Preço e clima no radar

Preço e clima no radar

Área de soja deve ser ampliada no RS, apesar da falta de chuvas

Felipe Dorneles

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A safra 2020/2021 de soja, que começou a ser semeada no Rio Grande do Sul, traz um sentimento duplo aos produtores rurais. Ao mesmo tempo em que o grão registra uma valorização histórica, chegando a estar cotado acima de R$ 170,00 a saca, há a insegurança provocada pelo fenômeno climático La Niña, acentuada pela quebra da última safra em razão da estiagem. O preço da oleaginosa fez com que os produtores ampliassem a área para o próximo ciclo, mas em algumas regiões produtoras já há registros de falta de chuvas.

No Rio Grande do Sul, o aumento da área plantada é previsto em 1,5%. Segundo a Emater, a lavoura gaúcha de soja deve saltar de 5,9 milhões de hectares para 6,07 milhões de hectares. A estimativa de produção é de quase 19 milhões de toneladas. Na safra passada, a produção ficou em 10,6 milhões de toneladas, uma queda de 45,8% em relação ao ciclo anterior. Até o momento, apenas 35% das lavouras estão com semente, em fase de germinação e desenvolvimento vegetativo. Mas o volume de precipitação pode impactar no período de plantio, que vai de outubro a janeiro.

“O inverno terminou seco, não tem água armazenada no solo. É preciso muita chuva para compensar. Já tem locais onde a planta não está germinando bem. Por isso temos muita área não plantada no Estado”, alerta o vice-diretor-presidente da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja/RS), Luís Fernando Fucks. Com o solo seco, após a chuva, o produtor tem no máximo três dias para plantar, segundo o dirigente. A falta de chuva fez com que o produtor reduzisse o ritmo de entrada na lavoura, optando pelo escalonamento. “São poucas chuvas, e muito irregulares. O agricultor que tem sorte de registrar chuva em sua lavoura, faz o plantio”, descreve.

Uma das principais preocupações está no endividamento do produtor de soja, que já amargou prejuízos na última safra. “O endividamento passará a ser de duas safras”, calcula Fucks. Segundo ele, a alta no preço da soja não refletiu no bolso do produtor, já que a maioria não tinha o grão para vender, e o que tinha já estava contratado, com preços menores do que os atuais. “O governo deveria ter agido mais rápido, com linhas de crédito para negociação de débitos. Foi tarde e não foi suficiente”, acredita. Dê olho no mercado internacional, a Aprosoja/RS percebe a redução da produção americana, o que também deverá ocorrer no Brasil, gerando o risco de desabastecimento. “Prevemos uma redução do estoque mundial e uma grande busca pelo produto no momento da colheita, quando não deveremos ter produto novamente”, projeta Fucks. Com isso, a população poderá ser afetada com o aumento do preço de produtos como a carne, por exemplo.

O diretor técnico da Emater, Alencar Rugeri, entende que o fato de termos pela frente um ano de La Niña deveria ser uma questão secundária. O que deve ser levado em consideração, na avaliação dele, são as condições de umidade do solo e o controle das plantas daninhas no momento do plantio. “O produtor precisa utilizar todas as estratégias e usar a melhor tecnologia”, explica. Na questão do clima, por exemplo, a principal solução apontada por ele é a irrigação. “O produtor precisa lançar mão da melhor cultivar e analisar o cenário para tomar a decisão correta. De acordo com o cenário que se vive no momento, não no futuro”, ressalta.

Rugeri lembra que a maior safra da história, no ciclo 2016/2017, ocorreu em período de La Niña. Segundo ele, é um fenômeno que ocorre de forma sistemática. “Há um potencial facilitado de dispor de dinheiro com os produtos agrícolas, isto traz uma confiança para definir área plantada e tecnologia, apesar de ser vulnerável”, observa. Ele lembra que entre 1979 a 1994 o agricultor “puxou o freio”, mas depois disso, o desempenho nas lavouras cresce ano após ano. O diretor técnico da Emater avalia ainda que muitos produtores têm obtido um desempenho muito bom nas lavouras. Por outro lado, alerta que, com o aumento da área, aumenta também o risco. “Onde há mais remuneração é mais fácil o endividamento”, adverte. 

 

La Niña exige cautela

Luiz Antônio Mattioni, esposa Marinete e filhos Bruno e Marcelo. Foto: Márcio Ortiz/Divulgação

As incertezas geradas pelo fenômeno La Niña têm aumentado a cautela, principalmente, nas primeiras fases da safra de soja. A família Mattioni, da Fazenda Coqueiros, de São Luiz Gonzaga, na região das Missões, já iniciou o plantio, e planeja estender a entrada na lavoura até o mês de dezembro.

Luiz Antônio Mattioni, o patriarca, conta que 800 hectares foram destinados para a cultura, mesma área da safra anterior. Destes, 600 hectares receberão exclusivamente soja, e os outros 200 hectares serão intercalados com milho safrinha. A área de soja é toda segurada, no Banco do Brasil. A contratação de seguro para a área de milho ainda é uma decisão a ser tomada. Metade da área de milho é irrigada com pivô.

O que está impactando para o cenário de incerteza é o fenômeno La Niña. “Não temos segurança de como será a safra”, lamenta a produtor. Por isso, optou por intercalar o plantio. No final do mês de outubro, plantou 100 hectares. A decisão ocorreu logo após uma chuva de 60 milímetros. A esperança é de uma nova precipitação para ajudar na germinação. Ele pretende entrar mais uma vez na lavoura ainda neste mês, e assim seguirá até o mês de dezembro. As decisões ocorrerão de acordo com o andamento da safra e o clima.

“Precisamos ter a segurança de que a soja vai nascer. É uma precaução para, caso não chova, minimizarmos os danos”, relata o produtor. Mattioni avalia que esta é uma safra diferente, e que precisa de estratégia. Ele revela que a meta é fazer bem feito, por isso, não vai economizar em tecnologia. Os maiores investimentos foram destinados para adubação e fungicidas. “Não vamos nos encolher, se mudar o clima podemos nos arrepender. Quem está na lavoura deve fazer bem feito”, observa.

Não há expectativas quanto à produtividade, pois, segundo Mattioni, o cenário é muito incerto, neste ano. Porém, se colher 40 sacos por hectare, paga o custo e tem uma boa remuneração, devido ao bom preço do grão atualmente. Na safra 2019/2020 colheu, na média, 50 sacas por hectares, devido à falta de chuva no final do ciclo. Mas, nas lavouras da fazenda, já chegou a 70 sacas por hectare.

Apenas 20% da produção é comercializada a partir de contrato, que geralmente ocorre através da troca por adubo e outros insumos. “Não temos como competir com grandes tradings do mercado”, alega. Ele cita ainda a surpresa com relação ao que ocorreu neste ano. “Nunca aconteceu uma alta como esta, não sabemos como lidar. Quem fez contrato, saiu perdendo”, observa. Sobre a polêmica do uso do Paraquate, ele entende que é preciso conhecimento e técnica para a aplicação. O produtor possui estoque e pretende usar de forma consciente, respeitando os vizinhos.

 

No aguardo da próxima chuva

Alisson (de casaco) e Edmir. Foto: Ângela Welter / Divulgação

O alto preço da saca de soja não é o suficiente para trazer tranquilidade para os produtores gaúchos. Foi um incentivo para o aumento de área nas lavouras da família Padoin, no interior de Santo Ângelo, mas a La Niña traz medo e incertezas para a produção.

Alisson Padoin, que realiza a gestão da propriedade com a esposa e os pais, conta que ainda não iniciaram o plantio, pois as últimas previsões de chuva não têm se confirmado. “Estamos um pouco sem rumo. Se iniciarmos o plantio agora e não chover, corremos o risco de a semente não germinar, e dar a largada à safra com prejuízos”. Ele lembra que, na teoria, 50% do sucesso da safra é definido no momento do plantio.

A família destinou 82 hectares, em Rincão dos Meotti e Rincão dos Mendes, para a cultura da soja, seis hectares a mais que na safra anterior. Desta área, 80% é financiada e segurada. Alisson exemplifica que se em um hectare ele ganha R$ 1, com seis a mais ele ganhará mais R$ 6. “Ganhamos no volume”. Nesta área, a expectativa de produtividade é entre 60 e 70 sacas por hectare. Na safra anterior, a média ficou em 25 sacas/ha.

O produtor diz que, apesar do medo da La Niña, a expectativa de rentabilidade é positiva. “O preço dos insumos subiu, mas o preço do grão subiu ainda mais, dobrou, baixando o custo de produção”. Ele revela que o custo pode cair de 22 sacas por hectare para 10 sacas por hectare.

Neste ano, o investimento em tecnologia será feito no manejo. “Vamos realizar o plantio devagar, regulando a plantadeira e analisando a distribuição de sementes na lavoira”. Ele defende o uso do Paraquat, e vai usar na safra, pois tem em estoque. Vai usar para uma aplicação. “É um produto barato e eficiente, se fosse liberado, seguiria usando”. Ele acredita que os efeitos do 24D, que é liberado, são iguais aos do Paraquat, porém, não é visível. Mesmo assim vai comprar um genérico complementar o Paraquat que tem em estoque.

Alisson e o pai, Edmir Padoin, também cultivam trigo, milho e aveia, e estão evoluindo em termos de manejo das lavouras, aumentando o nível de produtividade. Fazem gestão da propriedade e participaram do programa de solos da Emater.

 

Paraquate sai de cena

A safra de 2020/2021 da soja no Rio Grande do Sul deverá ser última semeada com o uso do herbicida Paraquate. O princípio ativo teve sua fabricação, comercialização e uso proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a partir de 22 de setembro. Contudo, uma resolução posterior da diretoria colegiada da própria autarquia, anunciada no início de outubro, autorizou os sojicultores a usarem o produto que tivessem em estoque na propriedade, de forma escalonada, por região e plantio, até o dia 31 de agosto de 2021. A autorização amenizou as reclamações de quem já tinha adquirido o defensivo, mas o banimento do Paraquate a longo prazo é considerado um retrocesso pelos produtores.

A Associação Brasileira de Produtores de Soja (Aprosoja/Brasil) afirma que o setor pode acumular um prejuízo de até R$ 500 milhões ao ano com a proibição do defensivo, tido como a opção mais eficiente e barata para o combate de plantas daninhas de difícil controle. A alternativa ao Paraquate é a composição de dois ou três produtos diferentes, o que, segundo os agricultores, pode aumentar o custo com agroquímicos entre 30 e 150%.

O chefe da Divisão de Insumos Agropecuários da Secretaria da Agricultura (Disa), Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr), Rafael Lima, explica que o Estado já fiscalizava o uso do Paraquate, pois o produto só pode ser aplicado com tratores de cabine fechada, sem exposição do sem exposição ao aplicador. “Se o produtor não tivesse este trator, era passível de fiscalização”, observa.

Lima afirma que o sistema de monitoramento de agrotóxicos da secretaria permite controlar todos os produtos comercializados, cruzando com os dados do produtor e o receituário agronômico. O chefe do Disa acrescenta ainda que a discussão sobre o uso do Paraquate se iniciou em 2017, portanto, levando três anos de análises toxicológicas para chegar a uma conclusão.

Apontado como perigoso em razão de riscos à saúde, como mutagenicidade e doenças neurológicas degenerativas, o defensivo é reconhecido como eficiente pelo diretor técnico da Emater/RS, Alencar Rugeri, o qual ressalva, entretanto, que, se puder ser evitado, é melhor. “Se o produto tem alto risco para a saúde, porque vou usar este se tenho outras possibilidades”, complementa Rugeri.

A Anvisa estabeleceu a data limite do uso do Paraquate por culturas e por regiões para a aplicação do herbicida pelos produtores. Na região Sul, além da maçã, cujo prazo se encerrou no último dia 31 de outubro, o Paraquate deve ser usado até 31 de março de 2021 nas áreas com citrus e feijão, 31 de maio nas lavouras de soja e 31 de agosto para a cultura do trigo.

 

Preço da saca contrasta com quebra na produção

Ao mesmo tempo em que observam uma valorização histórica da soja, os produtores lamentam terem acumulado perdas em função da estiagem que atingiu o Rio Grande do Sul no início do ano. O preço da saca de 60kg chegou a ultrapassar os R$ 170,00 recentemente, mas muitos produtores não contam com o grão para comercializar devido à quebra de 45,8% na safra gaúcha provocada pela escassez de chuvas. Há um ano, o preço estava em cerca de R$ 80,00. “É a primeira vez na história que a soja, em menos de cinco meses, dobrou de preço. Era tudo o que o produtor precisava para receber se tivéssemos em uma safra normal”, afirma o vice-presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Elmar Konrad.

O cenário da próxima safra, segundo o dirigente, depende da chuva. Em caso de mais uma quebra, ele entende que a alternativa será técnica e política, apesar de achar cedo para discutir questões como a prorrogação de dívidas.

Tendo em vista a instabilidade climática, Konrad avalia que a saída é ampliar a área irrigada. Ele afirma que esta é uma das bandeiras da Farsul, junto da melhoria do seguro agrícola, que não deve ser só de custo, mas de venda também. Porém, afirma que há obstáculos ao aumento da irrigação no Rio Grande do Sul.

“Esbarramos nos problemas burocráticos e na infraestrutura energética do Estado”, lamenta. Segundo o dirigente, a legislação não permite a abertura de açudes em área de preservação permanente, próximo dos rios e mata. Entende ainda que a distribuição e geração de energia está defasada e precisa evoluir. “Não tem como se basear no diesel para abastecer o sistema de irrigação, se torna muito caro, já que é baseado no preço do petróleo”, observa. 


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