Porto Alegre não divulga mapeamento do coronavírus na cidade
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Porto Alegre não divulga mapeamento do coronavírus na cidade

Regiões com casos confirmados da Covid-19 são analisadas apenas internamente

Por
Henrique Massaro

Prefeitura monitora regiões, mas não divulga dados

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Diferentemente de outras capitais e de alguns dos principais municípios gaúchos, Porto Alegre não divulga o mapeamento dos casos confirmados de infectados pela Covid-19 por território da cidade, considerado por especialistas como uma importante ferramenta para planejar ações de controle do coronavírus. Apesar de ter realizado este levantamento, que ainda está em fase de validação, a prefeitura não pretende tornar públicas essas informações. Um dos motivos é evitar estigmas de determinados locais entre a população. 

Disponibilizar os números de casos confirmados em cada região da Capital, na visão do Executivo, pode vir a gerar pânico na população, o que em alguma medida já ocorre quando são divulgados diagnósticos por hospitais. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), outro motivo é que a transmissão do coronavírus ocorre por pessoas que transitam por toda a cidade e não como a da dengue, que se dá através de um mosquito que voa por poucos metros. 

Identificar o caso e rastrear seus contatos é, no entanto, uma das máximas da epidemiologia, explica o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Paulo Petry, que é mestre e doutor na ciência. Segundo ele, principalmente em uma realidade em que não há testagem para toda a população, o georreferenciamento ajuda nas estratégias de bloqueio do vírus. “Se temos a noção de quantos casos tem em território A, B ou C, o panejamento das ações de controle é muito mais eficaz porque se sabe onde tem que agir”, avalia. 

O professor de epidemiologia da Ufrgs elogia as ações de controle tomadas pela prefeitura para conter a pandemia e reconhece que a intenção de não alarmar as pessoas possa ser inteligente, mas ainda aposta que o acesso à informação seja mais eficaz. Se, por um lado, um morador pode se assustar ao saber o número de infectados em seu bairro, por outro, tende a se prevenir ainda mais. “Em princípio, sou sempre favorável à transparência. Embora esse problema do pânico seja real, a transparência ajuda no sentido de cuidados.”

A divulgação do número de casos distribuídos por território tem ocorrido em outras capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, a medida foi adotada por municípios como Gravataí, Caxias, Canoas, Alvorada e Lajeado. Este último, inclusive, disponibiliza um detalhamento não só por bairros, como por faixa etária, sexo, local de atendimento e progressão de casos. 

Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Tiaraju Salini Duarte é um dos coordenadores do estudo que traça as rotas de disseminação do coronavírus no Estado e afirma que o mapeamento é fundamental para entender as formas pelas quais o vírus se dispersa em diferentes territórios e para possibilitar o acesso das pessoas contaminadas ao sistema de saúde. “O entendimento e o conhecimento da estrutura territorial é essencial para se pensar em combate ao coronavírus”, afirma, explicando que, internamente, os municípios precisam criar monitoramentos constantes para planejar os cuidados para as necessidades de cada região. 

Na avaliação do professor da Ufpel, tornar esses dados públicos não é criar pânico, contanto que não se divulgue o endereço das pessoas infectadas. Trata-se, segundo ele, de permitir que os cidadãos saibam o tamanho do problema na região onde moram e ampliem os cuidados. “Acredito que seria uma importante ferramenta para a população, até para gerar um processo de conscientização”, comenta, citando que a percepção de que há um planejamento por parte do poder público, inclusive, tranquiliza. “Acho que a ausência de informação é algo extremamente prejudicial para a sociedade, informações técnicas são extremamente necessárias.”