Polícia Civil investigará possíveis “erros técnicos” em abordagem que resultou em morte de PRF

Polícia Civil investigará possíveis “erros técnicos” em abordagem que resultou em morte de PRF

Investigação sobre caso que envolve policiais militares tem prazo de um mês, com possibilidade de extensão

Correio do Povo

PRF prestou homenagem no velório e enterro

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A Polícia Civil assegurou a isenção e imparcialidade no caso da morte do policial rodoviário federal aposentado por policiais militares durante confusão ocorrida na madrugada da última segunda-feira em Torres, no Litoral Norte. A garantia foi dada no início da tarde desta terça-feira pelo Subchefe da PC, delegado Fábio Motta Lopes, durante entrevista coletiva à imprensa realizada na delegacia da cidade. 

Ainda que note possíveis “erros técnicos” dos policiais militares na abordagem que desencadeou a situação, a Polícia Civil faz diligências e aguarda por mais imagens para esclarecer os fatos do início ao fim. O Ministério Público do Rio Grande do Sul vai acompanhar o trabalho policial, que tem prazo legal de um mês com possibilidade de extensão.

“Vamos trazer a verdade à tona”

“Nós teremos e não poderia ser diferente o mais isento e mais imparcial possível nesta investigação. Isto não significa que vamos pender para um lado ou para o outro. Vamos esclarecer o fato de uma forma muito transparente”, garantiu Lopes. “Gostaria de tranquilizar a população de que todas as informações serão checadas. Vamos trazer a verdade à tona”, acrescentou, destacando ainda que a conduta de todos os envolvidos será avaliada no decorrer do inquérito.

A diretora da 23ª Delegada de Polícia Regional do Interior, delegada Sabrina Deffente, estava junto na entrevista coletiva. O encarregado do caso é o delegado Juliano Aguiar de Carvalho, titular da DP de Torres, que assume o trabalho investigativo a partir desta quarta-feira. 

O delegado Fábio Lopes adiantou que dois momentos são muito claros para a elucidação do episódio: “Os fatos têm logicamente uma conexão”, afirmou. O primeiro, apontou, é sobre as desordens ocorridas em estabelecimentos comerciais e danos em árvores da cidade. “É a situação inicial que gera a abordagem da Brigada Militar”, frisou. Já o segundo momento é a pós abordagem, quando os dois filhos da vítima são abordados em um Gol branco.

Imagens não são completas

“Muitas imagens divulgadas na imprensa e nas redes sociais retratam o que aconteceu, mas não são completas e não dão o início da abordagem e o instante final que aquelas pessoas foram retiradas do local”, observou, lembrando que novas imagens estão sendo procuradas pelos policiais civis para que seja possível obter “um registro fiel do que aconteceu”.

O Subchefe da Polícia Civil declarou também que depoimentos de testemunhas e envolvidos já estão sendo colhidos entre outras diligências na investigação. “Não estou questionando a técnica de abordagem da Brigada Militar, mas pela experiência policial se percebe sim alguns erros técnicos, algumas falhas que não seguiram a cartilha”, avaliou sobre o episódio. “Não podemos afirmar se houve excesso ou não”, ressalvou.

Sobre a hipótese de que o Gol, de cor branca, pode ter sido confundido com um outro veículo idêntico visto envolvido nas desordens, o delegado Fábio Lopes informou que “não podemos afirmar neste momento se os dois filhos estiveram na padaria”.

“Não podemos descartar e nem podemos afirmar neste momento que eram os dois”, enfatizou. “O que tem de similitude é a presença de um veículo com a mesma característica e com dois indivíduos”, ressaltou. “Há uma confirmação de que eles em via pública estavam fazendo uma certa algazarra digamos assim, e danificando árvores”, pontuou.

Confusão

Conforme a Brigada Militar, o efetivo do 2° Batalhão de Policiamento de Áreas Turísticas (2°BPAT) foi atender uma desordem em dois estabelecimentos comerciais da cidade, incluindo uma padaria. Suspeitos pelos policiais militares, os dois filhos do policial rodoviário federal estavam em um Gol, de cor branca, e foram perseguidos por cerca de um quilômetro até a frente de um prédio.

O policial rodoviário aposentado desceu do apartamento do edifício e a situação agravou-se. Imagens de uma câmera de celular que circulam nas redes sociais mostram o tumulto que resultou no policial rodoviário aposentado baleado e um dos filhos dele ferido também por tiros, além de um policial militar com ferimentos por agressões sofridas sobretudo no rosto, boca e nariz.

Despedida

Após o velório do corpo do policial rodoviário federal aposentado, de 59 anos, na manhã desta terça-feira na Capela Mortuária Santa Cruz, em Torres, um cortejo foi realizado até o Cemitério Municipal do Campo Bonito.

A Polícia Rodoviária Federal prestou homenagem com a colocação de uma bandeira da instituição sobre o caixão, que foi carregado pelo efetivo da PRF presente na cerimônia fúnebre.

A pedido do advogado Ivam Brocca, da família da vítima, a Justiça determinou a soltura provisória dos dois filhos da vítima, de 33 anos e de 37 anos, sendo que este último foi quem ficou ferido. Ambos haviam sido presos logo após o tumulto. Eles puderam despedir-se do pai, junto com familiares e amigos.

“A linha de defesa já providenciamos a ocorrência contra os dois policiais militares pelo crime de homicídio qualificado e duas tentativas, além de ter sucesso na liberação dos dois filhos pois a juíza concedeu alvará de soltura”, explicou o advogado Ivam Brocca. “Um funcionário da padaria não reconheceu os dois como perpetradores de qualquer desordem”, assinalou. 

A Brigada Militar abriu Inquérito Policial Militar (IPM) para esclarecer também o caso, afastando os dois policiais militares das atividades como é de praxe nestas situações. Os dois policiais militares vão alegar legítima defesa diante das agressões recebidas. 

Nota Oficial

A Ordem dos Advogados do Brasil-Seccional Rio Grande do Sul emitiu nota oficial sobre o fato. “A OAB/RS acompanhará o desdobramento do caso com a devida atenção. Reiteramos a importância da apuração dos fatos com a maior celeridade possível. A cidadania não pode mais conviver com casos de violência e abusos. Que a investigação policial aconteça na seara militar e na seara judicial e possa elucidar o trágico episódio na cidade de Torres”, manifestou-se.

A entidade já oficiou ao secretário de Segurança Pública e vice-governador, Ranolfo Vieira Júnior; o comandante-geral da Brigada Militar, coronel Vanius Cesar Santarosa, e ao corregedor-geral da Brigada Militar, tenente-coronel Robinson Vargas de Henrique, solicitando “uma apuração célere” e “requereu acesso e acompanhamento” às investigações. “A OAB/RS seguirá acompanhando o caso até seu devido e completo esclarecimento”, concluiu.

A Polícia Rodoviária Federal também já tinha divulgado uma nota oficial. "A PRF está prestando o apoio à família e acompanhará as investigações da Polícia Civil e da Brigada Militar, responsáveis pela apuração das condutas dos envolvidos, enquanto se coloca à disposição em contribuir para uma justa e isenta investigação", comunicou na ocasião.


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