Veranistas curtem a praia em meio a incertezas e boatos sobre porto em Arroio do Sal
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Veranistas curtem a praia em meio a incertezas e boatos sobre porto em Arroio do Sal

Áreas que poderão receber o empreendimento ainda estão sendo estudadas por investidores

Por
Gabriel Guedes

Rondinha, em Arroio do Sal, tem um pequeno "deserto" sem casas, apenas com pequenas dunas e mato, que poderá se tornar uma futura área portuária


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Desde a época do Império já se cogitava a instalação de um porto no Litoral Norte gaúcho. Inicialmente pensado para Torres, a ideia ganhou fôlego após a Marinha realizar uma batimetria na região e constatar que o leito marinho na costa de Arroio do Sal tem 22 metros de profundidade a apenas uma distância de 1,8 quilômetro da praia, o que viabilizaria a construção do píer. O levantamento, realizado no primeiro semestre do ano passado, atendeu a um pleito de lideranças políticas e empresariais de Caxias do Sul e Passo Fundo, que têm se articulado também com investidores para realizarem a implantação do Terminal de Uso Privado (TUP). Agora as atenções se voltam a possíveis áreas que podem receber o empreendimento, algo que tem provocado boatos na cidade e deixado veranistas com incertezas em relação ao destino das praias que frequentam há anos. O prefeito Affonso Flávio Angst, o Bolão, afirma que o terminal poderá ser construído em Rondinha ou no Arroio Seco. “Não vai impactar no turismo. Os acessos ao porto serão por cima da praia, aéreos”, garante.

A Marinha informou que a atualização da batimetria - que traça o perfil de profundidade - foi realizada em abril do ano passado pelo navio oceanográfico Antares. Também foram avaliados os ciclos das marés lunares na região entre o Rio Mampituba e a barra do Rio Tramandaí. Entretanto, portos costumam ser construídos em áreas abrigadas, o que não é o caso da costa gaúcha. Segundo o prefeito, para isso, seria construído um quebra-mar, uma estrutura costeira com a finalidade principal de proteger o porto da ação das ondas do mar. A área exata, Bolão afirma que ainda é uma incógnita. “Duas empresas estão trabalhando em cada uma das possíveis áreas, mas só teremos um porto”, informa.

Uma das áreas fica ao norte de Arroio do Sal, na Praia de Rondinha, ao lado da colônia de férias e camping do Sindicato dos Comerciários de Porto Alegre (SindecPOA). Um dos veranistas, que pesca sempre na faixa de areia onde pode sair o empreendimento, ainda não vê com muita fé o desenrolar desta história. “Tem muita gente falando. Dizem que é o lugar mais fundo da costa. Agora que comecei a vir com mais frequência pra cá, vamos ver como fica”, conta o motorista João Uglione, 64 anos, de Porto Alegre. A outra possibilidade é a do Balneário Arroio Seco, distante 6 quilômetros ao norte. Por lá, a futura instalação do porto tem deixado os veranistas inquietos. A praia pode ter a tranquilidade quebrada, segundo os frequentadores. “Temos casa aqui há uns 20 anos. Ter este vazio é uma tranquilidade. E aqui perto tem a Reserva Tupanci. Não sei como querem construir um porto aqui?”, questiona o professor César Roussos, 44, de Porto Alegre. “Eles querem estragar este paraíso. O bom daqui é esta tranquilidade, diferente do que vivemos em Porto Alegre. Ficamos tristes”, conta a professora Carolina Alves, 45 anos. Segundo Roussos, os boatos que se propagam pelo bairro dão conta da construção de uma área que seria o escritório e refeitório dos trabalhadores.

Em comum, as duas áreas possuem como característica uma faixa de terra que começa na RS 389 e vai até a beira-mar. No caso do Arroio Seco, na parte mais próxima do mar, o terreno tem uma largura de pouco mais de 150 metros. O prefeito conta que a grande inspiração para o projeto vem do porto de Itapoá, pequena cidade do litoral norte de Santa Catarina, quase na divisa com o Paraná. O terminal está situado na Baía da Babitonga e por isso não exigiu a construção de um quebra-mar. Entretanto, apenas uma via, em elevada, faz a ligação entre o pátio de contêineres e o cais, deixando livre uma rua que margeia a orla da baía e a faixa de areia, lembrando uma plataforma de pesca, que é um cenário mais conhecido pelos gaúchos. “Vai ser um porto bem parecido com o deles. Vamos visitar Itapoá, em SC, porque o município vai ter que estar preparado. Vamos ter que alterar o plano diretor, a questão tributária, etc. Vamos trabalhar nisso a partir deste mês”, assegura Bolão.


O prefeito se diz ciente do longo caminho a ser percorrido ainda, mas se espera que neste ano já comece o projeto pra valer, com a implantação da área administrativa. “Nossa população está de acordo. Faltam muitos empregos, principalmente no inverno. Em Itapoá, que tem pouco menos de 15 mil habitantes, o porto gera 3,5 mil empregos indiretos e 900 diretos. O município vai poder arrecadar muito com isso”, projeta o administrador.