos, o juiz Orlando Faccini Neto encerrou o interrogatório de Elissandro Spohr. O júri volta na quinta-feira,9, com os interrogatórios dos outros três réus.


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