Campanha "Pode Contar" sugere empatia contra a depressão

Campanha "Pode Contar" sugere empatia contra a depressão

A depressão tem também relação com outros eventos cardiovasculares e está associado ao aumento do risco de infarto.

Por
Agência Brasil


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Combater o estigma da depressão exercitando a empatia. Esta é a proposta da campanha de esclarecimento "Pode Contar", lançada hoje (13), na capital paulista, com enfoque na empatia, ou seja: a capacidade de familiares e amigos se colocarem no lugar da pessoa que sofre com a depressão.

"A empatia não é passar a mão na cabeça ou sentir pena de quem sofre com a doença, mas se colocar no lugar do outro. É se reconhecer no outro. Nós, da Associação Brasileira de Psiquiatria, falamos muito de combater o estigma da depressão e nada melhor que exercitar a empatia", explicou a presidente da ABP, Carmita Abdo. De acordo com a médica, a empatia envolve processos afetivos e cognitivos e se traduz na capacidade de perceber os sentimentos e emoções da outra pessoa, sem julgamentos. Segundo Carmita, as doenças mentais estão entre as dez patologias mais prevalentes de um total de 32 doenças incapacitantes para o trabalho.

Tristeza enorme

A engenheira Bernadete de Araújo, 64 anos, conta que a depressão a afetou de diversas formas. Ela sofreu de forma recorrente desde a infância, mas notou sintomas exacerbados na vida adulta. Ainda assim, demorou oito anos para conseguir o diagnóstico. "Houve um tempo na minha vida em que eu não conseguia raciocinar, somar ou subtrair. Eu fazia relatórios em outras línguas, mas não conseguia ler uma manchete de jornal. De repente, eu me tornei impaciente, ansiosa e até agressiva. Eu sentia uma tristeza enorme e não entendia a razão", lembrou.

Diagnóstico

Para a cardiologista Roberto Miranda, da Faculdade de Medicina da USP, muitas vezes é o médico primário - como cardiologista ou ginecologista - que identifica os sintomas. "Muitos pacientes têm alterações cardíacas, dor de cabeça, dor no peito, palpitações e crises de hipertensão. Eles vinham ao pronto-socorro com essas crises e, após o tratamento contra a depressão, não voltavam mais ao atendimento de emergência", alerta. O especialista explica que a depressão tem também relação com outros eventos cardiovasculares e está associado ao aumento do risco de infarto.

Tratamento

Táki Cordás, coordenador de ambulatório no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, disse que quanto menos desenvolvida é a sociedade, maior a demora para se buscar ajuda. "Estima-se que 70% das pessoas que precisam de tratamento não estão recebendo", disse ele. Depois de alcançar o diagnóstico, de 30% a 50% dos pacientes não continuam com o tratamento, um índice preocupante para Cordás. "Preciso lembrar que o antidepressivo não vicia, não muda a personalidade, não vai te deixar ligado. Assim como o indivíduo que tem hipertensão, diabetes, o depressivo precisa do medicamento", disse.


Ele avalia que o tempo do tratamento pode variar conforme a quantidade de crises apresentadas pelo paciente. Dependendo do caso, pode ser de um ano ou, para aqueles que sofreram mais de três crises na vida, o tratamento pode durar a vida inteira. "A nossa medicina ainda é apenas controladora da doença", explicou. De acordo com ele, o paciente que toma a medicação por seis meses e decide descontinuar o uso, tem 80% de chances de sofrer uma recaída.