O porta-voz que matou a Alemanha Oriental

O porta-voz que matou a Alemanha Oriental

Porta-voz do governo, Günter Schabowski, não tinha experiência em coletivas de imprensa quando disse que o muro cairia

AFP

Foto de 1988, do lado ocidental da Alemanha, em homenagem às vítimas de tentativas de fugas

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O Muro de Berlim caiu sem glamour, em uma sala apertada do centro de imprensa da ADN, a antiga agência de notícias da Alemanha Oriental. O momento mais importante da Guerra Fria não foi anunciado por nenhum peso-pesado da história. Nem Mikhail Gorbachev, nem Ronald Reagan. Não foi uma decisão estratégica, debatida pelo Politburo ou autorizada pelos soviéticos. Ninguém sabia de nada. Nem mesmo o sujeito que deu a notícia no fim da tarde de 9 de novembro de 1989.

Günter Schabowski era porta-voz do governo. Tinha quase 40 anos de serviços prestados ao Partido Comunista da Alemanha Oriental. Era um orgulhoso burocrata que fez carreira como jornalista em um ambiente pouco favorável ao jornalismo. O regime ditava o que seria escrito nos jornais e transmitido por rádios e TVs. Por isso, Schabowski não tinha experiência em coletivas de imprensa.

O encontro estava marcado para 18 horas. Era para ser um briefing de rotina, mas o país estava em pandarecos. O governo tinha dificuldades para pagar empréstimos e honrar dívidas. A economia estava esgotada. A saúde do ditador Erich Honecker também. Aos 76 anos, sofria de cólica biliar e tinha um tumor no rim. Em meados de outubro, o Politburo havia trocado o velho autocrata por outro, 25 anos mais jovem: Egon Krenz supervisionaria o canto do cisne da Alemanha Oriental.

À esta altura, o povo já estava nas ruas. No dia 23 de outubro, 300 mil protestaram em Leipzig. Em 4 de novembro, meio milhão se reuniu em Alexanderplatz, no coração da capital. A fronteira entre Hungria e Áustria estava aberta desde abril e os alemães-orientais faziam fila para fugir via Checoslováquia. Foi quando Krenz resolveu agir.

O governo acreditava que era preciso relaxar as restrições de viagem e elaborou novas regras para sossegar o povaréu. Antes da desastrosa coletiva, Schabowski fez uma visita ao novo chefe. "Algum anúncio?", perguntou o porta-voz. Krenz hesitou, mas lhe entregou um memorando de duas páginas. A caminho da sede da ADN, Schabowski passou os olhos no documento. Era evidente que se tratava de uma nova legislação sobre viagens. O porta-voz, no entanto, não tinha participado das discussões, não leu detalhes importantes e entrou despreparado para o que viria a seguir.

Antes de se acomodar na sala, Schabowski decidiu deixar a novidade para o fim e a coletiva arrancou em marcha lenta, com o porta-voz murmurando banalidades. Anos depois, Tom Brokaw, âncora do programa NBC Nightly News, confessou que estava "entediado" com a ladainha do burocrata. Ele não era o único. "Metade dos repórteres presentes literalmente dormia. Eu também mal conseguia manter meus olhos abertos", disse Brokaw.

Perto do fim, após 55 minutos de um longo monólogo sobre a necessidade de reformas e a crise na União Soviética, Schabowski falou sobre as novas regras de viagem. Na tentativa de resumir partes do documento, ele tropeçava nas palavras. "Novas regras permitirão que os cidadãos cruzem a fronteira pelos pontos de checagem da Alemanha Oriental", disse o porta-voz. À medida que falava, o burburinho aumentava. Os jornalistas se perguntavam se ouviam certo. De repente, o burocrata descobriu que todos tinham perguntas a fazer.

Krzysztof Janowski, repórter polonês que trabalhava para a Voz da América, foi direto ao ponto. "A partir de quando?", questionou. Foi quando Schabowski se perdeu. Sem saber o que fazer, ele mergulhou em um universo paralelo. Colocou os óculos, percorreu as duas folhas de papel e começou a ler. O volume das perguntas subia e já não se sabia mais quem gritava: "A partir de quando?" Então, Schabowski proferiu a frase fatal: "Imediatamente".

Alguns jornalistas saíram da sala na mesma hora. Quando Schabowski começou a ser envolvido por perguntas sobre o muro, ele encerrou a coletiva. Cinco minutos depois, a Associated Press emitiu o alerta. "Segundo o Politburo do Partido Comunista, a Alemanha Oriental está abrindo suas fronteiras." Quinze minutos depois, a história entrou nos telejornais ocidentais, o Heute, da ZDF, e o Tagesschau, da ARD - ambos populares nas duas Alemanhas. Imediatamente, milhares de berlinenses correram para os seis pontos de checagem da capital.

O que Schabowski não sabia é que as medidas que ele havia antecipado só deveriam vigorar no dia seguinte, tempo suficiente para avisar os guardas de fronteira, que àquela altura também não sabiam o que fazer. Foi então que Harald Jäger, tenente-coronel da Stasi, a polícia secreta do regime, resolveu contribuir para a desastrosa reação em cadeia e decidiu abrir os portões da Bornholmer Strasse. Cancelas ao alto, a multidão passou. Eram 23h30 quando uma debandada matou a Alemanha Oriental.


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