Pesquisadores transformam células para curar ferimentos graves

Técnica pode revolucionar atendimento a vítimas de queimaduras | Foto: Marcos Santos / USP Imagens / CP

Pesquisadores transformaram células de tecido em células de pele para ajudar a curar ferimentos graves, técnica que pode revolucionar o atendimento a vítimas de queimaduras. A pesquisa chega após uma década de trabalho e é promissora para uma variedade de pacientes, incluindo os que têm queimaduras ou pacientes idosos com escaras e outras lesões recorrentes.

O estudo, publicado na revista Nature, envolve uma tecnologia chamada “reprogramação celular”, na qual genes são inseridos em células para fazê-las mudar de forma. “Esta é a primeira descrição da reprogramação de células de tecido para células de pele”, disse o autor Masakazu Kurita. “Estou muito animado com os resultados.”

Cirurgião plástico e professor da Universidade de Tóquio, ele começou a trabalhar na técnica há 10 anos. A primeira etapa envolveu a identificação de genes presentes nas células da pele, mas não nas células dos tecidos, que poderiam ser isolados e depois inseridos nas células de tecido para transformá-las. “Escolhemos cerca de 80 genes candidatos, então tentamos combinações”, disse Kurita. Seu grande avanço veio em 2014, quando reprogramou com sucesso as células de tecido em células da pele em laboratório usando uma combinação de 28 genes. Em 2015, mudou-se para o Instituto Salk de Estudos Biológicos, na Califórnia, para colaborar com uma equipe de especialistas de todo o mundo.

Ele e seus colegas realizaram cerca de 2 mil testes com diferentes combinações de genes, procurando a maneira mais eficiente de transformar as células. Encontraram uma combinação de quatro genes e começaram a testá-la em feridas em camundongos. Eles selaram as feridas da pele ao redor para replicar as condições difíceis no centro de uma grande queimadura ou lesão semelhante, sem pele adjacente para promover a cicatrização. Usando a tecnologia, juntamente com os tratamentos com drogas existentes, conseguiram curar uma lesão com um centímetro de diâmetro em cerca de duas semanas.

Caminho para sobreviver

“Nossos dados sugerem a viabilidade de uma terapia completamente nova que poderia ser usada para o fechamento de feridas de várias causas”, disse Kurita. A aplicação mais óbvia seria em queimaduras graves que cobrem grandes partes do corpo, que geralmente são tratadas com enxertos de pele, acrescentou. “Quando as áreas envolvidas em queimaduras são extremamente amplas e nenhuma pele está disponível para os pacientes, ninguém pode oferecer ao paciente uma maneira de sobreviver. Nossa técnica poderia oferecer um caminho.”

Mas ele observou que a pesquisa ainda está longe de estar disponível para os pacientes e que talvez mais uma década de trabalho seja necessária. Ele espera que haja pesquisa sobre melhores maneiras de fornecer a combinação de quatro
genes que transformam o tecido em pele.

Existem também riscos a serem considerados. O estudo monitorou as recémtransformadas células da pele em ratos por oito meses e descobriu que elas permaneceram intactas em sua nova forma. Mas um monitoramento mais longo seria necessário para garantir que a transformação seja permanente. E qualquer processo de transformação de células com genes acarreta o risco de mutações, incluindo a formação de câncer. “Não encontramos nenhum desses sinais até agora, mas isso foi no curto prazo”, disse Kurita. “Para o futuro, temos que trabalhar com a maior cautela para eliminar esse tipo de efeitos colaterais.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: