Trump afirma que "curdos não são anjos" e que conflito com Turquia não é problema dos EUA
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Trump afirma que "curdos não são anjos" e que conflito com Turquia não é problema dos EUA

Presidente norte-americano também disse que curdos sabem lutar ao defender saída das tropas do norte da Síria

Por
Correio do Povo e AFP

Chefe de Estado afirmou que sanções são melhores que presença militar

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira que os curdos "não são anjos", em um momento de fortes questionamentos sobre sua decisão de retirar tropas do norte da Síria em meio à ofensiva da Turquia. "Todos os soldados americanos estão fora do local. Síria e Turquia podem lutar. Eles têm muita areia por lá. Há muita areia com a qual eles podem brincar. Se a Turquia entra na Síria, é entre a Turquia e a Síria. Não é problema nosso", disse a jornalistas. Os comentários do chefe de Estado – que também disse que não há problema em a Rússia ajudar o regime de Bashar al Assad no conflito – acontecem apesar das forças curdas serem aliados que desempenharam um papel fundamental na derrota do Estado Islâmico.

"Existem muitos países por aí que odeiam o grupo Estado Islâmico tanto quanto nós. Então acho que estamos numa posição estratégica", garantiu, dizendo que “os curdos sabem como lutar". "Como eu disse, eles não são anjos. Eles estão muito mais seguros no momento. Eles lutaram junto a nós, pagamos muito dinheiro para lutarem conosco e está tudo bem", disse ainda. O vice-presidente Mike Pence viajará para se reunir com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e tentar alcançar um cessar-fogo na região.

Contudo, a Ancara já descartou uma negociação com os combatentes curdos. "Nos dizem que devemos declarar um cessar-fogo. Nunca poderemos declarar uma trégua enquanto a Turquia não expulsar a organização terrorista da fronteira. Nossa proposta é que agora, esta noite, todos os terroristas entreguem as armas, equipamentos, tudo, que destruam todas as fortificações e abandonem a zona de segurança que estabelecemos", afirmou em um discurso no Parlamento. 

Após negar num primeiro momento que se encontraria com as autoridades americanas, Erdogan finalmente se reunirá com Pence, segundo informou a presidência turca. Erdogan, que disse pouco antes à rede de televisão Sky News que Pence e o secretário de Estado americano Mike Pompeo seriam recebidos apenas por seus colegas, "prevê, é claro, se reunir com a delegação dos Estados Unidos", disse o diretor de comunicação da presidência turca no Twitter.  Ao mesmo tempo, os combates prosseguem na Síria. Na cidade fronteiriça turca de Ceylanpinar, era possível ouvir explosões na localidade de Ras al-Ain, onde os combatentes curdos tentam evitar o avanço das forças de Ancara.

Ele exigiu que os curdos entreguem as armas e abandonem a "zona de segurança" de 32 quilômetros de profundidade e 480 quilômetros de extensão ao longo da fronteira. Além de "eliminar um corredor terrorista" ao longo de trazer "paz e tranquilidade" para a região, o objetivo da ofensiva é criar uma "zona segura", conforme Erdogan quer, então, reinstalar pelo menos um milhão de seus 3,6 milhões de refugiados sírios em áreas majoritariamente curdas. Com o início, na semana passada, da operação militar contra a milícia das Unidades de Proteção Popular (YPG), Ancara modificou as alianças e transformou o norte da Síria no novo epicentro de uma guerra que devasta o país desde 2011. Graças a um acordo com as forças curdas, al-Assad retornou a regiões que não controlava há vários anos, e a Rússia, aliada de Damasco, preencheu o vazio deixado pela retirada das forças americanas. 

Putin convida Erdogan

Em 9 de outubro, a Turquia iniciou a operação contra as YPG, um grupo apoiado pelos países ocidentais pelo papel desempenhado na luta contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI). Ancara considera que esta milícia, principal integrante das Forças Democráticas Sírias (FDS), uma coalizão árabe-curda, é uma "organização terrorista" por seus vínculos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que opera uma guerrilha na Turquia. Para contra-atacar a ofensiva, as forças curdas pediram ajuda a Damasco, que enviou tropas ao norte do país, sobretudo em Manbij e Ras al-Ain.

Nesta localidade, na terça-feira, morreram dois soldados do governo Assad por disparos de artilharia dos rebeldes pró-Turquia, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). De acordo com a ONG, nesta quarta-feira, o Exército sírio e os combatentes curdos protagonizavam uma batalha violenta contra os rebeldes apoiados por Ancara em Ain Isa. A mobilização das forças do regime sírio, aliado de Moscou, provoca o temor de um confronto com os militares turcos e os rebeldes apoiados por Ancara.

Para tentar evitar este cenário, o presidente russo, Vladimir Putin, convidou Erdogan a visitar Moscou. O Kremlin informou que a polícia militar russa faz "patrulhas ao longo da linha de contato" entre as forças sírias e turcas na região de Manbij. Um canal de TV russo exibiu as primeiras imagens de tropas russas e sírias em Manbij, onde antes estavam mobilizados soldados americanos.

Erdogan chamou de "acordo sujo" o pacto entre os curdos e o regime de Assad. O objetivo da operação turca é a criação de "uma zona de segurança" de 32 km de largura ao longo da fronteira para separá-la das áreas sob controle das YPG e repatriar parte dos 3,6 milhões de refugiados sírios instalados na Turquia. Em sete dias, morreram 71 civis, 158 combatentes das FDS e 128 militantes pró-Turquia, segundo o OSDH. Ancara informou que seis soldados morreram na Síria, assim como 20 civis que foram atingidos por foguetes disparados por combatentes curdos contra cidades turcas. A ofensiva provocou a fuga de 160 mil pessoas do norte da Síria, anunciou a ONU. Vários países europeus temem uma fuga em massa de extremistas detidos em centros controlados pelos curdos. Quase 12 mil combatentes do EI, que incluem de 2,5 mil a três mil estrangeiros, estão detidos nestes campos.