Bolsonaro ajusta discurso ambiental para Assembleia Geral da ONU
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Bolsonaro ajusta discurso ambiental para Assembleia Geral da ONU

Itamaraty e militares sabem que o momento é de "baixar a poeira" e, portanto, evitar novas polêmicas

Por
AE

Bolsonaro fará discurso na Assembleia-Geral da ONU

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Apesar da promessa de um discurso "conciliatório", o presidente Jair Bolsonaro deve aproveitar sua fala na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na terça-feira, para enviar recados à comunidade internacional. A estreia do brasileiro na organização terá respostas às críticas - na visão do governo, indevidas - feitas à política ambiental de Bolsonaro e à condução do combate às queimadas na Amazônia.

Desde a campanha eleitoral Bolsonaro foi classificado pela imprensa estrangeira como um populista de extrema-direita, com descrição dos episódios de retórica do brasileiro e sua visão a respeito de proteção ambiental. A pressão se intensificou em agosto, com a divulgação de dados sobre aumento do desmatamento e das queimadas na Amazônia no ano de 2019, e levou a um embate público entre Bolsonaro e o presidente francês, Emmanuel Mácron.

Itamaraty e militares sabem que o momento é de "baixar a poeira" e, portanto, evitar novas polêmicas. Por isso, a linha a ser seguida pelo presidente será a adotada no pronunciamento na TV feito após a intensificação dos protestos internacionais sobre a Amazônia. A previsão é de que Bolsonaro repita que o governo brasileiro não tolera crimes ambientais, defenda a soberania no País, envie recados a Macron e indique que as queimadas na floresta tropical não atraíram a atenção da comunidade internacional em governos anteriores - sugerindo que há má vontade com sua gestão. O governo também deve trazer dados para repetir o argumento de que as queimadas estão na média de anos anteriores.

A ideia é tentar reverter a imagem de que as queimadas foram produzidas pelo governo Bolsonaro, segundo um diplomata, e abrir caminho para oportunidades econômicas na região. No discurso, o presidente deve indicar que o conceito de desenvolvimento sustentável existe com a contribuição do Brasil e que o País está aberto a iniciativas de desenvolvimento da região com cooperação do setor privado.

Bolsonaro vai citar no discurso a Operação Acolhida, de recebimento de refugiados venezuelanos. O programa, encabeçado pelos militares, tem boa recepção na comunidade internacional. Uma ala do governo trabalhava para que o foco do discurso fosse esse, com ideia de virar a apresentação para uma pauta positiva - mas o predomínio da fala será sobre a nova gestão de Bolsonaro e as respostas sobre a situação ambiental.

O presidente já afirmou que não pretende "apontar o dedo" para outros chefes de Estado em sua fala na ONU. "Nós temos que falar do patriotismo nosso, da questão da soberania, do que o Brasil representa para o mundo, sempre aberto, um país cujo povo é bem recebido em qualquer lugar. Aqui também tem formação de gente do mundo todo", disse Bolsonaro anteontem, a jornalistas. "A ideia é fazer um pronunciamento falando de quem nós somos, nossas potencialidades, o que mudou também. Não tem mais aquela questão ideológica."

Em paralelo, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem feito um périplo por redações de veículos de imprensa estrangeira, em Washington e Nova York, e representará o País na Cúpula do Clima, na qual o Brasil não terá direito a discurso. O governo quer ocupar todos os espaços em que o tema da Amazônia puder ser levantado, para tentar rebater críticos.

O texto a ser lido por Bolsonaro foi discutido pelo presidente com o chanceler Ernesto Araújo, o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, e Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. O assessor para assuntos internacionais do Planalto, Filipe Martins, também participou da elaboração do discurso.

Preocupados com o tom que o presidente adotará perante à comunidade internacional, a bancada ruralista enviou o senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) como um emissário na interlocução com o Planalto, para assegurar que o presidente não criará novos atritos que possam ficar no caminho das negociações comerciais do País.

Esquerda

O presidente pretende fazer críticas a Cuba e Venezuela durante sua fala, com a visão de que governos de esquerda nesses países levaram à corrupção e ao sofrimento da população. Um dia antes da abertura da Assembleia Geral, Araújo irá representar o Brasil em encontro do Grupo de Lima e em reunião que poderá ativar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar).

O pacto, da época da Guerra Fria, pode permitir, no limite, uma intervenção militar na Venezuela. Militares e diplomatas brasileiros, no entanto, concordaram que o País seguirá se opondo ao uso de força. Há previsão, no entanto, de que, junto com Colômbia, o Brasil proponha a criação de uma estrutura formal para liberar a aplicação de sanções políticas e econômicas ao chavismo por parte dos países signatários do Tiar.

Durante os últimos dias, assessores discutiram também a duração do discurso, considerando que a fala não pode ser tão curta como o pronunciamento feito no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, mas também que o presidente não se sai bem em discursos lidos.

Agenda 

Em recuperação após passar por uma cirurgia, o presidente terá agenda restrita durante a passagem de três dias pelos Estados Unidos, mas vai se reunir com o presidente americano Donald Trump para um jantar. Não há expectativa de outros encontros bilaterais na viagem.

Bolsonaro escolheu alguns dos ministros mais próximos para acompanhá-lo na viagem. Entre eles, o general Heleno, considerado um de seus principais conselheiros, e o chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. A primeira-dama Michelle Bolsonaro integrará a comitiva, além de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e indicado para assumir a embaixada do Brasil em Washington. O senador Nelsinho Trad (PSD-MS) também estará na viagem.