Derretimento da calota de gelo da Antártica redesenhará costas do mundo, diz especialista
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Derretimento da calota de gelo da Antártica redesenhará costas do mundo, diz especialista

Anders Levermann afirmou que com o passar do tempo, importantes cidades como Nova Iorque ficarão em situação desfavorável de habitação

Por
AFP

Especialista ressalta importância do Acordo de Paris para a Antártica

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O futuro das regiões costeiras e de seus milhões de habitantes depende da massa de gelo que cobre a Antártica Ocidental e que elevará o nível dos oceanos em pelo menos três metros. Para os cientistas, a questão não é mais saber "se" isso ocorrerá, mas "quando". A poucos dias da publicação de um relatório dos especialistas da ONU sobre oceanos e áreas geladas, Anders Levermann, especialista em Antártica no Instituto do Clima de Potsdam, descreve para a AFP o impacto do aquecimento global na região mais fria do mundo.

P: O aquecimento global atua da mesma maneira nas calotas polares da Groenlândia e da Antártica?

R: Não. Na Antártica, 99% da perda de volume ocorre quando o gelo avança para o oceano. Não há praticamente nenhum derretimento de gelo na superfície, pois está muito frio. Na Groenlândia, metade da perda de volume é devido à água de gelo derretido que corre para o oceano. Na Antártica, ou na Groenlândia, quando o gelo vai para o oceano e se torna uma plataforma glacial (extensão do gelo sobre o mar que se anexa ao continente), entra em contato com a superfície da água. Mesmo um décimo de grau de diferença de temperatura pode causar um desequilíbrio da plataforma. A calota de gelo da Groenlândia é muito menor do que a da Antártica - o equivalente a 7 metros acima do nível do mar, contra 55 metros -, mas perde mais gelo. Isso ocorre porque faz muito mais frio na Antártica.

P: O que sabemos de novo sobre o papel da Antártica em termos do aumento do nível dos oceanos?

R: Dez anos atrás, os modelos antárticos não previam uma perda significativa de gelo durante este século. Houve até debates sobre um possível aumento no volume de gelo. Hoje, todos os modelos mostram perdas de gelo a um ritmo importante. A calota de gelo do continente perdeu 150 milhões de toneladas de gelo por ano desde 2015, quase tudo na Antártica Ocidental. E isso acelera. Não há mais dúvidas. Estudos existentes mostram que a Antártica Ocidental excedeu um ponto sem retorno. É instável e vai liberar seu gelo mais frágil no oceano, equivalente a mais de 3 metros de elevação do nível do mar. Ponto final.

P: Qual será a contribuição da Antártica para o aumento do nível do mar até o final do século XXI?

R: Um estudo que fiz com vários colegas em 2014 previa um aumento de 50 centímetros no nível dos oceanos vinculado à Antártica até 2100, um número enorme. A última avaliação dos especialistas em clima da ONU (IPCC) aponta para um máximo de 16 centímetros. Em 2016, um estudo importante da revista Nature evocou uma contribuição muito mais importante, de até um metro. Ele foi fortemente criticado, e suas estimativas podem ser revistas.

P: E depois de 2100?

R: Nada irá parar em 2100. Se o Acordo de Paris for respeitado (abaixo de +2°C em relação à era pré-industrial), o aumento do nível do mar diminuirá, mas não irá parar. Se esse acordo não for respeitado, o aumento será acelerado no final do século.

P: Em quanto tempo a calota de gelo da Antártica Ocidental desaparecerá?

R: Eu acho que subestimamos o ritmo. Mas, apesar de tudo, serão necessários séculos para liberar todo gelo, mesmo que esse processo não pare.

P: Em que momento precisamos nos preocupar?

R: Ninguém deve ter medo de morrer, devido ao aumento dos níveis dos oceanos. Mas, se Nova Iorque ficar 5 metros abaixo do nível do mar, atrás de diques, não sei se as pessoas vão querer continuar morando lá. O impacto real será sobre o que será perdido. Hoje, Hong Kong é um farol da democracia na China, Nova Orleans é uma fortaleza cultural, Nova Iorque, um centro cultural e de negócios. Hamburgo, Calcutá, Xangai... Perderemos todas essas cidades, devido às mudanças climáticas, se não reduzirmos as emissões de CO2.