Trump e Macron esquentam a reunião pelos 70 anos da Otan
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Trump e Macron esquentam a reunião pelos 70 anos da Otan

Desconforto de Donald Trump com críticas do presidente francês à Otan mostraram diferenças de uma aliança que olha desconfiada para Rússia e China

Por
AFP

Macron disse que Otan sofre "morte cerebral" e Trump Classificou como "muito ofensiva"

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou nesta terça-feira como "muito ofensivas" as críticas feitas contra a Otan pelo francês Emmanuel Macron, mostrando as diferenças de uma aliança que olha desconfiada para a Rússia e a China.

"Minha declaração (sobre a 'morte cerebral' da Otan) provocou a reação de muitas pessoas, mas eu mantenho essas palavras", disse o presidente francês numa entrevista ao lado de Donald Trump, que descreveu essas afirmações como "muito ofensivas".

Com suas declarações polêmicas, presidente da França tentou sacudir a cúpula da Otan, que começa nesta terça-feira em Londres, depois que o pedido de Trump por mais gastos militares para seus parceiros foi o tema central dos encontros anteriores. Diante do presidente dos Estados Unidos, Macron disse que a Aliança, nascida dos escombros da Segunda Guerra Mundial para enfrentar a vizinha União Soviética na Europa, não é "apenas dinheiro".

A França defende uma reforma na estratégia da Otan, em um contexto de crescimento militar da China e ataques de grupos extremistas, razão pela qual Paris está preocupada com a ofensiva da Turquia no norte da Síria. Macron afirmou que a Turquia deveria combater as milícias curdas das Unidades de Proteção Popular (YPG), chave na luta contra o grupo radical Estado Islâmico, mesmo considerando que Ancara trabalha "às vezes" com seus "intermediários".

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, criticou a visão de Macron no passado e, antes de viajar para Londres, anunciou que vetaria as decisões da Otan, desde que o YPG não seja reconhecido como "terrorista".

Numa reunião, com a presença do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e a chanceler alemã, Angela Merkel, Erdogan e Macron concordaram que a prioridade é lutar contra o EI. Mas "nem todos os esclarecimentos foram obtidos nem todas as ambiguidades foram resolvidas", disse Macron, para quem não se deve "misturar as situações" em relação aos grupos terroristas.

Investimentos "morosos"

Após as reuniões bilaterais, à noite será realizada a recepção oficial da rainha Elizabeth II. Boris Johnson também vai promover um evento social para os 29 líderes da Aliança, no penúltimo dia do encontro. O último dia, no qual será apresentado um documento para lembrar os sucessos da Otan, deve ser o mais agitado, com Trump aumentando novamente a pressão sobre aliados que não gastam o suficiente.

O presidente dos Estados Unidos, o primeiro poder da Otan e cujos gastos militares nacionais atingiram 3,30% do PIB em 2018, elogiou os esforços dos aliados para aumentar os repasses para o organismo. Mas, em sua opinião, os processos para aumento nos investimentos estão "morosos". Segundo dados da Aliança, apenas nove de seus 29 membros atingiram 2% do PIB este ano em gastos militares, meta prometida para até 2024.

O dirigente americano apontou como exemplo o caso da primeira economia europeia, a Alemanha, que vai atingir 1,38% do PIB em 2019 e aqueles com menos gastos, em referência ao Luxemburgo (0,56%) e Espanha (0,92% ). Apesar de suas críticas e da disputa comercial em relação imposto francês sobre o setor digital, Trump adotou uma postura mais conciliatória com Macron sobre a estratégia da Otan.

China no retrovisor

Trump defendeu examinar, por exemplo, desafios como "o enorme crescimento da China", chave para a Rússia e os Estados Unidos, deixando um tratado fundamental da Guerra Fria sobre armas nucleares. "Acabamos com o tratado INF porque a outra parte [Moscou] não vai aderir a ele, mas quer firmar um acordo e nós também", disse Trump, considerando possível "conseguir uma solução" para as armas nucleares.

Macron também pediu, nesse contexto, de "diálogo estratégico", mas sem "ingenuidade" com a Rússia, o principal foco de preocupação dos países bálticos desde o início do conflito na Ucrânia em 2014. O presidente russo, Vladimir Putin, disse pouco antes estar disposto a "cooperar" em questões como "terrorismo" ou "o perigo da proliferação de armas de destruição em massa", apesar do comportamento dos aliados.

Na quarta-feira, os líderes terão sobre a mesa as propostas de Paris e Berlim para iniciar uma reflexão sobre o futuro da Otan e devem confirmar sua aposta no espaço, entre outras decisões. O secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg, criticou as declarações francesas sobre a entidade ao afirmar que "a Aliança é ativa, ágil e efetiva".