Na CPI da Covid, Queiroga fica isolado e é contrariado até por governistas

Na CPI da Covid, Queiroga fica isolado e é contrariado até por governistas

Ministro da Saúde afirmou que cloroquina não tem eficácia contra a Covid-19

AE e Correio do Povo

Ministro da Saúde afirmou que cloroquina não tem eficácia contra a Covid-19

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O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ficou isolado no início de seu segundo depoimento à CPI da Covid e foi contrariado até por aliados do presidente Jair Bolsonaro. Queiroga afirmou que a cloroquina não tem eficácia comprovada contra a Covid-19 e que não há nenhum infectologista trabalhando na pasta, mesmo 15 meses após o início da pandemia de coronavírus. 

Durante a sessão da CPI, o ministro fez a declaração mais enfática até o momento sobre o chamado tratamento precoce, defendido por Bolsonaro apesar de não haver nenhuma evidência científica da eficácia de medicamentos como a hidroxicloroquina e a ivermectina contra a Covid-19. "Senador, eu já respondi a Vossa Excelência, essas medicações não têm eficácia comprovada. Não têm eficácia comprovada", efantizou ele, ao relator, Renan Calheiros (MDB-AL).

O ministro também falou que a credibilidade do Ministério da Saúde junto a entidades e cientistas está "absolutamente intacta"., no seu entendr "Temos o apoio de entidades e instituições universitárias." Apesar da declaração, Queiroga citou médicos que estão na "linha de frente" e "relatam casos de sucesso com esses tratamentos".

De acordo com Queiroga, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão responsável por analisar protocolos de tratamentos, irá decidir nesta quinta-feira, sobre as recomendações para o tratamento hospitalar da Covid-19. No mês passado, a comissão técnica havia decidido por não recomendar o uso de medicamentos como a cloroquina, sem eficácia comprovada, para o tratamento da doença no Brasil.

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Divergências na base governista

O chamado tratamento precoce é defendido por Bolsonaro e pela tropa de choque do Palácio do Planalto na CPI da Covid. O comentário de Queiroga provocou críticas do senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS), que assumiu uma vaga de titular na comissão após a viagem do senador Ciro Nogueira (PP-PI) ao exterior nesta semana. "Nós vamos apoiar a vacina, sim, mas não podemos desqualificar o tratamento precoce", disse Heinze.

O ministro declarou que não questiona a legitimidade de médicos pró-cloroquina, mas que o protocolo sobre o tratamento precisa ser resolvido no ambiente científico e pacificado "de uma vez por todas". O protocolo sobre a medicação poderá ser concluído em "curto período de tempo" pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS (Conitec), disse Queiroga. Ele se negou, porém, a retirar do site do ministério uma nota que recomenda a administração da cloroquina desde os primeiros sinais da doença.

Outro defensor do governo, Eduardo Girão (Podemos-CE) também criticou o posicionamento contrário ao tratamento precoce. Girão ressaltou, porém, que não concordava com o comportamento de Bolsonaro ao promover aglomerações.

Outra divergência com a base governista foi sobre o quadro de servidores do Ministério da Saúde. "O Ministério da Saúde, ao longo do tempo, tem perdido quadros. Nós não temos, no Ministério da Saúde, médicos infectologistas. Temos a doutora Carolina, que é médica infectologista, mas ela é servidora da CGU. Ela não está ali na função de médica infectologista. O que nós temos são médicos consultores, que nos apoiam", disse o chefe da pasta.

Aliados de Bolsonaro, Heinze e Marcos Rogério (DEM-RR) afirmaram que a pasta teria, sim, infectologistas. "O Ministério da Saúde tem, pelo menos, sete infectologistas", disse Rogério, sendo retrucado pelo relator em seguida. "Então, o ministro está mentindo? Respeita o ministro, rapaz", afirmou Renan a Marcos Rogério.

Para o senador Humberto Costa (PT-PE), a situação de Queiroga mostra que ele pode estar prestes a deixar o Ministério da Saúde. "Eu até vejo que aqui, quando vêm algumas pessoas, vem gente de todo canto para defender, não é verdade? Até o senador Flávio Bolsonaro vem aqui. Hoje, cadê o Ciro Nogueira? Cadê os outros? Vossa Excelência está só aí. Está abandonado aqui", disse o petista. Apesar de ter a autonomia questionada, Queiroga reforçou que Bolsonaro está "preocupado" com questões sanitárias e "apoia" as ações do ministério, especialmente a vacinação.

"Ainda estamos na segunda onda"

O ministro da Saúde afirmou que "até o momento, não está caracterizada a terceira onda" de contaminações pela Covid-19 no País. "Estamos ainda nessa segunda onda com um platô elevado de casos e a minha esperança para conter isso é a vacina", disse o ministro à CPI da Covid no Senado nesta terça-feira.

Sobre o contenção do avanço da doença no Brasil, o ministro afirmou que a cada duas semanas há uma reunião do gabinete de crise da qual participa o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). "Com o presidente (Jair Bolsonaro) despacho sempre com ele, pelo menos uma vez por semana estou com o presidente especificamente para tratar sobre saúde", completou.

Defesa da eficácia dos protocolos da Copa América

Marcelo Queiroga voltou a dizer que a realização da Copa América no Brasil não foi decidida por ele ou pelo Ministério da Saúde. Em depoimento à CPI, o ministro afirmou, entretanto, que avalia como seguros e eficazes os protocolos para a realização da competição esportiva. O assunto gerou um bate-boca entre os senadores que compararam a Copa América com os demais campeonatos de futebol, e de outros esportes, permitidos no país.

Ao ser questionado sobre os envolvidos no evento, Queiroga disse que não considera exposição em massa a realização da Copa América. Contudo, chegou a sugerir que campeonato ocorra sem a imprensa, para reduzir o número de pessoas expostas. 

Na segunda-feira, o Ministério da Saúde apresentou os protocolos para a realização do evento, entre os quais se inclui a testagem das equipes a cada dois dias para a detecção eventual do novo coronavírus.

Aposta na vacina nacional

Marcelo Queiroga voltou a defender o uso de vacinas desenvolvidas e produzidas em território nacional como a saída de longo prazo para a crise sanitária causada pelo novo coronavírus. À CPI da Covid no Senado, Queiroga destacou nesta terça-feira que o Brasil "deve apostar no futuro em vacina nacional".

Durante sua fala à CPI, ele afirmou que já existem conversas pelo ministério para a compra de vacinas para nova rodada de imunização. "Minha opinião pessoal é de que precisaremos (de vacinação regular)", defendeu.

Prazo exíguo para aplicar vacinas da Janssen

O Brasil deve receber na semana que vem uma remessa de 3 milhões de doses da vacina americana Janssen, de aplicação única. No entanto, o imuzante importado tem curto prazo de validade. "Vacina da Janssen tem um prazo mais curto. Isso foi compactuado com o PNI, Conass e Conasems, e entendemos que temos que fazer uma estratégia para aplicar esses 3 milhões de doses em um prazo muito rápido para não correr o risco de perder as vacinas.

Com vencimento do lote em 27 de junho, o Brasil teria pouco menos de 15 dias para distribuir e aplicar o montante. De acordo com o ministro, a data exata para o recebimento depende do FDA, agência reguladora americana. "Pode ser que quando o FDA der o posicionamento, essas 3 milhões de doses já não sejam mais úteis pra gente", completou. 


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