Vidas não têm preço

Vidas não têm preço

Por Gilberto Jasper*

Gilberto Jasper

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Por mais de dois anos a ordem de ficar em casa impôs uma mudança inimaginável na rotina de todos nós. É impossível mensurar os prejuízos na formação de várias gerações de estudantes, além dos reflexos pela interrupção na convivência social, além dos impactos econômicos do fechamento de milhares de empresas e empregos jamais vistos.

Aos poucos tornam-se públicos alguns estudos relativos à saúde mental dos brasileiros. Depressão, comportamento bipolar, desânimo, tristeza profunda e sentimento de solidão são impuseram um duro golpe na saúde mental da população.

No RS, o Setembro Amarelo foi criado para combater a depressão. O Estado detém as mais altas taxas de suicídio do Brasil. Antes da pandemia 13,5% da população gaúcha sofria da doença, índice que pulou para 16% durante a pandemia. É uma moléstia que atinge mais intensamente a população entre 18 e 24 anos. É consequência natural do aumento de suicídios, considerada a quarta maior causa de mortes no país na faixa etária de 15 a 19 anos.

Os jovens sofreram intensamente ao longo da pandemia. Sem vida noturna ou namoro presencial, além de outros prazeres da idade, foram confrontados pelo espelho. Eles não tinham com quem dividir as angústias de forma presencial. Para eles ficou consolidada a ideia de que “o tempo parou”, aumentando sentimentos de ansiedade, depressão, desespero e o crescente sentimento de solidão.

No Estado, Venâncio Aires registra os maiores índices de suicídios. “Dar um fim em tudo, principalmente no sofrimento muito intenso”, leva as pessoas ao gesto extremo de acabar com a própria vida. Na retomada da normalidade da rotina é fundamental oferecer apoio e tratamento a quem sofre em consequência de decisões nem sempre baseadas na ciência. O empirismo de algumas determinações marcou o pico da pandemia. E cobrará elevado custo humano por muito tempo. Salvamos vidas, mas outras tantas foram comprometidas de forma irreversível, obrigadas a conviver com o fantasma da solidão compulsória.

Vamos recuperar a economia. Mas os milhões de desempregados e afetados pela pandemia que mergulharam na depressão algum dia terão vida normal? Isso não tem preço.

*Jornalista


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895