Eleição em Porto Alegre evidencia baixa nas alianças de ocasião

Eleição em Porto Alegre evidencia baixa nas alianças de ocasião

Rompimento característico do pleito de 2018 e do atual cenário político influencia a mudança de tática em partidos e candidatos

Flavia Bemfica

Campanha terá uma série de novidades em Porto Alegre

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Em uma campanha que terá uma série de novidades devido às condições impostas pelo coronavírus e às mudanças nas regras eleitorais, o cenário em Porto Alegre traz outros dois componentes que despertam a atenção. A participação acentuada, na corrida pela prefeitura, de políticos que no passado já pleitearam o posto ou estiveram no comando da cidade. E a divisão de candidaturas e coligações em campos programáticos melhor definidos, com diminuição das chamadas alianças de ocasião e as coalizões amplas, que costumavam unir siglas de linhas ideológicas completamente diferentes.

A movimentação de parte desses candidatos no cenário aponta que, se em eleições passadas eles buscavam apoios e alianças de colorações ideológicas variadas, no pleito atual isso é bem menos evidente. E não ocorre só porque, a partir de 2020, estão vetadas as coligações de partidos nas chamadas chapas proporcionais: no caso das eleições municipais, as apresentadas para disputar cadeiras na Câmara de Vereadores.

Conforme a professora Silvana Krause, do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, o aumento no número de candidatos a prefeito (são 13 em Porto Alegre, sendo que seis já concorreram ao posto antes) se deve ao entendimento das siglas de que uma candidatura própria para o cargo de prefeito aumenta a visibilidade e pode ajudar a carregar votos para os vereadores. Mas, também, indica uma tentativa de partidos já tradicionais de se reposicionarem e voltarem a se fortalecer depois do cenário disruptivo que se acentuou nas eleições gerais de 2018. Isso ajuda a explicar tanto o critério da ‘proximidade de eixos’ ideológicos como a apresentação de nomes conhecidos.

“Também não podemos esquecer outro fator: o fato de que os cenários locais são impactados pelo cenário nacional. No passado, tínhamos, e de forma mais acentuada nos anos Lula, governos de coalizão, amparados por uma ampla gama de partidos. O PSD, por exemplo, foi fundado para permitir que uma parte do DEM que desejava ingressar na máquina do governo petista pudesse fazer isso”, resume Krause, em referência ao chamado presidencialismo de coalizão.

“Com a maior polarização existente hoje do ponto de vista ideológico, as alianças se tornaram mais homogêneas. Nos anos em que o PT, a mais robusta sigla de esquerda, ocupou a presidência da República, houve a participação no governo, por exemplo, do PP, do PR/PL, do PSC e do PTB, entre outros. Hoje temos uma configuração diversa, bem clara: o governo é de direita e não há siglas de esquerda participando dele” completa o professor de Políticas Públicas e Ciência Política da Ufrgs, Sergio Simoni Júnior.

Assim como ocorria nacionalmente, no cenário local, no decorrer das duas últimas décadas, conforme o momento, o PCdoB se uniu ao PPS, ao PR, ao PSC ou ao PSD. O PT disputou uma eleição coligado com o PSL (pelo qual Jair Bolsonaro viria a disputar e vencer a eleição presidencial em 2018) e outra com o PRTB (o partido do hoje vice-presidente da República, Hamilton Mourão) e o PR, que então indicou o vice na chapa, um coronel reformado. O PDT liderou uma aliança que tinha, entre outros, o DEM e o PP.

“O campo à direita é historicamente fragmentado, mas hoje aumentou tanto seu número de siglas como sua visibilidade. Antes, a direita não era ocupada por nomes fortes. Na esquerda, o PT (desde o final dos anos 80) tinha muita força, hoje há outras siglas ocupando parte desse espaço. O MDB continua sendo tradicionalmente de centro, para onde se deslocou também o PSDB. Como vários grandes partidos perderam musculatura e pequenos conseguiram espaço, temos muitos partidos médios no cenário, o que também responde por esta mudança, com candidaturas ideologicamente mais claras, na campanha atual”, adianta Simoni.  

Com quem eles estiveram nos pleitos passados

2000

Valter Nagelstein, então no PPS, concorreu à prefeitura em coligação com o PHS e o PAN.

Júlio Flores disputou a eleição pelo PSTU. Ele já havia concorrido, também pelo PSTU, em 1996.

O vitorioso no pleito foi o petista Tarso Genro, que encabeçou uma aliança formada por PT, PSB, PCdoB e PCB.

2004

Valter Nagelstein, no PMDB, disputou a eleição como vice de Mendes Ribeiro Filho, do mesmo partido, e em uma coligação que reunia ainda PHS, Prona e PSDC.

Quem ganhou a eleição foi José Fogaça, então no PPS, e coligado com o PTB, que tinha o vice, Eliseu Santos.

2008

Nelson Marchezan Júnior, então deputado estadual pelo PSDB, disputou a prefeitura da Capital pela primeira vez.

Manuela D’ávila, então deputada federal pelo PCdoB, disputou a prefeitura pela primeira vez, com Berfran Rosado (PPS) como vice e encabeçando uma coligação que reunia também PR, PTdoB, PMN, PSB e PTN.

José Fortunati, então no PDT, foi quem concorreu como vice de José Fogaça. Fortunati havia sido vice-prefeito de 1997 a 2001, pelo PT, durante a administração do também petista Raul Pont. A sucessão de Pont foi um dos motivos de sua saída do partido, em 2000. Fogaça, de volta ao PMDB, disputava a reeleição após ter sido eleito prefeito em 2004 pelo PPS. A coligação incluía também PTB e PSDC e venceu a eleição. Em 2010 Fogaça deixou o cargo para disputar o governo do Estado e Fortunati assumiu a prefeitura.

2012

José Fortunati (PDT) disputou a reeleição apoiado em uma coalizão que reuniu ainda PMDB, PP, DEM, PTB, PRB, PTN, PPS e PMN. Seu vice foi Sebastião Melo (PMDB). Eles venceram a eleição no primeiro turno, com 65,22% dos votos válidos.

Manuela D’Ávila (PCdoB), tentou novamente a prefeitura, em coligação com PSB, PSC, PHS e PSD. Sua candidatura ganhou o apoio da então senadora Ana Amélia Lemos (PP), que se licenciou do diretório de seu partido na Capital durante a campanha, já que o PP integrava uma coligação adversária.  

2016

Júlio Flores disputou pela terceira vez a prefeitura, também pelo PSTU.

Nelson Marchezan Júnior (PSDB) concorreu a prefeito novamente e saiu vencedor. Dessa vez, ao invés de chapa pura, como em 2008, ele ficou à frente de uma coligação formada ainda pelo PP, que indicou o vice, Gustavo Paim, o PMB e o PTC. No segundo turno recebeu o apoio do PTB, que encabeçava outra coligação no primeiro turno.

Sebastião Melo (PMDB), então vice-prefeito, conseguiu manter parte da aliança que havia eleito Fortunati em 2012 e ampliar o número de siglas, disputando a prefeitura coligado com PDT, PHS, PROS, PTN, PRTB, PRB, PSDC, PPS, PSB, PSD, DEM, Rede e PEN. No segundo turno contra Marchezan, recebeu o apoio do PCdoB que, no primeiro, havia disputado a eleição coligado com o PT.

Juliana Brizola (PDT), então deputada estadual, concorreu como vice na chapa encabeçada por Melo.

Gustavo Paim (PP), disputou na chapa de Marchezan e foi eleito vice-prefeito.

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