RS registra recorde em internações por Covid-19 em leitos de UTIs

RS registra recorde em internações por Covid-19 em leitos de UTIs

Sociedade Brasileira de Virologia alerta que cenário atual é o "prenúncio" de uma segunda onda da pandemia em solo gaúcho

Jessica Hübler

Sociedade Brasileira de Virologia alerta que cenário atual é o "prenúncio" de uma segunda onda da pandemia em solo gaúcho

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O Rio Grande do Sul atingiu o maior número de internações de pacientes com a Covid-19 em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) chegando a 749 terça-feira e, na tarde desta quarta-feira, eram 748. O maior número até então havia sido registrado em 19 de agosto quando teria ocorrido o que o próprio governador Eduardo Leite chamou de "pico das internações", durante transmissão virtual realizada na terça-feira.

Aparentemente as internações relacionadas ao novo coronavírus estão atingindo marcas ainda mais elevadas do que aquelas registradas entre julho e agosto. Outro número que chama atenção é o novo recorde de pacientes com diagnóstico positivo da Covid-19 em leitos clínicos: eram 1.122 na tarde de hoje e 1.101 na terça-feira. Antes disso os maiores números haviam sido verificados em 20 de novembro (1.038) e em 28 de julho (1.027).

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A alta nas internações de pacientes confirmados da doença em leitos clínicos foi de 58,69% entre 4 de novembro e a tarde de hoje, passando de 707 para 1.122. Enquanto o aumento dos pacientes com diagnóstico positivo da Covid-19 em UTIs do Estado foi de 29,18% no mesmo período, quando passou de 579 para 748.

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), Fernando Spilki, o "pico" que tivemos entre os meses de julho e agosto ficou para trás. "O pico foi agora", define. Segundo Spilki, o volume de casos novos demonstra a velocidade da circulação do vírus no Estado, o que implica em aumento das hospitalizações e é possível que, na semana seguinte, os reflexos sejam observados no número de óbitos. "O que estamos passando agora provavelmente é o prenúncio do que vai ser uma onda bastante preocupante em cima de uma primeira onda que não se extinguiu totalmente", destaca. 

Conforme Spilki ainda há um componente importante associado ao atual contexto da pandemia: a proximidade com as festividades de final de ano. "Os setores do comércio e serviços estavam vendo no final do ano a possibilidade de minimizar os prejuízos ocorridos nos últimos meses, então não devemos ver uma força nesse momento para maiores restrições", enfatizou, reiterando que "nem sabemos se há respaldo no poder público para fazer isso".

Com relação ao comportamento das pessoas e a preocupação com a Covid-19, Spilki reforça que há uma liberalização muito grande. "Não sei se as pessoas estão cientes de que o processo deveria ser justamente o contrário. Se continuar esse viés de subida dos casos e das internações como estamos percebendo, lamentavelmente não vai sobrar outra alternativa. Infelizmente não é só a questão das atitudes individuais, mas talvez uma atitude mesmo do ponto de vista de restrição de mobilidade e de aglomerações em caráter oficial", pontua. 

A tendência da situação, o entendimento de Spilki, é piorar bastante. "Infelizmente o que mais se temia parece estar se confirmando, que é uma necessidade de retorno a restrições bastante fortes", afirma. Além disso Spilki assinala que há grande preocupação também com a proximidade da temporada de verão. "As praias não têm capacidade de atendimento, essa é a realidade", reitera. Agora, segundo Spilki, o mínimo que podemos esperar é que a população faça a sua parte. "Vamos ver se a gente consegue retomar um caminho pelo menos de equilíbrio que permita o atendimento adequado a todos que precisarem acessar o sistema de saúde, mas por enquanto nossa visão é bastante pessimista", ressalta. 

Dos 2.531 leitos UTI Adulto do Rio Grande do Sul, 1.906 estavam ocupados na tarde desta quarta-feira, sendo 748 pacientes confirmados do novo coronavírus, 145 suspeitos e 1.013 internações provocadas por outras enfermidades. A taxa de ocupação das UTIs gaúchas na tarde de hoje era de 75,3%. Em Porto Alegre, as internações relacionadas ao novo coronavírus nas UTIs representavam 38,72% do total, sendo 249 confirmados e 19 suspeitos entre os 692 pacientes. A taxa de lotação das UTIs na Capital era de 91,41%.

A Secretaria Estadual de Saúde (SES-RS) foi procurada para falar sobre os recordes verificados nas ocupações dos leitos de UTI e clínicos no Rio Grande do Sul, mas não se manifestou a respeito. O posicionamento da SES-RS teve como foco exclusivamente a taxa de ocupação das UTIs. Em nota, SES-RS informou que "o governo do Estado ampliou em mais de 100% o número de leitos de UTI SUS durante a pandemia. A taxa de ocupação sempre ficou abaixo dos 80% (a maior foi de 78,3%, em 14 de agosto)".  

A Secretaria também informou que, por meio da Regulação Estadual, trabalha com o mapa de leitos de todo o Estado, "não apenas de forma individual por município. Essa estratégia permite que, com a lotação dos leitos em algum município, o Estado conte com os leitos disponíveis em toda a rede hospitalar".

Entidades repudiam possibilidade de novas restrições

Diversas entidades representativas dos setores de comércio, serviços e ensino encaminharam manifestação repudiando a possibilidade de novas restrições das atividades em Porto Alegre. O texto, assinado pelo Sindicato dos Lojistas de Porto Alegre (Sindilojas POA), Sindha, CDL POA, Sescom e Sinepe informa que o crescimento no número de casos e de internações por conta da Covid-19 estaria fazendo "os governantes repensarem as flexibilizações conquistadas até agora".

Mesmo com o contexto aparentemente agravado da pandemia na Capital e nas demais regiões do Estado, as entidades dizem entender que "não é hora de retrocedermos com novos fechamentos ou redução de horários. Tal atitude seria extremamente preocupante para a recuperação dos negócios e, consequentemente, de toda a cidade de Porto Alegre". Segundo as entidades, para que seja possível evitar o que chamaram de "novas medidas drásticas" toda a sociedade precisa se unir, ainda que distante fisicamente. 

"Não podemos, agora, relaxar nos cuidados como o distanciamento, o uso de máscara e de álcool em gel, e todas as medidas que aprendemos com essa doença, que estão descritas nos decretos municipais. Não podemos deixar a Covid-19 nos debilitar novamente. Sendo assim, para que possamos reconstruir nossa cidade, recuperar nossas empresas, resgatar empregos e retomar o desenvolvimento, as entidades abaixo, signatárias deste manifesto, apelam à população que siga os protocolos à risca. O mundo inteiro está unido contra a Covid-19 e somente dessa forma conseguiremos vencer", diz a nota.

O Sindicato dos Empregados no Comércio de Porto Alegre (Sindec-POA) também se manifestou, salientando que "o comércio não pode correr o risco de ser prejudicado novamente". "A Prefeitura de Porto Alegre já alertou para uma possível retomada das restrições nas atividades no comércio e por isso o nosso apelo, em nome dos trabalhadores que representamos, segue ainda mais forte para a população: precisamos que vocês somem esforços na batalha contra o vírus", informa a nota do Sindec-POA.

Conforme o presidente da entidade, Nilton Neco, as empresas continuam colocando em prática os protocolos de saúde e segurança e estão passando por fiscalização do Sindec-POA, "mas de nada adianta se todos não respeitarem o distanciamento, usarem máscara e saírem de casa somente quando necessário. Se a situação se agravar, o comércio poderá ser fechado novamente em pleno período natalino, causando prejuízos e mais demissões". Neco ainda declara que, mais do que nunca, "a situação necessita de consciência social".


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