Retirada do imposto de importação sobre soja e milho repercute entre entidades

Retirada do imposto de importação sobre soja e milho repercute entre entidades

Para a Asgav, a medida viabiliza a continuidade da produção de carnes. Farsul acredita que efeito pode ser limitado, já que há escassez dos grãos no mundo todo

Cíntia Marchi

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Depois de retirar em setembro o imposto de importação do arroz, o governo federal decidiu zerar temporariamente a tarifa para a soja e o milho comprados fora do âmbito do Mercosul. A decisão foi tomada na sexta-feira pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), a pedido dos ministérios da Agricultura (sobre a soja) e da Economia (sobre o milho). Não houve definição de cotas. A suspensão da alíquota valerá até 15 de janeiro para a soja (grão, farelo e óleo) e até 31 de março de 2021 para o milho.

Segundo o Mapa, o estabelecimento destas datas não atrapalhará a comercialização destes grãos na próxima safra. O diretor de Comercialização e Abastecimento do ministério, Sílvio Farnese, afirma que não há expectativa de falta dos produtos e que o objetivo da medida é promover um ajuste entre a oferta e demanda no período pré-colheita. Apesar de safras recordes no país, a demanda interna e externa por milho e soja reduziu drasticamente os estoques destes grãos.

No caso da soja, de janeiro a setembro deste ano, o Brasil exportou 79,1 milhões de toneladas, 30% a mais do que no mesmo período de 2019, puxada pela valorização do dólar. A escassez do produto no mercado doméstico e os preços em disparada – o saco chegou a R$ 159,44 na sexta-feira, segundo o indicador Esalq/BM&FBovespa – têm inclusive acelerado as importações da oleaginosa nos últimos meses. As indústrias esmagadoras do Paraná já importaram 528,2 mil toneladas do Paraguai, 326% a mais do que no mesmo período do ano passado.

O economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Antônio da Luz, acredita que o efeito da retirada da tarifa será limitado, ao observar que há escassez dos grãos no mundo todo. Lembra que as últimas colheitas de soja e milho dos Estados Unidos foram prejudicadas pelo excesso de chuva no plantio e aquele país chegou a colher 24 milhões de toneladas a menos de soja no último ciclo. Para Da Luz, o governo poderia aproveitar o momento para “discutir a falta de liberdade dos produtores em comprar insumos onde quiserem”.

O presidente executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos, explica que o setor aguardava esta decisão que “veio em boa hora e que viabiliza a continuidade da produção de todas as proteínas, em larga escala”. Ao afirmar que a avicultura não é contra a exportação de grãos, enfatiza que iniciativa tomada pelo governo preserva, “num momento crítico”, a indústria que atua no mercado interno e que é “fiel” cliente do setor de grãos. Segundo Santos, o segmento de aves vem verificando a disponibilidade de grãos e preços em outros países, como os Estados Unidos. Segundo ele, sem a tarifa de importação e dependendo da origem e das negociações, o milho e o farelo de soja podem chegar a preços ligeiramente menores ao Brasil.

O presidente da Associação dos Produtores de Milho (Apromilho/RS), Ricardo Meneghetti, diz que a retirada da tarifa nunca é uma medida agradável, mas que, diante dos problemas no fornecimento do grão, entende que a decisão é “necessária e protege as indústrias”. Meneghetti lembrou que o RS começa a se preocupar novamente com uma possível seca e os impactos na disponibilidade interna de milho em 2021. “Diante disso, é interessante que se busque alternativa para as indústrias que precisam se manter ativas”.

 


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