Saúde

Recorde de 17 mortes por dengue em Porto Alegre preocupa especialistas

Óbitos foram, em grande parte, de pessoas idosas, e todas apresentaram comorbidades; manejo clínico e a busca precoce por serviço de saúde é fator importante para a gravidade da doença

Agentes de combate à endemias visitam residências no bairro Morro Santana
Agentes de combate à endemias visitam residências no bairro Morro Santana Foto : Camila Cunha

Apesar da taxa de incidência de casos estar diminuindo, o cenário de dengue ainda é considerado de emergência em Porto Alegre. A Capital registra quase 16 mil casos confirmados da doença em 2025. Foram registradas, até o momento, 17 mortes pela doença, considerado um recorde. O último óbito aconteceu em 30 de maio, e trata-se de uma idosa de 85 anos, moradora do bairro Tristeza, que apresentava comorbidades.

"Quando aumenta muito o número de casos confirmados, é esperado que aumente também o número de óbitos. Infelizmente neste ano, a gente apesar de ter muito mais casos notificados com suspeita de dengue, a gente não passou o número de casos confirmados de 2024, então o esperado era ter realmente menos óbitos", analisa a enfermeira Raquel Rosa, equipe de vigilância de arboviroses da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).

A mesma observação é feita por Diego Falci, professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). “A gente tem um recorde de óbitos causados por dengue em Porto Alegre. É uma situação que preocupa, o indicador deste ano. A gente tem, para o número de casos, um índice de infestação muito grande por Aedes”, ele afirma.

As 34 mortes no estado foram, em grande parte, de pessoas idosas, e todas apresentaram comorbidades. “Essas faixas etárias têm muito mais comorbidades normalmente, então essas pessoas sofrem mais com a infecção e têm maior letalidade. A gente tem, infelizmente, uma das maiores letalidades do país, comparativamente aos outros estados”, explica o professor.

Apesar de ser uma doença que sabidamente fragiliza mais um organismo e inflamações no corpo, o manejo clínico e a busca precoce por serviço de saúde é importante para a gravidade da doença, atesta Raquel. “Mesmo que ocorra tudo precocemente, como é esperado, tem que ter hidratação de soro adequado. Embora não exista tratamento específico, ela tem um manejo de hidratação venosa, mesmo que por via oral, muito específico. Isso tem que ser muito bem considerado quando se está tratando de uma pessoa com suspeita de dentro, ou mesmo já confirmada”, diz.

Apesar da dengue ser uma doença que pode ter mortes preveníveis, alguns fatores explicam os óbitos. “Ou é uma questão individual, ou houve alguma ‘falha’, no sentido da pessoa daqui a pouco demorar a procurar atendimento, ou não estava bem orientada quanto aos sinais de alarme”, afirma Raquel. Segundo a enfermeira, a dengue traz sinais de alerta quando se agrava que podem passar despercebidos ou serem negligenciados pelas pessoas.

Muitos casos de dengue se agravam devido ao chamado “extravasamento plasmático”, afirma Raquel.

“O único sinal não é só o sangramento. Aliás, ele nem é o mais comum, é outro tipo de perda de líquido que a gente tem dentro do corpo, e que não vai aparecer olhando de fora. Então o sinal mais comum e precoce que vai apontar isso é uma dor abdominal bem forte, que não passa com dipirona, e é contínua”, afirma. Além disso, queda de pressão e tontura são outros sinais que reforçam a necessidade de ir a uma emergência.

Situação na Capital

Em relação aos dados de internação, Porto Alegre registra acumulado de 677 pessoas com diagnóstico de dengue. Na semana 23, foram 19 internações; já na 24, não houve registros. Porém, existem dados subestimados de internação da SMS, que depende dos hospitais para atualizar no banco de dados da notificação.

De acordo com o Informativo Epidemiológico Semanal de Arboviroses da Secretaria Municipal de Saúde, em relação ao mesmo período de 2024, o número total de casos confirmados de dengue em 2025 é menor, embora haja mais casos suspeitos. Ainda, a taxa de letalidade neste ano é de 0,10 comparado com 0,06 em 2024.

Neste período, foram identificados três sorotipos do vírus na Capital: DENV1, DENV2 e DENV3. Segundo o relatório, divulgado em 10 de junho, os bairros com maior incidência por 100 mil habitantes na última semana epidemiológica são Mario Quintana (111,19), Cascata, (86,64), Costa e Silva (66,25), Rubem Berta (64,45) e Jardim São Pedro (60,24). Confira, abaixo, o mapa com os bairros mais afetados.

Segundo a plataforma “Onde está o Aedes?”, da SMS, entre os dias 1º a 7 de junho (semana epidemiológica 23), o Índice Médio de Fêmeas de Aedes aegypti (IMFA) esteve no nível considerado moderado, com índice 0,16. Foram coletadas fêmeas em 113 armadilhas das 879 vistoriadas, representando 12,85% das armadilhas positivas para o mosquito.

Tendências

A partir da semana 14, tanto no Rio Grande do Sul, quanto em Porto Alegre, as curvas comparadas com 2024 se dissociam. Enquanto no ano passado seguiu alta, principalmente até a semana 20, neste ano ela já começou a cair.

“A gente espera que agora, com as temperaturas mais baixas, tenha de fato, como a gente observou em todos os anos, uma diminuição. No inverno as temperaturas baixas acabam inibindo a reprodução e a atividade do mosquito. Nas regiões metropolitanas, em áreas urbanas, recipientes artificiais podem ainda sustentar mosquitos, então a transmissão continua, mas em um nível muito mais baixo durante o inverno”, diz Diego.

Apesar da tendência de queda, é importante seguir com os cuidados contra o mosquito. Segundo Raquel, Porto Alegre não está mais no nível crítico de infecção vetorial, mas os casos seguem.

“Acho que a gente vai atravessar o inverno ainda tendo uns remanescentes de casos humanos”, ela projeta.

Os especialistas reforçam a importância de procurar atendimento principalmente na ocorrência de alguns sintomas típicos da doença, como febre, fadiga, dor no corpo, de cabeça e atrás dos olhos, e eventuais manchas na pele. Já quem já tem o diagnóstico, atentar-se aos sintomas que são sinais de um agravante da doença, citados acima.

Apesar do cenário de queda, medidas de prevenção são essenciais: “Medidas de contenção dos reservatórios, eliminar água parada, cuidar com os recipientes vazios que podem acumular e usar repelente são muito importantes”, destaca Diego.

Situação da dengue em Porto Alegre na semana 23 | Foto: Leandro Maciel

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