Pesquisa identifica metais potencialmente tóxicos no Arroio Dilúvio

Pesquisa identifica metais potencialmente tóxicos no Arroio Dilúvio

Metais mais encontrados no trecho entre Porto Alegre e Viamão foram zinco, chumbo e cobre

Correio do Povo

Metais mais encontrados no trecho entre Porto Alegre e Viamão foram zinco, chumbo e cobre

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Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCS) analisou em detalhes a contaminação por metais no Arroio Dilúvio, córrego que se estende por 18 quilômetros entre Viamão e Porto Alegre. A partir da análise de sedimentos, os pesquisadores descobriram que a poluição do Dilúvio cresce ao longo de sua extensão – ou seja, o arroio carrega metais potencialmente tóxicos, como zinco, chumbo e cobre, além de elementos orgânicos, como carbono, nitrogênio e fósforo, para o Guaíba, que abastece Porto Alegre.

A pesquisa, que faz parte do mestrado do engenheiro agrônomo Vinícius Maggioni dos Santos, também analisou sedimentos das chamadas “ilhas”, os bancos de areia que vão se acumulando no meio do arroio e onde crescem plantas de forma espontânea. Nesses locais, foi encontrada uma alta concentração de metais potencialmente tóxicos, especialmente zinco, cobre e chumbo. O grupo de pesquisa ainda coletou três espécies de plantas que crescem espontaneamente nessas ilhas e investigou a viabilidade de usá-las como “filtros” desses metais. Os cientistas descobriram que as plantas acumularam metais – especialmente o zinco – em suas raízes, o que aponta que elas podem atuar como barreiras para os contaminantes, reduzindo a quantidade deles que chega ao Guaíba.

“Essa é a primeira avaliação com esse nível de detalhamento da poluição ao longo do arroio, especialmente focando na contaminação por metais potencialmente tóxicos, que não é visível e nem perceptível no gosto ou no odor da água”, enfatiza Tales Tiecher, coorientador de Vinícius e professor do PPGCS.

Na primeira etapa do trabalho, Vinícius coletou amostras de sedimentos em 15 pontos dos quase 18 quilômetros de extensão do Dilúvio (das nascentes até a foz). Na segunda fase, foram coletadas mais cinco amostras de sedimentos e plantas das “ilhas” que se formam na área canalizada do arroio. Os pesquisadores ressaltam que um dos motivos de analisar toda a extensão do arroio é poder comparar e verificar o grau de contaminação em cada um dos pontos.

Apesar da poluição do Dilúvio aumentar ao longo da extensão do córrego, as amostras de sedimento coletadas já na parte inicial (na Represa Lomba do Sabão, no Parque Saint-Hilaire, em Viamão) apresentaram um alto índice de carbono e de metais potencialmente tóxicos: zinco, cobre, chumbo, cromo e níquel. Segundo os pesquisadores, isso ocorre em função do esgoto doméstico das comunidades vizinhas, que é lançado na água sem tratamento adequado.

“Se o sedimento tem muito carbono, ele acaba acumulando mais metais, em especial os potencialmente tóxicos”, acrescenta o pesquisador e integrante do grupo Leonardo Capeleto de Andrade.

Outro aspecto que influencia na concentração de metais e que foi analisado na pesquisa é a granulometria, ou seja, o tamanho das partículas. A caracterização da granulometria não serve apenas para saber o tamanho de determinada partícula, mas também sua capacidade de retenção.

“As partículas mais finas são ricas em minerais com capacidade de reter nutrientes, além de metais e outros contaminantes. Isto é, quanto mais fina é a partícula, maior é a capacidade dela de adsorver (aderir moléculas a uma superfície sólida) esses compostos”, explica Tales.

Vinícius acrescenta que, nas amostras coletadas na Lomba do Sabão, as partículas dos sedimentos são mais finas, uma vez que naquele ponto a água fica mais parada do que no restante do córrego: “Nós encontramos um pico de contaminação nesse local também porque as partículas ficam mais tempo ali. À medida que a água vai correndo no restante do Dilúvio, a granulometria dos sedimentos é maior, porque as partículas mais finas vão sendo carregadas pelo curso da água”.

Contaminação nas plantas do córrego

Qualquer pessoa que passe próximo ao Dilúvio percebe, pelo aspecto e pelo cheiro da água, que o arroio é bastante poluído. Foi pedalando às margens do Dilúvio, rumo à Faculdade de Agronomia da Ufrgs, que Vinícius teve a ideia para a segunda parte da pesquisa. “Todo dia, indo de bicicleta para o campus, eu ia reparando nas ‘ilhas’, e, conversando no grupo de pesquisa, decidimos que seria interessante estudar as plantas que crescem nelas, para ver o quanto elas absorviam daqueles metais”, conta.

Foram coletadas, então, amostras de três espécies de plantas abundantes nas “ilhas” – a braquiária, o sorgo e o capim-arroz – para investigar a possibilidade de usá-las para fitorremediação.

Tales explica que fitorremediação é, basicamente, utilizar uma planta para resolver um problema. “As plantas têm capacidade de absorver elementos. Muitos elementos são nutrientes, porque elas precisam, por exemplo, de cobre e zinco em pequenas quantidades. Mas algumas plantas, quando expostas a altas concentrações de metais, conseguem absorvê-los ou realizar alguma estratégia, como imobilizar o metal na raiz sem que isso cause problemas a elas”, acrescenta. Outras conseguem translocar os metais, isto é, transportar essas substâncias para a parte aérea da planta (folhas e galhos), sem que isso necessariamente cause dano ao vegetal.

Os pesquisadores queriam investigar a possibilidade de fitoextração, processo no qual a planta consegue absorver o metal, translocá-lo para a parte aérea, e o ser humano pode retirar a parte aérea, levar essa parte para outro local e incinerá-la para eliminar o metal. “Os metais não se degradam naturalmente: são moléculas que não se modificam e se acumulam. Esse é o conceito da bioacumulação: se um animal consome chumbo, esse metal vai ficar nesse animal até o fim da vida dele. Em uma cadeia alimentar, quem consome esse animal também vai ser contaminado”, esclarece Vinícius. Por isso, quando a planta transloca o metal para a parte aérea, é necessário eliminar essa parte do vegetal. Caso contrário, “quando a planta morrer, ela vai se degradar naquele ambiente e liberar aqueles metais novamente”.

Nenhuma das três plantas mostrou bons resultados para a fitoextração, pois não translocaram os metais para a parte aérea. No entanto, a braquiária mostrou o melhor resultado em absorver os metais e acumulá-los nas raízes – especialmente o zinco. Isso indica que ela atua como uma espécie de “filtro”, diminuindo a quantidade de metais que chega ao Guaíba.

“Enquanto as braquiárias estão ali nas ‘ilhas’, elas estão cumprindo um papel, um ‘serviço ambiental’, de estabilizar aqueles metais e evitar que os peixes se contaminem mais”, afirma Tales. No entanto, ele ressalta que a formação das “ilhas” traz um outro problema: o acúmulo de material diminui a vazão do Dilúvio. Leonardo alerta que “as plantas podem cumprir um papel, só que isso precisa de manutenção: não dá pra deixar tudo como está agora, em que qualquer chuva forte faz a água subir até a avenida. Ao mesmo tempo, tirar todas as ‘ilhas’ é forçar a água a ser um ‘jato’ e levar tudo para o Guaíba”.

Além da dragagem do arroio, que não é feita desde 2018, os pesquisadores apontam que uma possível solução para o Dilúvio seria o uso de plantas aquáticas para a descontaminação. “Existem estudos que utilizam plantas que boiam na água, as macrófitas, colocadas em uma espécie de caixa. De tempos em tempos, recolhe-se a caixa, incinera-se aquela planta, e outra caixa com outra planta é colocada”, explica Leonardo. Seria uma espécie de ecobarreira, mas ele frisa que, para que seja uma solução efetiva, precisaria haver várias ecobarreiras e com manutenção regular.


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