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Debate Correio Rural avalia gargalo logístico para as safras recordes do RS

Modal rodoviário com restrições e situação do Porto de Rio Grande atrapalha setor

Por
Danton Junior

Especialistas do setor sugeriram soluções para escoamento

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Enquanto colhe a segunda maior safra de grãos da história, o Rio Grande do Sul depara-se com um problema que insiste em aparecer: o gargalo logístico para o escoamento da produção. O problema da logística pautou o segundo debate do ciclo Correio Rural, promovido pelo Correio do Povo durante a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque. Especialistas no tema discutiram o impacto que a dependência do modal rodoviário, o alto custo e as más condições das estradas têm na produção agropecuária, e apontaram alternativas ao problema. Segundo a Emater, o desempenho das lavouras gaúchas deve alcançar 31,9 milhões de toneladas.

O ano de 2019 começou atípico em termos de movimentação de grãos, com um volume de embarques abaixo do esperado no Porto de Rio Grande. Ainda assim, o gargalo logístico permanece. Segundo o presidente da CCGL, Caio Vianna, o desempenho deve-se à queda dos embarques para a China, país que aguarda o desenlace da negociação com os Estados Unidos. No entanto, ressaltou a necessidade de investimentos na modernização do Porto de Rio Grande, de modo a ampliar a capacidade da cada vez maior produção gaúcha de grãos. A alternativa, conforme o dirigente, é que o Estado regulamente investimentos privados ou público-privados, uma vez que o governo tem dificuldades em atender até mesmo as demandas básicas da população. O complexo soja responde pela maior parte dos embarques em Rio Grande, mas o gargalo logístico afeta também outros grãos com potencial para exportação. "O arroz gaúcho tem um conceito de melhor arroz em termos de qualidades culinárias e nos falta possibilidade de dar ao produto a continuidade de 12 meses de expedição", ressaltou Vianna. 

O problema logístico normalmente é associado às más condições das estradas ou à dependência do modal rodoviário. Mas há outros fatores envolvidos. O professor Fábio Roberto Barão, da Faculdade de Administração da Universidade de Passo Fundo (UPF), citou a capacidade de armazenagem e a velocidade com que as cargas são transportadas. "Normalmente há uma fila de navios no porto esperando para carregar. Se o porto tivesse capacidade de armazenamento maior, não haveria as filas de caminhões. Esta questão tem que ser revista desde a sua própria base", observou. Isso não significa, conforme o especialista, que a dependência do modal rodoviário não deva ser repensada. "Melhorar a estrutura de armazenagem, a rapidez e a distribuição nos portos também é muito importante neste sentido", resumiu. 

Para o agrônomo Maurício Pasini, que integra a Câmara Setorial de Agronomia do Crea/RS, o problema logístico demonstra a ineficiência do sistema, que pode ser mensurado em aspectos como os danos que a chuva causa às estradas e aos problemas para o escoamento da safra no porto. "Desde o grão colhido na lavoura, há uma série de situações em que temos perdas e isso impacta em rentabilidade para o produtor rural", observou. Isso passa pela baixa capacidade de armazenagem, o que leva muitas vezes a perdas por umidade, por exemplo. Pasini ressaltou que, por um lado, produtores estão obtendo cada vez mais produtividades expressivas na lavoura, com até 90 sacas por hectare no caso da soja, mas que a capacidade de armazenagem e de escoamento não acompanha o mesmo incremento. 

A dependência do modal rodoviário, que não acompanhou o crescimento da produção - tanto agrícola quanto industrial -, deu-se em detrimento das malhas ferroviária e hidroviária. O diretor vice-presidente da Farsul, Fábio Avancini Rodrigues, destacou que isso ocorre apesar de o Rio Grande do Sul contar com condições privilegiadas. "Nenhum outro estado tem uma hidrovia que leva ao porto", destacou. O posicionamento do terminal, por exemplo, permite ao Rio Grande do Sul escoar cargas mais rapidamente em direção ao mercado asiático. "Isso nos preocupa muito porque afeta a rentabilidade do nosso produtor e a geração de renda também passa pela questão logística", observou. O dirigente comparou a situação a um corpo humano, que pode apresentar um colapso em caso de obstrução do sistema circulatório. "Estamos praticamente nesta posição. Se não tivermos um bom cirurgão vascular, esse sistema vai entrar em colapso", resumiu. Frente à escassez de recursos públicos, Rodrigues destacou a necessidade de deixar bem claro os modelos de particoipação da iniciativa privada, através de parcerias, delegações ou concessões, dos sistemas viários.