Bastidores do julgamento do Caso Bernardo
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Bastidores do julgamento do Caso Bernardo

Clima pesado marcou fase de debates no Fórum de Três Passos

Por
Henrique Massaro

Julgamento do Caso Bernardo durou cinco dias em Três Passos

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É quase 1h da manhã de sexta-feira e estamos sentados em uma lanchonete que presumo ser a única aberta em Três Passos, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Desde que começamos os trabalhos do quarto e mais longo dia do julgamento dos acusados pela morte do menino Bernardo Uglione Boldrini, foram mais de 18 horas de cobertura praticamente ininterrupta. Ao fundo, toca uma música alta que não ajuda no cansaço acumulado, mas é preciso comer algo antes de ir dormir. Ao que parece, é o mesmo raciocínio de outros envolvidos no processo, de advogados a funcionários do Tribunal de Justiça, sentados em mesas espalhadas pelo estabelecimento. O júri popular vai chegando ao fim e a necessidade de descanso só aumenta.

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Às 3h, finalmente, estamos recolhidos no hotel, em Campo Novo, a 35 quilômetros de Três Passos. As horas trabalhadas pesam e precisamos dormir para voltar ao trabalho daqui poucas horas. Apesar disso, o sono não vem, porque a cabeça não para de trabalhar. Tem sido assim ao longo da semana, que, apesar de desgastante, é muito dinâmica. Pela manhã, a sensação é a mesma. As poucas horas dormidas são interrompidas para dias que já começam corridos e a tensão não dá espaço para o cansaço. Ao mesmo tempo, a vontade e a responsabilidade de entregar um trabalho completo faz com que ninguém queira parar até que o julgamento chegue ao fim. Pelas reações de nossa equipe – o fotógrafo do Correio do Povo, Mauro Schaefer, o repórter da Rádio Guaíba, Gutiéri Sanchez, e nosso motorista Celso Azevedo – tenho certeza de ser unânime o sentimento de que a cobertura está valendo a pena e de que faríamos tudo de novo.

Chegamos a Três Passos no domingo, um dia antes do início do júri, após mais de seis horas de viagem partindo de Porto Alegre. A vinda na véspera nos permitiu ter as primeiras impressões de como o município de pouco menos de 24 mil habitantes se preparava para um dos episódios mais marcantes de sua história. A morte do menino Bernardo, há cerca de cinco anos, chocou o Estado e o país, mas é inegável que o fato foi mais impactante para a população local. No dia seguinte, estávamos em frente ao Fórum para o início do júri popular. Foram cerca de seis horas do lado de fora, mostrando o ambiente, as expectativas e relatando praticamente em tempo real pelas mídias digitais. Tudo isso sem o trabalho em si sequer ter começado. 

Apenas no início da tarde acessamos o Fórum, onde nos encontraríamos na maior parte do tempo dos dias seguintes. Diariamente, saíamos cedo de nosso hotel no município vizinho e rodávamos cerca de 30 minutos até Três Passos. Os trabalhos do júri começavam por volta de 9h, mas antes era preciso estar em frente ao prédio para gravação de vídeos, produção de fotografias e entradas na rádio trazendo informações como a chegada dos réus e o funcionamento do julgamento. Dali, só saíamos, no mínimo, por volta de 19h, quando ainda era necessário terminar de produzir o material para abastecer os sites e o jornal impresso. Foi só por volta das 13h de segunda-feira que a experiência de cobrir um júri popular começou. Não se tratava de qualquer evento. Há a repercussão nacional do fato, a comoção popular por envolver um crime contra uma criança de 11 anos e a espera de cinco anos para o julgamento.

O processo funcionaria com um roteiro preestabelecido, mas mudanças pontuais acontecem a todo momento. Seriam 18 testemunhas ouvidas, mas o número mudou para 14 e, ao longo dos primeiros dias, diminuiu para 11. É necessário estar atento para não perder essas alterações, além de apurar quem são as tantas pessoas que passarão pelo salão do júri. Nesse sentido, cabe ressaltar a cooperação entre os veículos de imprensa. Todos estão focados na mesma cobertura, que exige concentração em tempo integral ao que está acontecendo e pouco permite furos de reportagem. Jornalistas do Interior e da Capital se auxiliam como se não houvesse concorrência. Os profissionais se revezam entre o salão do júri, que não tem espaço para todos, e uma sala montada a poucos metros de distância, onde há três elementos importantes para o trabalho: uma televisão transmitindo as sessões, tomadas para carregar os equipamentos e uma garrafa térmica de café reabastecida frequentemente para aguentar as longas horas trabalhadas.

A sentença só será dada no final do dia. À imprensa cabe transmitir com a maior fidedignidade tudo o que acontecer até lá. Mas, independentemente disso, em momentos específicos não há como não sentir a forte carga emocional que esse julgamento carrega. Ouvir testemunhas que conviveram com Bernardo relatando sua percepção de como foram os últimos dias do menino é impactante. 

Mas o momento em que o julgamento assume um clima inegavelmente pesado é durante a fase de debates, quando são mostradas aos jurados fotos do corpo da vítima quando foi encontrado. As imagens são fortes. O júri, na visão da acusação, precisa vê-las para elaborar uma decisão responsável e justa, mas seria desnecessário descrevê-las nessas linhas. Aqui, cabe apenas dizer que sua exibição marcou uma das partes de maior emoção da semana. Na plateia, parte do público chorava. A sensação, em parte, também se refletiu entre a imprensa. Não que tenha havido fortes demonstrações de emoção, mas, entre os jornalistas, um silêncio perturbador tomou conta do ambiente. Não há como não ficar triste pelo que aconteceu ao menino Bernardo. 

Agora é sexta-feira, último dia do julgamento. Do momento em que essas linhas começaram a ser escritas até agora, foram menos de cinco horas de sono. Novamente, já estamos acordados e atentos, sem permitir que o cansaço se manifeste. A cobertura de hoje exige concentração talvez até maior do que a dos dias anteriores. As informações que daremos ao longo do dia vão variar de acordo com o que ocorrer no júri popular. Ainda não temos como saber qual será a sentença, mas já é possível ter, pelo menos, duas certezas. A primeira é de que este foi um evento histórico para o Rio Grande do Sul e até para o Brasil. E a segunda é que nossa cobertura foi repleta de esforço e teve a dedicação que um caso como este demanda e merece. A sensação de dever cumprido supera qualquer cansaço.