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A balança e as telas das crianças

Em artigo, cirurgião pediátrico faz alerta sobre a era digital e as crianças

Por
Amrigs

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Vivemos em uma era digital. Para onde se olha se encontra uma tela. Não há lugar para onde se olhe sem que haja alguém com algum aparelho ultra-tecnológico realizando as mais diversas atividades, de trabalho a entretenimento. Este novo mundo é a base de nossa sociedade e movimenta grande parte de nossa economia, provê o sustento de muitos assim como torna a vida uma correria sem fim. Dorme-se pouco, come-se mal, vive-se cansado e sob forte estresse. Porém, é preciso abordar um efeito colateral bastante significativo e que impacta o futuro de milhares: a balança das nossas crianças e adolescentes.

As crianças de maneira geral, principalmente nas grandes cidades, perderam a liberdade de brincar nas ruas. Em um primeiro momento elas migraram aos parques. Quando estes se tornaram violentos e impróprios, migraram aos clubes e aos condomínios. E com a tecnologia nossos pequenos migraram diretamente para frente das telas. Uma resposta óbvia diante da oferta variada e barata de entretenimento ao alcance dos dedos, e que facilita em muitas maneiras a vida de muitos pais – sem tempo para incentivar outras atividades com seus filhos. Esta vida moderna também transformou a alimentação dos adultos e das crianças; todos comem aquilo que é mais rápido preparar, ou que já vem embalado e pronto para consumo ou congelado e pré-pronto - basta alguns minutos dentro do microondas para poder servir. O resultado da soma destes e de outros fatores é uma fórmula letal que quando somada resultava antes em adultos obesos, mas agora resulta também em crianças e adolescentes obesos. Vivemos a maior epidemia de obesidade conhecida na era da medicina moderna; de acordo com dados do governo, aproximadamente 1/3 de nossas crianças e adolescentes estão acima do peso e 16% apresentam obesidade. Não sabemos mais como lidar com essa vida moderna de maneira saudável, mas aos poucos estamos tomando conhecimento de suas verdadeiras consequências.

E estas consequências são trágicas. A criança e o adolescente obeso tem 3 a 5 vezes mais risco de morte por causa cardiovascular antes dos 50 anos de idade, apresentam desenvolvimento de diabetes mais cedo que os adultos que se tornam obesos, começam a apresentar depósito de gordura no fígado precocemente (o que pode desencadear cirrose hepática e até câncer) em quase 10% das crianças obesas, sem falar em outras doenças como refluxo gastro-esofágico, apneia do sono, e distúrbios psiquiátricos dos mais diversos. E naquelas crianças que desenvolverem diabetes tipo 2 ainda na adolescência a situação é ainda pior: as células do pâncreas produtoras de insulina morrem até 4 vezes mais rápido do que no adulto obeso, apresentam insuficiência renal precocemente, e o tratamento medicamentoso chega a falhar em mais da metade dos casos tornando estes adolescentes dependentes de insulina.

Há ainda outro agravante: nossas telas também fazem propaganda e passaram a mostrar para nossas crianças e adolescentes a obesidade como sendo apenas um “padrão estético aceitável”, e esta padronização conceitual faz com que estas crianças e adolescentes, assim como seus pais, não identifiquem a obesidade como um problema de saúde. Evidentemente, nenhuma pessoa deve ser discriminada, ofendida ou sofrer qualquer tipo de agressão por sua aparência estética. Só que obesidade não se trata de uma mera questão estética, de aceitação social ou de auto-imagem; obesidade antes de mais nada é uma doença endócrino-metabólica que necessita reconhecimento, diagnóstico precoce, e tratamento com profissionais capacitados.  E então vem a grande questão: o que fazer?

O começo de tudo é o diagnóstico. Converse com o médico ou com o pediatra de seu filho para que ele através das medidas antropométricas possa realizar o diagnóstico de sobrepeso ou obesidade para a partir de então realizar os encaminhamentos necessários. Os primeiros profissionais envolvidos devem ser sempre os nutricionistas, os profissionais de educação física e os endocrinologistas pediátricos, que podem iniciar as mudanças de hábitos, realizarem os diagnósticos secundários e se necessário até mesmo prescrever medicações que ajudam no combate da doença. Muitas crianças e adolescentes já se encontram em graus de obesidade que não conseguirão melhorar sem a ajuda destes profissionais; o tratamento é longo, requer comprometimento e as vezes não traz os resultados desejados, podendo ser necessária a cirurgia bariátrica em casos que tenham indicação para a mesma. Um recente estudo americano demonstra resultados da cirurgia bariátrica em adolescentes que vão além da perda de peso como a reversão completa do risco cardiovascular e a prevenção do risco de morte precoce, a reversão da diabetes tipo 2 e suas conseqüências, a cura da apneia do sono, e a melhora de forma significativa da qualidade de vida de maneira geral. Mas tudo começa com a mudança de conceitos, a quebra de paradigmas e a mudança de rotina e hábitos de vida, muitas delas impostas sutilmente por nossas telas.

Dr. Iuri Nunes Kist – CRM 36884

Cirurgião Pediátrico