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  • 29/09/2012
  • 12:13
  • Atualização: 13:55

Publicação foi projeto educacional dos anos 60, afirma Antônio Hohlfeldt

Caderno de Sábado completa 45 anos

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  • Luiz Gonzaga / Correio do Povo

Em 30 de setembro de 1967, o Correio do Povo publicava a primeira edição do Caderno de Sábado, o maior suplemento cultural já produzido no Rio Grande do Sul. Na capa, era estampada uma crônica de Clarice Lispector,

“Para os Ricos que São Bons”. Confira a entrevista com um dos colaboradores do suplemento, Antônio Hohlfeldt, que disse que o caderno era referência cultural e literária dos anos 60.

Correio do Povo – Que missão cumpriu o Caderno de Sábado nestes quase 14 anos de existência?

Antônio Hohlfeldt - Um aluno da Fabico/Ufrgs, em Mestrado, fez um belo estudo a respeito do Caderno. E a linha de análise dele é que o Caderno foi o grande projeto educacional dos anos 60 do Correio do Povo, no sentido iluminista do termo, à maneira da Enciclopédia e do Hipólito da Costa, do Correio Braziliense. O jornal formava um modelo de bom gosto e de referência cultural e literária, e estava pensado para ser guardado e colecionado e consultado periodicamente. Ao menos do ponto de vista do RS, não houve outro projeto igual, nem antes nem depois, com o Letras & Livros. Tanto que, ainda hoje, pode-se consultar o Caderno. Tenho, por exemplo, minha coleção toda encadernada, e a tenho usado por diversas vezes. Ainda há muito material lá a ser desentranhado, estudado e publicado. Para além do que já virou livro, dentre o que, os artigos do Guilhermino Cesar.

CP - Conte-nos um pouco da experiência de fazer este caderno. que teve como editores os entusiastas Oswaldo Goidanich e Paulo Fontoura Gastal.

Hohlfeldt - Na verdade, sem o Gastal não haveria o Caderno, e sem o Goida, não teria havido a sequencia. Os dois se completavam. Mas o Gastal era organizado a sua maneira, ele não tinha paciência de escrever cartas. E telefonar, era difícil. E sem xerox e sem internet, imagine a dificuldade de conseguir adesões. O Caderno recebia artigos de todo o Brasil, para a montagem os cadernos especiais, até de fora do país. E vinha tudo por carta, e quem fazia estes contactos era especialmente eu. E como eu era estudante de Letras, e depois formado, ia aos congressos e encontros e aproveitava para conhecer as pessoas e convidá-las a enviar textos. E isso sempre funcionou. No acervo do João Antonio está lá a cadernetinha dele com seus endereços, e o Caderno aparece com destaque.

CP - Poderíamos enumerar alguns críticos e escritores que deram corpo a suas carreiras nas fileiras dos colaboradores do Caderno de Sábado.

Hohlfeldt - De cara, Guilhermino César e Flávio Loureiro Chaves. Lya Luft, Sérgio Faraco, Tarso Genro, eu próprio, Regina Zilberman, Maria da Gloria Bordini, Tania Franco Carvalhal, etc., O Caderno estava aberto a todas as ideias, não era sectário nem de grupinhos. Ele publicava tudo e todos: Carlos Nejar, Armindo Trevisan, Caio Fernando Abreu, Carlos Carvalho, todo ciclo da literatura sul rio-grandense dos anos 60 e 70 passa pelo caderno. O boom do conto brasileiro, com os catarinenses e os mineiros, passa pelo Caderno. Os grandes seminários de Curitiba estão no Caderno.

CP - Gostaria que o senhor lembrasse algum detalhe pitoresco, algum texto de grande repercussão deste caderno, daqueles que são comentados durante semanas, anos.

Hohlfeldt - Em algum momento, Eugene Ionesco veio a Porto Alegre porque um grupo de teatro francês iria apresentar uma peça sua, via Aliance Française. Organizei pessoalmente uma edição especial do Caderno, e à noite, no espetáculo, no Theatro São Pedro, ele foi entregue ao dramaturgo, que se emocionou. Ainda tenha o exemplar autografado por ele. Mas não pensasse em ir reclamar do Gastal algum artigo entregue há muito e que ficara perdido. Isso não era raro. Às vezes, passava meio ano, e, de repente, eis que ele reencontrava o papel e lá ia o original aparecer na edição seguinte, para surpresa do autor já desiludido.Outra coisa importante eram as capas do Caderno: artista plástico que saísse na capa, era a glória. E ter a citação de capa remetendo ao artigo dentro do caderno, era a suprema emoção.

CP - Como o senhor analisa o momento do jornalismo cultural no Rio Grande do Sul e no país?

Hohlfeldt - Costuma-se botar a culpa no Afrânio Coutinho pelo passamento dos suplementos literários. Na verdade, ele defendia a crítica acadêmica feita na universidade, sobretudo a partir dos cursos de pós-graduação, e de fato isto foi um salto de qualidade em relação à crítica impressionista dos antigos suplementos. Mas veja que esta crítica impressionista era feita por Alceu Amoroso Lima, por Guilhermino César, etc., gente de alta formação. Poderiam conviver a crítica dos suplementos, mais impressionista, e a crítica especializada das universidades. O que houve é que, com a entrada da TV, os jornais mudaram, os suplementos murcharam e viraram Cadernos 2, e daí sumiu a crítica e a resenha.

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