Ex-presidentes da Corsan divergem sobre privatização

Ex-presidentes da Corsan divergem sobre privatização

Discussão ocorreu durante live realizada pela Famurs para debater o assunto

Flávia Simões*

Encontro foi promovido com o objetivo de promover mais esclarecimentos sobre a privatização

publicidade

A poucos dias da votação na Assembleia Legislativa, prevista para a próxima terça-feira, da PEC do Plebiscito que retira a obrigatoriedade de realização da consulta popular para a privatização da Corsan, Banrisul e Procergs, ex-presidentes da estatal divergiram sobre a venda da companhia. As colocações foram feitas durante live realizada pela Famurs, sob o comando do presidente da entidade, Maneco Hassen. A Corsan presta serviço a 317 dos 497 municípios gaúchos.

Contrário à proposta, Arnaldo Dutra afirmou que apesar dos problemas enfrentados pela empresa, a venda não seria uma solução. Dutra ficou à frente da estatal durante o governo de Tarso Genro (PT) e reiterou que o problema é de gestão, não de arrecadação e, se bem administrada, seria capaz de cumprir as metas estabelecidas pelo novo marco do saneamento básico, argumento utilizado pelo governador Eduardo Leite (PSDB), quando anunciou o desejo de venda, no início de março. 

"Privatizar a Corsan nos moldes anunciados pelo governador não é simplesmente trocar o controle acionário de uma empresa, mas é colocar em risco um arranjo federativo que durante o período da sua existência deu uma resposta extremamente positiva", defendeu. 

Na linha oposta, o atual prefeito de Gravataí, Luiz Zaffalon (MDB), reforçou que a Corsan teria muitos problemas. Ele recordou já ter visto problemas em outras estatais e que a privatização viria como uma solução. O emedebista, que presidiu a empresa durante o governo de Yeda Crusius (PSDB), mesmo partido de Leite, alega que as gestões criaram uma cultura de "estou trabalhando até o próximo governo" e, por isso, atualmente, a Corsan encontra dificuldades. Segundo ele, em Gravataí, há bairros que ficam sem água, pelo menos, uma vez por semana, tanto no verão quanto no inverno: "A Corsan como instituição, como empresa, não é viável", concluiu. 

O ex-presidente Flavio Presser, que comandou a empresa durante o governo do ex-governador José Ivo Sartori (MDB), acredita que a Corsan precisa de melhorias, que podem ser feitas tanto através da realização de Parcerias Público-Privadas e na subdelegação de contratos, quanto através da venda de ações. Mesmo assim, concorda que o projeto de privatização apresentado pelo governo carece de informações. "A Corsan tem que melhorar a sua governança interna, resolver seus passivos, atender aos seus contratos e inovar", pontuou. 

Veja Também

E os pequenos municípios? 

Um dos problemas apontados pelo presidente da Famurs e reforçado na carta que foi elaborada ao lado de 301 prefeitos e enviada ao governador, é o temor de que os pequenos municípios acabassem sendo prejudicados, uma vez que o abastecimento de água dessas cidades é feito, em sua maioria, através do programa da Corsan de subsídio cruzado. Além do fato de alguns municípios serem menos atrativos financeiramente aos investimentos do setor privado.

Quanto a isso, Presser defendeu que o processo de regionalização, já determinado pelas novas leis do marco regulatório, resolveria o problema. Para ele, é preciso reunir os prefeitos dos maiores e menores municípios e discutir questões em conjunto. "Iniciativas individuais precisam ser evitadas", reforçou.

A iniciativa também foi defendida pelos outros dois ex-presidentes, mas, para Dutra, a questão ainda precisa ser mais debatida. "O espírito do legislador quando pensou na regionalização não foi de somar esforços, mas de ter escala e, com a escala, tornar mais atrativo  para o setor privado", disse. 

Contudo, Zaffalon argumentou que até os pequenos municípios têm acesso à telefonia, que anteriormente era público e passou para iniciativa privada. Para ele, é possível que os debates sejam feitos e soluções para a Corsan sejam encontradas até o final do ano. "O mundo tem coisas muito melhores por aí para o tratamento de água. Muitos municípios têm alternativas melhores", afirmou. 

"Eu acho que um arranjo privado, nos moldes que está sendo pensado, coloca em risco sim os pequenos municípios. Não há tempo hábil para que essa transição aconteça", discordou Dutra. Durante o debate, Presser ainda voltou a reforçar a importância de maiores esclarecimentos sobre o projeto a ser apresentado pelo governo. "É importante saber como será essa modelagem ", finalizou. 

O atual presidente da empresa, Roberto Barbuti, que participou do debate na semana passada, já se manifestou favorável à privatização. 

*Sob supervisão de Mauren Xavier


publicidade

publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895