"Ele amava trabalhar na rua", diz pai de PM morto na zona Leste de Porto Alegre
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"Ele amava trabalhar na rua", diz pai de PM morto na zona Leste de Porto Alegre

Emocionado, Gustavo de Azevedo Barbosa falou da saudade e do legado que o filho deixou à família

Por
Franceli Stefani

Com honras militares, cercados de amigos, colegas de trabalho e familiares, corpo do soldado Barbosa foi enterrado na manhã desta quarta-feira

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Foi com honras militares que o corpo do soldado do 1º Batalhão de Polícia Militar (BPM), Gustavo de Azevedo Barbosa Júnior, 26 anos, foi sepultado no Cemitério Jardim da Paz, na Zona Leste de Porto Alegre, na manhã desta quinta-feira. Ele foi morto em um confronto na madrugada da quarta, dia 10, na Zona Sul da Capital. Barbosa estava no banco do passageiro quando ele e o colega que dirigia a viatura se depararam com um carro que apresentava alerta de roubo. Houve intensa troca de tiros. Ele chegou a ser socorrido ao Hospital de Pronto Socorro (HPS), mas não resistiu aos ferimentos. O fato ocorreu próximo à praça Guia Lopes, na região da Avenida Teresópolis, por volta das 3 horas.

Considerado um policial linha de frente, deixou os pais, a esposa e uma irmã por parte de mãe. Era amigo, profissional dedicado e um filho valoroso. Muito emocionado, o pai de Júnior, como era carinhosamente chamado em casa, Gustavo de Azevedo Barbosa, 50, diz que ele foi uma pessoa que sempre se preocupou com o próximo. Quando serviu ao Exército Brasileiro percebeu que a carreira que seguiria seria a militar. Ao sair do quartel, dedicado, estudou e passou para o concurso da Brigada Militar (BM). Chamado, entre os mil alunos que fizeram a academia, ele ficou em sétimo lugar. “Na época, isso representava que ele poderia escolher onde quisesse servir. Eu conversei com ele e disse para pegar um serviço interno, mas ele não queria isso. Ele amava trabalhar na rua. Escolheu um batalhão que atendesse a Zona Sul. O Batalhão de Ferro”, conta ele.

Há três anos na instituição, sendo cerca de um ano de curso e pouco mais de dois de efetivo exercício, era um colega querido pelos companheiros de farda. Atuante, já havia várias prisões de grande porte no seu histórico. “Ele é meu filho único. Nós eramos apegados, tanto que ele carregava o meu nome. Meu único filho. Eu sei que ele foi uma pessoa de honra, correta, íntegra e morreu fazendo aquilo que mais gostava. Eu sei que ele está bem, em um lugar muito melhor que nós”, desabafa Barbosa, emocionado. Ele recebeu a notícia que algo havia acontecido com o soldado por volta das 4h20min.

“Eu tenho dois celulares. Um que está sempre comigo e outro que fica dentro da minha mochila com o computador. Eu estranhei porque esse secundário estava vibrando muito. De repente, ele parou e, pouco depois, o aparelho que uso diariamente começou a tocar”, detalha. Foi a certeza que alguma coisa havia acontecido, já que não costuma receber ligações de madrugada. Do outro lado da linha estava o tio dele, também policial militar. “Ele foi um dos primeiros a ser avisado do que havia acontecido com meu filho, com o sobrinho dele. Quando atendi, ele me falou: 'vem aqui para o HPS que aconteceu alguma coisa com o Júnior'".

Imediatamente, se arrumou, pegou algumas coisas e saiu. Até então não havia nenhuma comprovação do que havia ocorrido. “Infelizmente, a gente vai preparado para tudo”, pondera. Quando chegou na instituição, o tio o recebeu e o conduziu para falar com o médico. “Só que antes disso, antes de entrar, uma senhora que estava na recepção me perguntou se eu era o pai do soldado e me deu os pêsames. Então foi uma situação muito complicada, chegar lá e, naquele momento, eu tive a certeza do que havia acontecido.” Sem saber como descrever o que sentiu, diz que é “receber a ligação que tu nunca quer receber”.

Formado em direito, o filho, esposo, sobrinho, amigo e policial apaixonado foi morto com um tiro no rosto. O disparo desferido pelos criminosos acertou na face, poucos centímetros abaixo do olho direito. “Só quem tem filho sabe o que é tu ser responsável por uma pessoa, tu te dedicar, querer ver ela bem, ver ela encaminhada, ter o seu sucesso na vida. E, como pai, tu receber aquela ligação na madrugada. É a pior notícia que se possa imaginar.”

Agradecimento

O pai, Gustavo de Azevedo Barbosa, lamenta o ocorrido e agradece, em nome da família, todo o apoio recebido das instituições de segurança, amigos e colegas de trabalho. “Foi uma fatalidade. A Brigada Militar é órgão extremamente importante, que nos acolheu e resolveu todas as questões burocráticas. Fui abraçado por todos. O meu filho honrava o trabalho dele, então eu só tenho a enaltecer a corporação e diria para todos eles, que me procuraram, que me contataram, muito obrigado por tudo o que eles fizeram.”

De acordo com ele, quando uma pessoa escolhe prestar concurso público para a área da segurança, vestir uma farda, como o soldado Barbosa, ela está disposta a proteger o cidadão. “Tu vai ser aquele primeiro enfrentamento, a primeira barreira contra a criminalidade, é tu que vai se colocar de frente ao bandido no momento que for preciso, para proteger o outro. Esse pessoal tem que ser valorizado, respeitado, reconhecido e a sociedade precisa reconhecer que são homens de honra, brio, que foram treinados para isso e que nos momentos que mais precisarmos eles estarão lá.”

A dedicação ao trabalho e o caráter que o filho tinha sempre serão lembrados. O legado que ele deixa é imenso. “Como pai me sinto extremamente realizado de ter tido um filho honesto e correto. Um filho honrado, gigante, que me deu muito orgulho. Todas as conquistas dele eu estava lá. Então me sinto muito feliz. Ele cumpriu a missão dele. Ele está num lugar bem melhor e feliz. Eu extremamente orgulhoso de ter tido com ele como filho.”