Muro de Berlim ainda está presente na vida dos alemães

Muro de Berlim ainda está presente na vida dos alemães

Queda da construção que dividiu o mundo por ideologias completa 25 anos neste domingo

Tiago Medina e Thamíris Mondin

Construção em Berlim tinha 155 quilômetros

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“Tinha que acontecer alguma coisa”, relembra a alemã Marina Ludemann, em sua sala na diretoria do Instituto Goethe, em Porto Alegre. Ela referia-se à movimentação de uma efervescente Berlim no início de novembro de 1989. E aconteceu, conforme o previsto. Em uma verdadeira revolução popular, centenas de milhares de alemães fizeram o emblemático Muro de Berlim tombar há exatos 25 anos, em 9 de novembro de 1989.

O que veio abaixo a partir daquela noite não foi só uma construção de mais de 155 quilômetros de extensão – e que em alguns pontos alcançava os quatro metros de altura. Tampouco não foi a fronteira entre os lados ocidental e oriental da atual capital da Alemanha. Foi a divisa, por muitas vezes hostil, entre duas ideologias opostas, o capitalismo e o comunismo, e que separou famílias, amigos e um país por 28 anos.

“O muro talvez tenha sido símbolo máximo da Guerra Fria. Dentro da Alemanha neste momento havia uma concentração muito grande de recursos na Alemanha ocidental, pelo famoso plano Marshall, para o comunismo ser contido. O chamado milagre alemão, que era uma recuperação da Alemanha ocidental pós-Segunda Guerra”, explica o historiador e cientista político, René Gertz.

As diferenças ao longo dessas três décadas tornaram-se insustentáveis para o regime comunista. A queda do Muro, física ou metaforicamente, era uma questão de tempo naquele início de outubro, pouco tempo depois do 40º aniversário da a então República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha Oriental. Apesar de uma forçada pompa com paradas militares, ufanismo não era bem um sentimento em comum dos cidadãos da RDA, insatisfeitos com o regime autoritário.

E o governo oriental estava consciente da crise em que se encontrava. Havia semanas que protestos pacíficos se repetiam em Leipizig, a 160 quilômetros de Berlim, além de milhares de pessoas usaram embaixadas da Alemanha Ocidental na então Tchecoslováquia e na Hungria, cujas fronteiras tinham sido abertas havia pouco tempo, para pedir exílio. Em meio a isso, a posição vinda da União Soviética, por meio de seu líder, Mikhail Gorbachev, de não colocar tropas contra a população catalisou o processo. “Isso deu força para o movimento, e a oposição ao regime foi crescendo. As manifestações populares foram fundamentais, foi uma das maiores revoluções democráticas de participação popular nos últimos 40 anos”, avalia o historiador.

Algo aconteceria, enfim. Mas foi uma surpresa a forma como os fatos de 9 de novembro se desenrolaram. O anúncio que ocasionou a queda do Muro foi feito em uma coletiva de imprensa, por Günter Schabowski, membro do Partido Comunista. Em meio a respostas de assuntos gerais, ele informou que os cidadãos da RDA estariam autorizados a viajar para o lado ocidental sem quaisquer restrições – uma das principais reivindicações da população.

De surpresa, a noite histórica

Imediatamente ao anúncio, transmitido pela TV estatal, dezenas de milhares de alemães foram às divisas do Muro, sempre cercadas por guardas – autorizados a atirar para matar quem tentasse fugir. Chegaram lá, contudo, antes da própria informação da liberação. “A forma como foi anunciado foi acidental, foi um mal entendido. Todo mundo foi surpreso, até os guardas da fronteira”, diz Marina Ludemann. “Foi uma piada da História.”

“Foi impressionante”, recorda a cineasta gaúcha Liliana Sulzbach, à época com 23 anos e estudante da Universidade Livre de Berlim. “Abriram alguns pedaços, no Portão de Branderburgo e em Checkpoint Charlie. Foi um fluxo enorme de pessoas.” Para Marina, a queda do Muro foi seguida de um verdadeiro carnaval, tamanha a celebração daquele momento: “As pessoas foram recebidas nos botecos com uma grande euforia. Houve cerveja de graça. As pessoas beberam champanhe no muro”.

“Fiquei muito tempo recebendo as pessoas que entravam no lado Ocidental”, conta Liliana, que estava acompanhada de amigos. “Encontramos pessoas, que nos perguntavam onde ficavam alguns lugares, onde era tal rua, e elas estavam na rua que buscavam. Foi um momento não só dos alemães participarem. Não era apenas um momento de congraçamento alemão. Todas as divisões começaram a se manifestar. Era um palanque para demonstrar as mazelas.”

Nem tudo, entretanto, foi só euforia. Tão logo o Muro deixou de ser um obstáculo, Marina ligou para uma amiga no lado Oriental e marcou para se encontrar em um restaurante. “Ela parecia um pouco triste”, relembra. “Nunca vou esquecer. Eu perguntei: 'Ué, você não está feliz?'. E ela disse: 'sim, mas estou um pouco triste por causa desses 40 anos da minha vida que eu perdi'”.

A amiga em questão, cita Marina, vinha desde os tempos de faculdade, em uma relação até então fortalecida por meio de cartas, uma vez que o Muro fazia-se, literalmente, uma barreira para elas. “Até chegar à casa dela demorava duas horas da minha casa em Berlim Ocidental. Um trecho que de bicicleta são 15 minutos”, afirma. “Era todo um procedimento demorado para conseguir ir a Berlim Oriental. Passar por filas, checar passaporte, fazer câmbio (de dinheiro).”

Depois da festa, a reunificação

A queda do Muro acelerou o processo de reunificação da Alemanha, definido e sacramentado de fato no ano seguinte. E aí, depois de toda aquela festa, diferenças de anos em ideologias e crescimentos distintos, começaram a aparecer. “Existia um misto de muita alegria, mas um pouco de apreensão”, resume Liliana Sulzabach. Tal como Marina Ludemann, ela acredita que a reunificação foi um tanto acelerada.

Em meio a este processo, Marina recorda que parte interessante das ideias de um grupo da Alemanha Oriental, que propunha uma nova leitura do socialismo, perdeu-se. “Nesse período

foram fundados alguns grupos e movimentos políticos que queriam reformar o sistema socialista. Surgiram algumas ideias muito interessantes”, diz. “Propuseram mesas redondas e queriam que representantes de toda a população participasse de uma reforma constitucional. No início eles não queriam simplesmente fazer parte da Alemanha Ocidental. Eles queriam um novo Estado, onde o povo mesmo decidisse como que seria.” Com a decisão a favor da reunificação, nas eleições de março de 1990, tais grupos acabaram perdendo a força.

“Quando o Muro caiu, ficou muito clara a diferença entre oriente e ocidente, e isso é algo que não está totalmente resolvido até hoje. A Alemanha Ocidental investiu pesado na região oriental para reconstruí-la, modernizá-la. A diferença entre os dois lados e o atraso oriental era evidente. Se construiu novas estradas, trens, estrutura. Mas a desigualdade social persistiu”, afirma o historiador René Gertz.

“Ainda tem diferenças”, reconhece Marina, que viveu em Berlim de 1989 até 1992 e depois de 2002 a 2013. “Ainda tem essas pequenas diferenças, no nível de salário, de previdência. São 25 anos, mas 25 anos não são o suficiente para equilibrar tudo, em todas as áreas”, analisa.

Para ela, um pouco mais de ponderação no período da reunificação teria sido benéfico. “O fato que a Alemanha Ocidental tenha que resgatar é uma consequência daquela reunificação tal como ela foi feita. Indústrias e empresas da Alemanha Oriental foram desmontadas pelo lado ocidental. Então ninguém no lado ocidental pode reclamar que depois teve que resgatar o lado oriental.”

Ela avalia, contudo, que muito já se avançou neste sentido. E hoje a Alemanha se entende como um país unido outra vez. “Com a vitória na Copa, todos comemoraram”, brinca.

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