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Bacia Hidrográfica do Rio Tramandaí já apresenta sinais de degradação

Falta de saneamento, o lixo e o uso intenso de agrotóxicos para a produção de alimentos prejudica a bacia

Por
Chico Izidro

Na bacia do rio Tramandaí são encontradas mais de uma dezena de espécies de peixes que só existem ali e algumas delas estão ameaçadas de extinção

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Quando falamos em Litoral, logo nos vem em mente o mar. No entanto, as águas doces têm parte fundamental nos ecossistemas regionais. No litoral norte gaúcho, a Bacia Hidrográfica do Rio Tramandaí já apresenta sinais de degradação, embora boa parte da água da região tenha qualidade apropriada para consumo humano.

A falta de saneamento básico, o lixo jogado e o uso intenso de agrotóxicos para a produção de alimentos resulta em efeitos muito negativos para a localidade. Isso se torna mais grave ainda porque, na planície costeira, a água subterrânea está muito próxima da superfície.

A expansão urbana e plantios de arroz sobre áreas úmidas é uma realidade que, ao aterrar banhados, causa distúrbio na flutuação do nível da água e na base da cadeia ecológica, gerando impactos ambientais negativos como enchentes e perda da biodiversidade.
Nos rios e lagoas da bacia do rio Tramandaí, são encontradas mais de uma dezena de espécies de peixes que só existem ali e algumas delas estão ameaçadas de extinção.

Trata-se de uma fauna rica e diversificada, relacionada à grande diversidade de hábitats encontrados nas lagoas, banhados, rios, estuário e canais. Por isso, a preservação e bom uso das águas da bacia são estratégicos não apenas para o ser humano, mas também para a vida biológica a ela associada. 

Monitorar a qualidade das águas das lagoas e dos rios da Bacia Hidrográfica do rio Tramandaí é fundamental e é uma das principais atividades do Projeto Taramandahy, realizado pela Associação Nascente Maquiné (Anama) em parceria com o Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ceclimar/Ufrgs) e patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental e Governo Federal.

Taramandahy é uma homenagem ao nome tupi de Tramandaí, cujo significado é rios de muitas curvas ou rio piscoso, ou seja, cheio de peixes. “Também quisemos homenagear os mais antigos habitantes da região, o povo guarani, que esteve por aqui na região por milhares de anos e por ser o nome do principal rio da bacia hidrográfica onde temos atuado”, disse o coordenador do projeto, Dilton de Castro.

O rio Tramandaí banha a área de 20 municípios, entre eles Torres, Arroio do Sal, Capão da Canoa, Cidreira, Balneário Pinhal, Xangri-Lá, Imbé, indo até as proximidades de Mostardas e também Osório e Três Cachoeiras, com águas desembocando na foz entre Tramandaí e Imbé. “É o nosso limite de atuação e temos as águas como nosso fio condutor”, afirma Castro. O projeto apresenta atividades técnicas, de mobilização social e atividades políticas. 

“O conhecimento da qualidade da água é um dos instrumentos de gestão das águas. Todo este trabalho que estamos fazendo aqui desde a primeira etapa do projeto, em 2009, tem gerado conhecimento e difundimos isso em universidades, escolas, projetos, publicações. O resultado também é levado para o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tramandaí, que acompanha a evolução ou involução da qualidade das águas”, disse Castro.

A região coberta pelo Projeto Taramandahy tem aproximadamente 300 mil moradores, mas, nos meses de verão, chega a ter 2 milhões de pessoas. “A primeira necessidade é exatamente a água. E o comitê tem este papel de gerenciar este recurso finito”, ressalta ele.

“Precisamos de água para o abastecimento público e, aqui nesta área, temos ainda a irrigação de arroz, atividades de lazer, temos pesca, e infelizmente temos inclusive o despejo de esgoto nas águas”, lamenta. Castro explica que o monitoramento é feito em 14 pontos da região, “para ver se a qualidade da água está se perdendo e quanto está se perdendo”, reafirma. 

Depois da coleta do material, que em fevereiro teve a sua Fase III, ocorre a análise de laboratório. Durante a coleta, alguns parâmetros são observados, como a velocidade e a direção do vento, a temperatura da água e do ar, profundidade total, fluxo e transparência. Ao retornarem ao laboratório com as amostras, é dada continuidade com as outras referências, que, no total, são em torno de 30 parâmetros físicos, químicos e microbiológicos, tais como oxigênio dissolvido, nitrito, nitrogênio amoniacal e total, ortofosfato, fósforo total, sulfatos, sulfetos, coliformes termotolerantes, entre outros.

Haverá ainda a realização de mais duas pesquisas de campo este ano, em junho e outubro próximos. Após isso, será feito um relatório para mostrar como as águas estão se comportando. Os resultados passados não foram satisfatórios, conforme explicou a química e técnica de laboratório do Ceclimar, Gabriela Milani, que fez o trajeto pelas lagoas em fevereiro passado. “Infelizmente, com os resultados obtidos, de uma forma geral, as lagoas ultrapassam a classificação proposta pelo enquadramento no plano de bacia e evidenciam uma involução da qualidade das águas”, destacou. “Cada vez mais pessoas fazendo uso e o saneamento básico e controle de fiscalização é falho.”

Após o resultado concluído, ele será divulgado para a sociedade através do Comitê da Bacia, que tem sede em Osório. “O comitê é um órgão licitado, não é ONG, não é governamental, tem participação de usuários, Corsan, irrigadores, agricultores, órgãos de pesquisa, associações comunitárias e ONGs ambientalistas.

A sociedade está representada ali, em uma espécie de parlamento das águas”, explica Castro. Ele diz ainda que o Projeto Taramandahy também faz assessoria para agricultura ecológica, na qual não se utilizam agrotóxicos. Ele diz que as propriedades rurais têm de estar planejadas com tratamento de esgoto, ter a parte de resíduos melhorada para poder ter certificação.

“A gente trabalha também com os polinizadores, entre eles as abelhas nativas sem ferrão (meliponicultura). Elas são as principais polinizadoras das florestas, da agricultura. Estão sendo dizimadas por causa dos agrotóxicos. Isso seria catastrófico. Uma parte da polinização é feitas pelo vento, outra por morcegos e insetos e de 70 a 80% pelas abelhas. E se elas somem, como já acontece na Europa e nos EUA, não ocorre somente um prejuízo ecológico, mas social e econômico também. Parece que isso não tem nada a ver com a água, mas, se olharmos a natureza, é um complexo de interações. É o ecossistema agindo”, alerta Castro.

 

Com cada vez mais pessoas fazendo uso das águas e os problemas de saneamento básico, as análises feitas das amostras retiradas da bacia do Tramandaí não apontam resultados satisfatórios | Foto: Alina Souza


O ambientalista conta que, ao longo das lagoas, é visível a construção de mansões e casas em suas margens. Castro explica que não é possível fazer nada contra estas construções, que até há algum tempo eram consideradas ilegais. “O Código Florestal, na década passada, após uma série de acordos, sofreu modificações e agora se chama Lei de Proteção à Vegetação Nativa. Algumas coisas que o código preservava, antigamente, hoje ficou mais liberalizado, novos acordos e com nova lei”, destaca. “Uma das coisas que ocorreu é que foram anistiadas todas aquelas construções à margem dos rios em áreas de preservação permanente.”

Ou seja, as construções anteriores a 2012 passaram a ser consideradas estabelecidas. O que antes era irregular pelo código anterior foi legalizado. “Toda aquela área à margem do rio Tramandaí, Imbé, passou a ser legal. Aquela parte da vegetação que cumpria uma função importante, de amenizar os efeitos das enchentes, de ser área de espécies aquáticas e animais, foi perdida para a urbanização”, conclui. Castro observa, porém, que as novas construções, se houver, podem ser derrubadas, pois estão infringindo a lei. “Foi o que ocorreu em um condomínio em Imbé construído em cima de dunas. Ela teve de ser demolida”, lembra.

Castro conta que um dos estudos que fez foi averiguar a mudança na paisagem da bacia hidrográfica. “Entre 2005 e 2015, neste período de dez anos, 20% do que era preservação ambiente foi perdida em função da expansão urbana, principalmente em Cidreira e no Balneário Pinhal, onde a urbanização tem avançado sobre as dunas. E também houve perda na margem das lagoas, onde estão os banhados e juncais, mas onde também ocorreu perda de 20% por causa dos arrozais.” 

Outros Projetos

Além do Tramandahy, outros projetos e atividades de conscientização são desenvolvidos na região. A Ação Nascente Maquiné (Anama) organizou a 3ª Caiacada - Carnaval das Águas, que reuniu no início de março aproximadamente 130 remadores, em caiaques, stand up paddle e canoas, para fazer uma travessia ecológica entre as lagoas Cidreira e Fortaleza, com paradas para a observação dos diferentes usos da água: turismo, biodiversidade, abastecimento público e produção rural. “A atividade uniu forças em prol da preservação das lagoas”, disse Tiago Lucas Corrêa, assessor técnico do projeto e turismólogo. “No percurso, ocorreram paradas para bate-papos sobre a utilização múltipla das águas”, contou Tiago. 

O próximo evento da Anama está programado para dia 23 deste mês, em Três Forquilhas. “O passeio será alusivo ao Dia Internacional da Água, que acontece um dia antes”, disse Tiago. 

Outro programa que também estuda a situação das águas no Estado, o Águas de Interior, foi criado por Gustavo Rodrigues dos Santos, porto-alegrense de 41 anos com formação em Comércio Exterior e há 12 anos atuando na área esportiva, sendo instrutor internacional de KiteSurf, atleta de regatas de barcos, surfista, expedidor e praticante de diversos esportes.

“Meu projeto é um trabalho de expedições científicas utilizando barcos a vela, a fim de minimizar ao máximo o impacto com o meio ambiente. Navego pelos rios e lagos em busca de dados e informações sobre a qualidade das águas.” Durante o percurso, são coletadas amostras de água para análise por parte do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Ufrgs.

“Também registro, em imagens, a vida marinha, de animais e aves das regiões”, destaca. “Em contato com pescadores, ribeirinhos e outros navegadores, coleto dados sobre o saneamento básico e lixos assim como sobre as mudanças no calado, no clima e no trafego de embarcações na região.”

Em fevereiro, o Projeto Taramandahy promoveu a ação Chuva de Sementes em Voo Livre, em Osório, visando chamar a atenção para a necessidade de manutenção das florestas e de seu reflorestamento, valorização às práticas de esportes limpos e de turismo ecológico. Os voos de asa delta e paraglider dispensaram 36 quilos de sementes de juçara na Área de Proteção Ambiental (APA) do Morro da Borússia.

O engenheiro florestal, associado da Anama, assessor do projeto e idealizador da atividade, Antônio Augusto Ungaretti Marques, lembrou que tudo começou há 20 anos, quando se agravaram cortes e roubos da espécie. “Enquanto não houver plantio sustentável, vai continuar havendo roubos da palmeira. A espécie entrou em ameaça de extinção, em função do palmito, iguaria gastronômica que obriga a morte da árvore para que ocorra sua extração”, alerta.