Setor de restaurantes vê faturamento despencar durante o isolamento

Setor de restaurantes vê faturamento despencar durante o isolamento

Limitações impostas para o atendimento fazem com que proprietários tentem buscar alternativas

Eduardo Amaral

Evitar demissões é um dos motivos da procura por alternativas

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Com a redução do movimento de pessoas em Porto Alegre devido às medidas de isolamento tomadas para combater o novo coronavírus, os restaurantes têm sentido diretamente os impactos. Dependentes da circulação de pessoas para ter clientes, com as empresas fechadas e as limitações impostas para o atendimento, o faturamento despencou e quem mantém as portas abertas tenta encontrar saídas para manter o negócio ativo e não demitir funcionários.

Proprietária de um buffet no bairro Bom Fim, Suréia Borges Paludo, 40 anos, viu o salão com espaço para 240 lugares minguar para zero clientes. Na manhã de terça-feira ela atendia apenas as ligações dos fregueses que procuravam pela tele-entrega, a forma que encontrou para manter o negócio ativo. Durante 21 anos o horário da manhã era dedicado a preparar a comida e o espaço para receber o público do almoço, um cenário bem diferente do visto atualmente. Com as portas fechadas e placas anunciando os novos serviços, a mudança de rotina chamava atenção. “Na primeira semana tivemos queda de 30% do faturamento, quando estávamos funcionando com limitações. Agora estamos faturando apenas 10% do que antes da pandemia”, relata.

Mesmo assim Suréia optou por não encerrar totalmente o atendimento e encontrou nas tele-entregas a maneira de seguir o negócio. “A escolha de não fechar é porque tenho muitos funcionários que dependem de mim, todos os dias recebo mensagens me pedindo ajuda. O pequeno empreendedor tem tido dificuldade há muito tempo e agora com o vírus a coisa piorou.” Mesmo assim, ela optou por dispensar temporariamente alguns funcionários, reduzindo o quadro de 18 para quatro pessoas. De acordo com ela, a redução do faturamento é inversamente proporcional às dívidas, que seguem batendo à porta enquanto os clientes estão longe. “Minha maior preocupação é quando for acertar o aluguel, que é alto, só para um fornecedor eu devo R$ 12 mil. Não posso dar férias para todo mundo porque não tem dinheiro para pagá-los, e como vou mandar os funcionários para casa sem dinheiro?” O espaço onde está o restaurante tem um custo mensal de R$ 14 mil apenas de aluguel.

Ao projetar o futuro Suréia se mostra tão preocupada quanto quando olha para o presente. Incertezas rondam quem atua no setor e qualquer plano a longo prazo se tornou inviável. “A grande preocupação é até quando vai isso (o isolamento) e como será depois. Estamos tendo que reaprender a trabalhar.” Nutricionista por formação, ela diz que sempre trabalhou com buffet, um modelo de negócios que deve ser difícil de ser mantido. “Tenho que me readequar, arrumar uma nova forma de trabalhar que ainda não se qual é.”

Enquanto isso, ela diz ter respostas evasivas do poder público. “Liguei para a prefeitura perguntando quem vai me orientar, e só me passaram um e-mail, agora só falta eles decidirem abrir em cima da hora, e eu tenho que correr atrás de empréstimo para comprar o estoque.” Entre os restaurantes vizinhos ela já viu muitos fechando e entregando o ponto. “Eu não sei o que fazer se não voltarmos com pelo menos 50% dos clientes, é daqui que tiro o sustento da minha família.”

No mesmo bairro, Carlos Tubino, 56 anos, apostou na criação de um pequeno estabelecimento que vende comida à la carte, salgados, tortas, cafés entre outros. Desde que as medidas de isolamento foram tomadas, ele sentiu diretamente o impacto da falta de clientes. O faturamento caiu 90% e ele também apelou para as marmitas como forma de manter o negócio aberto. O pequeno café tinha três funcionários, que receberam férias nos primeiros 15 dias. “Estamos dependendo do governo, todas as empresas estão aguardando, se não liberar (o movimento), eu posso ter que fechar, assim como muita gente que fechou aqui e não abriu mais.”

Dentro do segmento da alimentação as margens de lucro são pequenas, o que faz com que os proprietários precisem de movimento constante para seguir atuando. “A gente depende quase 100% do movimento, a partir do momento que as empresas estão fechadas não tem como se manter. Estamos acumulando prejuízo ao longo desse mês”, diz Tubino. Em outros bairros a situação do Bom Fim se repete e por vezes é ainda mais preocupante. Sem clientes, a maior parte dos restaurantes está com cadeados nas portas e os proprietários aguardam a liberação para voltar a funcionar.


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