Após fim do prazo dado pela Justiça, 40 pessoas seguem presas em viaturas e celas de delegacias
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Após fim do prazo dado pela Justiça, 40 pessoas seguem presas em viaturas e celas de delegacias

Decisão de desembargadora da 6ª Câmara Criminal estipulava limite às 10h de hoje

Por
Franceli Stefani

Reunião buscará alternativas para que presos não fiquem mais em viaturas

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Após o fim do prazo dado pela Justiça para que o Estado resolvesse o problema de presos mantidos em viaturas e em celas de delegacias, cerca de 40 pessoas seguiam dessa maneira em Porto Alegre, segundo levantamento feito pelo Correio do Povo, na tarde de hoje. Os números foram contabilizados até as 16 horas. Em todo o Estado, eram pelo menos 78 detidos nessas condições aguardando vaga no sistema penitenciário. A decisão da desembargadora Vanderlei Terezinha Tremeia Kubiaki, da 6ª Câmara Criminal, estipulava como limite às 10 horas desta terça-feira. A Secretaria de Administração Penitenciária frisou que o Estado não descumpriu a determinação da Justiça. Isso porque, no entendimento da gestão, a desembargadora enviou uma lista com o nome de 71 detentos, sendo que todos já teriam sido transferidos.

Procurada, a secretaria não divulgou a atualização dos detidos que estavam em celas das delegacias e viaturas. De acordo com a pasta, havia apenas os dados divulgados na segunda-feira, ou seja, 76 homens em delegacias, sete em contêineres e 21 em viaturas. De acordo com a gestão, a partir de agora, as parciais não serão mais divulgadas porque os números mudam com frequência. Os dados serão repassados em uma periodicidade que ainda não foi definida.

Na Capital, em frente a Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), na zona Norte, havia seis presos sob custódia de PMs. No Palácio da Polícia, na 2ª DPPA, os brigadianos monitoravam quatro homens. Do outro lado, nos pátios das delegacias, no interior de viaturas, a situação vivida é considerada pelos presos humilhante e preocupante, pelos agentes da segurança pública. “Somos como bichos no zoológico, todo mundo que passa, de carro ou caminhando, olha. Imagina tua mãe passar aqui e ver isso”, reclama um homem de 19 anos. Para ele, é melhor estar atrás das grades do que em uma viatura. O detento disse que tudo o que precisa, apela para os policiais militares, que os monitora 24 horas por dia. “Ao menos no presídio eu vejo minha televisão, fumo o meu cigarro e posso caminhar com tranquilidade”, reclamou. Há cinco dias preso, o homem de 27 anos, também se queixa: “Aqui não conta à nossa pena. Estamos no meio do caminho entre a DP e a cadeia. É angustiante”. Outro homem de 24 anos disse que se sente desconfortável pela situação vivida. “No presídio tem como ver os filhos, a família, tem banheiro, aqui tudo dependemos dos policiais. Esperamos uma vaga”.

A situação causa estresse também nos brigadianos, que executam a tarefa de carcereiros. “Damos comida, água, levamos ao banheiro e estamos em um local sem nenhuma segurança, além de não conseguirmos realizar o policiamento ostensivo. Existe o risco dos rivais ou desafetos passarem por aqui e desferirem tiros, não é seguro”, desabafou um policial. 
Em frente a 3ª DPPA, por exemplo, o uso do álcool específico para eliminar bactérias é companheiro constante dos PMs. Em uma mesa improvisada há itens de higiene, saúde e alimentação. “Um dos custodiados tem asma, faz uso da bombinha e precisamos alcançar. Não há barreira entre nós, então cuidamos da nossa saúde como podemos”, contou. Na 2ª DPPA, os PMs contam que há detidos com tuberculose, HIV, entre outras. “Não temos proteção contra as doenças, o contato é direto. Sem contar que o risco de um ataque ou tentativa de resgate existe, precisamos estar atentos”, afirmou.