"O pior de tudo é vacina parada", afirma estatística que integra grupo de Dados do RS

"O pior de tudo é vacina parada", afirma estatística que integra grupo de Dados do RS

Professora Suzi Camey diz que vacinação por idade é benéfica, mas alerta que números ainda estão longe de garantir segurança

Flavia Bemfica

Suzi Camey é professora do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da Ufrgs

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Com o desenvolvimento de métodos estatísticos em Epidemiologia como uma de suas principais áreas de atuação, a estatística e matemática Suzi Camey, professora do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da Ufrgs, é uma das especialistas que empenham seu conhecimento no estudo da propagação do coronavírus no RS. O trabalho reconhecido em áreas essenciais para a compreensão do avanço da doença fez com que fosse convidada a integrar, desde o início da pandemia, como representante externa, o Comitê de Análise de Dados estadual. Nesta semana, o Correio do Povo ouviu a professora sobre o início da vacinação por faixa etária nas cidades gaúchas e outras medidas. Confira, abaixo, os principais trechos.

Correio do Povo: Em termos epidemiológicos, o início da vacinação por idade no RS impacta na queda dos números da pandemia?

Suzi Camey: Do ponto de vista dos dados, infelizmente temos tão pouca gente vacinada que, por enquanto, o impacto tende a ser pequeno. É verdade que cada vez mais entendemos que um dos principais fatores de risco é a idade, é a população mais vulnerável. Então, falando por faixas, acima de 70 anos, como já temos um volume muito grande de vacinados, é a população que está mais protegida, e aí não vai aumentar a hospitalização. Mas, no RS, estamos com 13,7% da população vacinada. É muito pouco. Pode ajudar a evitar os casos mais graves, para a parte vacinada. Mas ainda não evita que a propagação aumente. E a propagação vai aumentar entre os não vacinados, que têm sempre o risco de internar. Resumindo, nós devemos comemorar cada dose aplicada, mas temos sempre que reforçar que, neste momento, vacinados e não vacinados devem manter os mesmos cuidados. No planejamento dos calendários, também é importante ter em conta que, quanto mais se avança no sentido de ampliar as faixas etárias, mais rápido os lotes terminam, porque o número de pessoas aumenta. No RS, a soma de toda a população de 70 anos ou mais não chega a um milhão. Mas somente a população dos 50 aos 59 anos já é de quase 1,5 milhão de habitantes. Então, a possibilidade de não haver vacina de uma só vez para uma determinada faixa etária inteira, ela é uma constante.

CP: O recado é que as pessoas tenham esperança, mas também o entendimento de que a vacinação para todos ainda está um pouco distante?

SC: O recado é que a retomada da imunização por faixa etária é benéfica, no sentido de a vacina não ficar parada. O pior de tudo é ter vacina e ela não estar sendo aplicada. A ressalva é de que abrir etapas para faixas muito amplas de uma só vez é arriscado porque, por enquanto, não há vacina para todo mundo. A vacinação por idade também indica que as prefeituras estão encontrando o caminho para fazer o equilíbrio, avançando na faixa etária sem deixar a descoberto outros grupos. Mas, devido ao nosso histórico até aqui, precisamos manter na conta o risco de faltarem doses. O planejamento do Ministério da Saúde não vai além de duas semanas. Por fim, é importante entender que estamos há um ano e meio nesta situação, e os estudos vão avançando. Por exemplo: apesar de toda a discussão em defesa da imunização dos profissionais da Educação, existem já estudos mostrando que são uma das categorias profissionais com menor risco de contágio. Então, o fato de eles estarem protegidos não resulta em um impacto tão grande. Há diversas outras categorias profissionais à frente da Educação em termos de risco, se o critério for este. A verdade é que toda a discussão infelizmente acontece porque não temos vacina para todos. Não deveríamos estar presos a ela. Até porque, quando vacinamos só alguns grupos, esses grupos, sentindo-se protegidos, começam a circular. Uma parcela pode se contaminar. Contaminada, pode não desenvolver os sintomas mais graves, mas continua transmitindo. Se os vacinados não continuarem a manter todos os cuidados dos não vacinados, se transformam em mais uma possibilidade de transmissão.

CP: Pessoas vacinadas com duas doses precisam seguir usando máscaras?

SC: Para nós, foi muito ruim o anúncio do CDC (o Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos, de que pessoas vacinadas com as duas doses poderiam sair sem máscara. Lá, esta ação foi tomada para combater as campanhas antivacina, que são infinitamente maiores do que no Brasil. Aqui, é desprezível o número de pessoas que não quer se vacinar. Se apenas elas não se vacinarem, mesmo assim conseguiremos vencer a pandemia. O anúncio do CDC se transformou em um problema aqui porque parte das pessoas entendeu que poderia seguir os mesmos critérios, e isto não é possível. Estamos com realidades completamente diferentes. Lá, existe muita gente vacinada. Mesmo. Aqui, ainda não. Por enquanto, não podemos relaxar.

CP: A situação de Porto Alegre que, ao contrário da maior parte das regiões do Estado, pelo menos até o momento tem conseguido conter a explosão de casos e internações, se deve ao percentual maior de vacinados?

SC: Porto Alegre está conseguindo segurar os números, mas ainda não há como atribuir isto a uma causa específica. Será ótimo se isto já for efeito da vacinação, mas acredito que se deva a uma combinação de fatores. Além da vacinação, percebemos na cidade que a utilização de máscaras não caiu, as pessoas usam. Também aumentou o uso de máscaras mais seguras, que conferem maior grau de proteção. E observamos que as escolas possuem mesmo protocolos e eles estão sendo seguidos. Costumo dizer que se não pudéssemos contar com as escolas para ensinar como as pessoas devem agir em relação a pandemia, aí íamos ‘jogar a toalha’. Em resumo, esta combinação de fatores é importante. Como dizemos há algum tempo, enfrentar a pandemia é um exercício para a sociedade como um todo.  

CP: Dos 11,4 milhões de habitantes do RS, aproximadamente 3,3 milhões têm entre zero e 19 anos de idade. Em Porto Alegre, dos quase 1,5 milhão de habitantes, cerca de 400 mil têm de zero a 18 anos. Está na hora de começarmos a debater a vacinação da população menor de 18 anos?

SC: Entendo que este passo vai ser dado de forma natural. Já há resultados de imunizantes que dão segurança para a aplicação na faixa etária acima dos 12 anos. Conforme os números, a faixa de corte dos 18 anos é praticamente equivalente à da imunização necessária para garantir segurança coletiva. Como é de fato um contingente populacional grande, e precisamos pensar os cenários que mostram que o vírus veio para ficar, que ele não vai desaparecer, é importante que consigamos ampliar cada vez mais as faixas etárias. Acredito que quando concluirmos a imunização de pessoas de 18 anos já teremos inclusive mais resultados atestando a segurança para as faixas etárias menores.

CP: Isso acontece neste ano?

SC: Difícil responder, porque a vacinação vinha em um ritmo muito bom, aí de repente houve uma queda, retomou... ainda dependemos de insumos importados da China, e ficamos na expectativa, a cada semana, sobre se algum integrante do governo vai cometer uma gafe que acabe tendo impacto sobre a chegada desses insumos. Se mantivéssemos o ritmo no qual começamos, ou se conseguirmos retomá-lo, este avanço ocorreria este ano.


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