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Tensão aumenta na Bolívia após chamado opositor à intervenção militar

Luis Fernando Camacho exigiu que Evo Morales renuncie ao poder em 48 horas

Luis Fernando Camacho exigiu que Evo Morales renuncie ao poder em 48 horas
Luis Fernando Camacho exigiu que Evo Morales renuncie ao poder em 48 horas Foto : Daniel Walker / AFP / CP

A tensão aumentava, neste domingo, na Bolívia, duas semanas após a reeleição questionada do presidente Evo Morales e depois que um influente líder regional da oposição chamou os militares a intervir na crise política. Em um comício no sábado à noite, Luis Fernando Camacho, chefe de uma poderosa entidade civil na rica região de Santa Cruz, lançou um ultimato a Morales e deu-lhe 48 horas para renunciar.

"(Morales) tem 48 horas para renunciar, porque nesta segunda-feira às sete horas da noite (20h no horário de Brasília), vamos tomar medidas e garantiremos sua saída", disse Camacho a uma multidão em Santa Cruz, reduto da oposição. Camacho, líder do Comitê Cívico de Santa Cruz, também leu uma carta dirigida aos chefes das Forças Armadas, a quem pediu para "estarem ao lado do povo" nesta crise desencadeada pela questionada vitória eleitoral de Morales, no poder desde 2006. A oposição boliviana exige a anulação da votação de 20 de outubro e a convocação de novas eleições gerais (presidenciais e legislativas).

Camacho é o primeiro político boliviano a chamar a intervenção militar nesta crise, mas suas declarações podem ser consideradas como "sedição", um crime punível pelo Código Penal Boliviano, segundo um especialista em direito consultado pela AFP. O apelo à intervenção militar é uma questão altamente sensível na Bolívia, que antes de 1982 sofreu uma série de revoltas e ditaduras militares.

Até agora, as Forças Armadas ficaram de fora da polêmica pós-eleitoral. Morales denuncia há uma semana que a oposição tenta derrubá-lo através de um "golpe de Estado". No sábado, ele pediu aos seus seguidores que "defendam a democracia e os resultados eleitorais" de 20 de outubro. Camacho não disse quais medidas adotará, mas presume-se que possa ocupar escritórios regionais de entidades e empresas públicas.

O comício de Santa Cruz contou com a presença de líderes de comitês e organizações cívicas de outras regiões da Bolívia. Camacho exigiu na quinta-feira a renúncia de Morales, a quem culpou pela morte de dois manifestantes da oposição em uma cidade da região de Santa Cruz, um crime pelo qual seis suspeitos foram presos na sexta-feira. Desde o início dos protestos, no dia seguinte à votação, cerca de 140 feridos foram registrados. A oposição afirma que o presidente de esquerda foi reeleito de forma "fraudulenta". O sistema de contagem rápida ficou paralisado por 20 horas e, quando retomado, produziu uma mudança drástica e inexplicável da tendência, segundo observadores da OEA.

Os opositores garantem que Morales está determinado a permanecer no poder a todo custo e recordam que o chefe de Estado ignorou um referendo realizado em 2016 no qual os bolivianos rejeitaram a reeleição por tempo indeterminado. Uma polêmica decisão em 2017 de um tribunal constitucional permitiu que ele se recandidatasse. A incerteza sobre uma auditoria eleitoral da OEA aumentou após a renúncia surpresa do chefe da missão da organização, o mexicano Arturo Espinosa, depois de admitir que havia publicado artigos críticos sobre Morales.

A oposição boliviana rejeita a auditoria da OEA, incluindo o ex-presidente Carlos Mesa (2003-2005) e candidato à presidência, por considerar "uma manobra de distração para manter Morales no poder". O movimento de Mesa realizará uma assembléia neste domingo para definir os passos a serem seguidos em sua busca pela renúncia de Morales.