Workaholic ou worklover?

Workaholic ou worklover?

Um workaholic é aquela pessoa que, por muito focar no trabalho, deixa que problemas profissionais afetem outros campos de sua vida

Simone Lopes

Com o passar do tempo, o excesso vai gerando sérias consequências na saúde. Se a vida profissional vai mal, traz sofrimento, a pessoa adoece e tem dificuldade de reconhecer que precisa de ajuda, afirma especialista

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Vício ou amor pelo trabalho? Qualquer um dos dois elementos em demasia refletem uma enorme desarmonia, afetam a vida de muita gente. Uma pessoa que apresenta características como alto nível de estresse, depressão, obesidade (dependendo do tipo de atividade e hábitos alimentares), pouca vontade de trabalhar e falta de prazer nas coisas que antes a agradavam está emitindo uma alerta. Ela está precisando de ajuda e, de acordo com a consultora, pedagoga e psicóloga educacional Silvia Osso, esses sintomas revelam o perfil de um “workaholic”. Nessas características ainda pode ser incluída a apatia e a irritação.

Um workaholic (ou workólatra, em uma versão abrasileirada da denominação) é aquela pessoa que, por muito focar em seu trabalho, perde fácil o controle da situação e deixa que problemas profissionais afetem os outros campos de sua vida. Ele encontra motivação em suas atividades, mas, ao perceber que não estão mais sob seu domínio, começa um período de crise. Isso leva o indivíduo a aumentar ainda mais as horas de trabalho diárias. Geralmente procura aprovação profissional e pessoal e tem problemas relacionais nas outras áreas da vida.

Conforme Silvia, que será uma das palestrantes do 19º Congresso de Stress da Isma-BR (International Stress Management Association), que ocorrerá de 2 a 4 de julho, no Plaza São Rafael Hotel, na Capital, essa pessoa, é “uma verdadeira viciada no trabalho”. Isso se explica porque a motivação pelo o que ela faz é muito alta, seu foco é o trabalho em si, mas a sua insatisfação é permanente. 

Com o passar do tempo, isso vai gerando sérias consequências na saúde. “Se a vida profissional vai mal, traz sofrimento, a pessoa adoece e tem dificuldade de reconhecer que precisa de ajuda. Geralmente trabalha muitas horas por dia, mas se descuida da vida pessoal e da saúde. Foge dos problemas pessoais, familiares e se distancia do social. Sua vida resume-se em afundar-se no trabalho imaginando que isso é ser produtivo e que será, ou está sendo, reconhecido por isso”, explica a especialista, que é autora de diversos livros, entre eles “Atender bem dá lucro”, “Liderança para todos” e “Pílulas de gestão”. Silvia faz um alerta: quando o quadro de estresse é excessivo e crônico, provocado por uma sobrecarga ou excesso de trabalho, a pessoa já desenvolveu a síndrome de burnout, um termo que vem do inglês e significa literalmente “queimar até o fim”. “Trata-se, portanto, de um esgotamento físico e mental decorrente de uma vida profissional desgastante e sobrecarregada”, explica. 

Por outro lado, há também aquela pessoa que ama o trabalho porque vive satisfeita com suas realizações. É mais aberta ao lidar com as dificuldades que surgem e, se as condições do trabalho vão mal, busca ajuda, em vez de criticar ou esmorecer. Essa é “worklover”. Esta “amante” trabalha muitas horas por dia de forma produtiva e nem percebe o tempo passar, sendo que esta satisfação se estende à sua vida pessoal. Até mesmo em férias ela usa parte do seu dia, por mera diversão e curiosidade, para, por exemplo, visitar concorrentes e conhecer seus pontos fortes e fracos. Não se estressa, curte a família (que muitas vezes a acompanha) e ainda aprende enquanto descansa. “Ser workaholic ou worklover não é uma função e sim um comportamento, que quando praticados em excesso transformam-se em uma doença. Não são complementares e nem são praticados ao mesmo tempo. Ou se é um ou se é outro”, destaca Silvia. 

O amante do trabalho (worklover) descobre bem cedo sua vocação e propósitos e cuida de suas aptidões. Passa algumas horas do dia ou da noite estudando ou criando coisas que serão utilizadas em seu trabalho ou comercializadas para empresas. Como se dedicam e curtem o prazer de trabalhar como um amante do trabalho, ainda acham tempo para ir à universidade, à academia e outros prazeres. Suas diversões às vezes são fruto de inspiração para novos desafios ou habilidades. Os amantes do trabalho cuidam do corpo, da mente e do espírito, sentem menos estresse, enquanto os viciados em trabalho (workaholic), geralmente são indisciplinados, trabalham à exaustão, tem mais chances de sofrer doenças cardiovasculares, gastrites, depressão, uso de drogas, entre outras doenças físicas e psíquicas. 

O termo workaholic foi usado pela primeira vez em meados da década de 70 pelo americano Wayne Oates. Ele definia o comportamento de pessoas que se tornaram “viciadas em trabalhar”. Apresentavam uma espécie de compulsão, vivendo seu trabalho 24 horas por dia e não conseguiam dedicar-se a nada que não fosse ligado direta ou indiretamente às atividades profissionais e sua produtividade.

Não há idade específica neste mundo globalizado. Até uns dez anos atrás, o estilo workaholics aparecia em épocas de ascensão profissional, e, portanto, em jovens entre 27 e 35 anos. Atualmente, esse comportamento se manifesta em qualquer idade em função das disputas por emprego, necessidade de crescimento e afirmação profissional. A pressão da sociedade para horários mais alargados de trabalho acaba desenvolvendo estados de ansiedade e depressão, entre outras patologias.
Amar o que faz, o seu trabalho, é uma benção no mundo atual, principalmente porque ficamos a maior parte dos nossos dias dedicados ao trabalho, mas quem não consegue distinguir amor de vício se perde entre excessos. Os amantes do trabalho (worklovers) são pessoas que têm completa consciência de seus excessos. 

É possível encontrar um caminho do meio? Na avaliação de Silvia, sim. Mas ela recomenda auxílio profissional. “Além de apoio psicológico é também necessário reservar ao menos 30 minutos do dia para si, praticar exercícios físicos ao ar livre, alimentar-se melhor, encontrar amigos, conversar ou realizar atividades juntos. Isso ajuda a combater ansiedade, depressão e estresse. Rodas de conversa fazem bem para que se reconheça que os limites de cada um são diferentes e se descubra qual é o próprio.”


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