Irrigação ainda está longe do ideal no Rio Grande do Sul

Irrigação ainda está longe do ideal no Rio Grande do Sul

Em meio à estiagem, ciclo de Debates Correio do Povo Rural discutiu possibilidades para melhorar o desempenho das safras

Henrique Massaro

Debatedores concordaram que é impossível contemplar 100%, mas que é preciso aumentar o atual percentual de lavouras irrigadas no Rio Grande do Sul

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A estiagem que castiga as plantações neste começo de ano leva, inevitavelmente, à discussão da importância e da necessidade de um maior uso de sistemas de irrigação. Exemplos de adoção da prática podem ser vistos na pastagem de animais e no uso de pivôs em lavouras. Apesar disso, somente 6% da área total do Rio Grande do Sul é irrigada, isso contabilizando a cultura do arroz. Nas culturas de sequeiro, como soja e milho, a irrigação é de apenas 1,8%.

Diante deste cenário, surge a dúvida: chegará o dia em que o Estado terá todas as suas lavouras irrigadas? A questão foi o tema que permeou o primeiro encontro do ciclo de debates Correio do Povo Rural, realizado na terça-feira na Casa do Correio do Povo/Grupo Record RS na 21ª Expodireto Cotrijal. Entre os assuntos debatidos estavam as possibilidades, desafios e entraves para uma maior adesão à prática por parte dos produtores rurais, como licenciamento, liberação de crédito e disponibilidade de energia.

Na produção de milho, foi nítida a diferença entre as lavouras irrigadas e não irrigadas durante a estiagem. Na visão do presidente da Associação dos Produtores de Milho do Rio Grande do Sul (Apromilho), Ricardo Meneghetti, a irrigação não deveria ser só para salvar a cultura em um momento de dificuldade como esse, mas para conseguir manter uma média de produtividade. De acordo com ele, o Estado tem um déficit anual de 1 milhão de toneladas de milho e, com o período de poucas chuvas, essa deficiência deve ser de 2,5 milhões de toneladas. “Hoje se justifica mais do que nunca a irrigação do milho”, afirmou, acrescentando que a adesão também beneficiaria outras culturas. Ele disse que, apesar de ser o ideal, é impossível se alcançar 100% das culturas irrigadas, mas que, com as técnicas utilizadas hoje, é viável, em algum momento, se chegar a um Estado autossuficiente na produção. “A irrigação vai fazer com que tenhamos condições de ter essa autossuficiência e, por que não, a exportação do grão.”

O presidente da Apromilho citou como importante para a cultura o Programa Estadual de Produção e Qualidade do Milho (Pró-Milho/RS), lançado em fevereiro e divulgado na programação da Expodireto, que tem entre seus objetivos auxiliar os produtores a ter mais condições de irrigar sua área.

Durante o debate promovido pelo Correio do Povo, o diretor do Departamento de Políticas Agrícolas e de Desenvolvimento Rural da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), Ivan Bonetti, explicou que a iniciativa contempla diversas ações e, entre as principais, está a irrigação. Conforme ele, o programa é uma das formas para reverter as limitações da ampliação da área irrigada no Estado. “Nunca vamos ter uma área 100% coberta com irrigação, porque temos questões como licenciamento ambiental, mas se chegarmos a 50% já será um fato excepcional”, avaliou, comentando que este percentual pode ser factível.

O economista-chefe do sistema Farsul, Antônio da Luz, afirmou que a entidade acredita na tecnologia e considera ideal se ter o máximo possível de áreas irrigadas. Porém, existem diversas barreiras para que isso aconteça. Entre elas, ele destacou as limitações fundiárias do Estado, que, com propriedades, em média, pequenas na comparação com outras regiões do Brasil e do mundo, acaba tendo pouca disponibilidade de água. Há, ainda, questões como licenciamento ambiental, disponibilidade de energia elétrica, liberação de crédito rural e outras condições financeiras. Mas, apesar dos entraves, garantiu que é possível aumentar consideravelmente a atual área irrigada. “Temos uma série de barreiras. Agora, sim, podemos muito mais que esse 1,8% da área de sequeiro. Podemos avançar mais. É isso que temos que perseguir.”

Para o gerente comercial da Fockink, André Santin, são necessárias mais liberações de licenças para o uso de água. De acordo com ele, cada vez há mais tecnologias disponíveis baseadas na economia de energia e de recursos hídricos, que auxiliam os agricultores a irrigar corretamente, mas as linhas de crédito para acessá-las estão escassas. No período de um ano do Plano Safra, por exemplo, a verba está acabando em seis meses. “Existe muita procura. O agricultor quer investir, quer irrigar. Os juros estão muito altos, mas estamos lutando com as forças que temos junto ao governo do Estado e federal, tentando ampliar essa linha de crédito”, ressaltou. 

 

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