Fronteira irlandesa reage com desânimo a novo plano para o Brexit
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Fronteira irlandesa reage com desânimo a novo plano para o Brexit

Boris Johnson apresentou, nesta quarta-feira, proposta para alcançar um acordo de divórcio com a UE antes de 31 de outubro

Por
AFP

"A solução para o Brexit, Irlandeses unidos" e "Sem fronteira física", dizem placas entre as Irlandas

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Na pequena cidade norte-irlandesa de Middletown, as opiniões sobre o Brexit são variadas, mas a maioria concorda com uma coisa: o novo plano para o Brexit, apresentado por Londres não acalma em absoluta os temores de que volte uma fronteira historicamente conflituosa. "Tem que ser brincadeira", exclama Lena Carville, de 52 anos, enquanto cruza o povoado para ir ao escritório dos Correios. "Vai ser difícil para todos nós que vivemos na fronteira, vai ser um desastre", disse à AFP.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, apresentou nesta quarta-feira sua muito aguardada proposta para alcançar um acordo de divórcio com a União Europeia antes de 31 de outubro. Prometeu, sobretudo, que não haverá controles alfandegários "em ou perto da fronteira" entre a província britânica da Irlanda do Norte e a vizinha República da Irlanda, país-membro da UE.

Mas entre os 250 moradores de Middletown, colada à linha fronteiriça, o plano não tranquiliza ninguém. "Todo mundo está no limbo, ninguém sabe exatamente o que vai acontecer", diz exasperado o fazendeiro Peter Mackle, que se declara partidário do Brexit e de Johnson. Mackle, de 60 anos, vive nos arredores de Middletown, do outro lado da agora fronteira invisível, na República da Irlanda. Sentado em sua Range Rover na rua principal da cidade, garante que não há volta atrás. "Não haverá alfândega na fronteira, ao norte e ao sul, simplesmente porque as pessoas não permitirão", afirma. "O poder popular o impedirá independentemente das leis e de quem as fizer. Não voltarão a tolerá-lo", acrescenta.

Um povoado fronteiriço

A fronteira que separava a República da Irlanda e a Irlanda do Norte esteve marcada pela violência durante os 30 anos de confrontos sangrentos entre republicanos católicos e unionistas protestantes. O banho de sangue terminou em 1998 com o acordo de paz de Sexta-feira Santa, que desmontou as infraestruturas ao longo dos 500 km de linha fronteiriça, tornando-a totalmente invisível.

Após o terremoto provocado em 2016 pela vitória do Brexit no referendo britânico, existe o temor de que uma nova divisão apareça na ilha. E apesar das garantias de Johnson, persiste o temor de que seu plano ponha em risco o frágil processo de paz e inclusive provoque nova violência. "Estou bastante preocupada agora mesmo porque na minha idade vivi todo o conflito e não quero isso para meus filhos", diz Carville. "Não podemos voltar atrás sobre o acordo da Sexta-feira Santa", acrescenta outro aldeão, Gerald Williamson, de 54 anos, visivelmente agitado. "Está escrito em pedra, é muito importante para as pessoas daqui", destaca.

Preocupação empresarial

Quando chega a Middletown, o visitante tem claro qual é a postura geral sobre a fronteira graças aos cartazes colocados entre a rodovia e as exuberantes colinas verdes onde o gado pasta. "Não à fronteira, não às barreiras, protesto", diz um deles. "Zona fronteiriça da UE", diz outro, instalado no lugar onde poderia ser imposto um controle fronteiriço.

Não só os habitantes, mas também as empresas norte-irlandesas denunciam as propostas de Johnson como caras e inviáveis. Aodhán Connolly, diretor do Consórcio Norte-irlandês de Venda Varejista, afirma que implicariam uma "vigilância intrusiva que representaria um fardo para os negócios e perturbações para as comunidades fronteiriças".

Mas enquanto coloca mesas e cadeiras em frente ao seu café, preparando-se para abrir, Noeleen Simpson, de 45 anos, dá um certo apoio ao premiê. "É tudo o que pode fazer", diz, com um tom de resignação. Para ela, a ameaça de um Brexit sem acordo, que implicaria controles asfixiantes para as rodovias fronteiriças por onde circulam seu comércio, é uma preocupação maior. "Não quero nenhuma interrupção, só quero o melhor para o norte", afirma.