Governadores ignoram pedido de Bolsonaro e defendem manutenção do isolamento social

Governadores ignoram pedido de Bolsonaro e defendem manutenção do isolamento social

Médico de formação, governador de Goiás disse que as decisões no estado serão tomadas por eles, "com base no trabalho de técnicos e especialistas"

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Correio do Povo e R7

Governador de Goiás afirmou que ações no Estado serão pautadas por orientações da OMS e do Ministério da Saúde


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Depois de reunião em videoconferência com o presidente Jair Bolsonaro para discutir medida de contenção à epidemia do novo coronavírus, governadores criticaram a postura do chefe do Executivo nacional. Médico de formação, Ronaldo Caiado, de Goiás, um dos principais apoiadores do presidente no DEM, afirmou que irá ignorar o pedido para que escolas sejam reabertas e para que pessoas voltem a trabalhar sem restrições de locomoção. “Com tranquilidade, mas com a autoridade de governador e de médico, eu afirmo que as declarações do presidente não alcançam o estado de Goiás. As decisões em Goiás serão tomadas por mim, com base no trabalho de técnicos e especialistas”, afirmou em coletiva de imprensa.

O governador apontou que acionará até mesmo o Supremo Tribunal Federal e o Congresso se for preciso. "Me é conferido pela Constituição o direito de legislar de forma concorrente com a União quando se trata de saúde pública”, declarou. "O que Bolsonaro disse não se estende ao estado de Goiás. Fui aliado de primeira hora durante todo o tempo, mas não posso admitir que venha agora, um presidente da República, lavar as mãos e responsabilizar outras pessoas pelo colapso econômico e pela falência de empregos que amanhã venham a acontecer", argumentou.

Ele também criticou a postura presidencial. "Dizer que isso é um resfriadinho, uma gripezinha? Ninguém definiu melhor que Obama: na política e na vida, a ignorância não é uma virtude", afirmou, usando frase do ex-presidente dos Estados Unidos de 2016. "Agora também só falo com ele por meio de comunicados oficiais", completou.

Caiado ainda disse que "um estadista tem que ter a coragem de assumir as dificuldades". "Se existem falhas na economia, não tente responsabilizar outras pessoas. Assuma sua parcela”, comentou. O chefe do estado goiano, que é aliado do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e contribuiu para a sua indicação, preferiu não se manifestar como acredita que o titular da pasta deva proceder. “Não cabe a mim opinar sobre a vida de outros líderes políticos”.

Witzel mantém postura moderada

Em entrevista coletiva no Palácio Guanabara, Wilson Witzel disse que discorda do presidente sobre o fim do confinamento, mas apontou avanços na relação entre o poder estadual e federal. "Retomamos o diálogo, isso foi positivo. No momento, peço para que as pessoas fiquem em casa", avaliou. "Não tomamos decisões desarrazoadas. Procuro especialistas quando não conheço do assunto. No momento, não há espaço para abertura para o confinamento. Estamos preservando vidas e no caminho para reduzir a Covid-19. Espero que a conversa continue respeitosa. O tratamento, pelo menos hoje, com relação ao presidente foi respeitosa", disse.

Witzel disse que o pronunciamento de Bolsonaro "não encontra ecos na sociedade" e se negou a responder perguntas sobre a discussão entre Bolsonaro e Doria. "Não vou me manifestar sobre a situação do presidente com o governador de São Paulo. Aqui me preocupo com o estado do Rio de Janeiro", disse, indicando que o momento não é para se discutir política.

Doria e Bolsonaro trocam farpas

Já o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), trocaram acusações, nesta quarta-feira (25), durante a reunião virtual do Planalto com os chefes do executivos de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. No encontro, Doria disparou contra Bolsonaro: "O senhor deveria dar o exemplo, e não dividir a Nação em tempos de pandemia."

Em seguida, o presidente rebateu: "Se você não atrapalhar, o Brasil vai decolar e conseguir sair da crise. Saia do palanque." Bolsonaro também reclamou que Doria teria se apoderado do nome dele nas eleições de 2018 e depois "virou as costas" como fez todo mundo. 

"Guarde essas suas observações para as eleições 2022, quando vossa excelência poderá destilar todo o seu ódio e demagogia por ocasião das mesmas. Nós temos responsabilidade. Depois das eleições 2018, vossa excelência se tornou uma pessoa completamente diferente daquela que esteve comigo. [...] Hoje, subiu à sua cabeça, subiu à sua cabeça a possibilidade de ser presidente da República. Não tem responsabilidade, não tem altura para criticar o governo federal".

Um pouco antes, Doria desejou “serenidade, calma e equilíbrio” a Bolsonaro a fim de que ele possa comandar o país durante a crise provocada pela covid-19 na saúde e na economia. O recado foi dado durante a reunião de governadores com o Planalto para discutir os próximos passos no combate ao novo coronavírus.

"Presidente, como brasileiro e governador, peço que você tenha serenidade, calma e equilíbrio. Mais do que nunca, o senhor precisa comandar e liderar o país e, para isso, o senhor vai precisar de muita calma, equilíbrio e serenidade".

Com os governadores de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo presentes à distância à reunião, Doria lamentou o discurso de Bolsonaro em rede nacional da véspera. O presidente sugeriu que apenas idosos e pessoas do grupo de risco fiquem em isolamento, com os demais de volta ao trabalho. Assim, seria possível evitar um colapso da economia.

O governador paulista classificou a crise atual como a “pior da saúde pública do pais” e pregou o entendimento entre diferentes ideologias, partidarismos e vocações eleitorais.

"Nossa prioridade é salvar vidas, presidente. Estamos preocupados com salvar vidas de brasileiros de nossos estados. Estamos levando também empregos e o mínimo necessário para que a economia possa se manter ativa. Os estados estão conscientes disso. SP manteve estradas, aeroportos, fronteiras abertas. As fábricas estão abertas e funcionando, seguindo as orientações sanitárias, da OMS, para preservar a vida e integridade dos trabalhadores. Todas as medidas são fundamentadas, não precipitadas".