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  • 08/04/2013
  • 20:28
  • Atualização: 20:29

Cia. Hiato emociona ao questionar o limite entre ficção e realidade

"Ficção" foi um dos destaques no encerramento do Festival de Curitiba

Solo de Maria Amélia Farah | Foto: Ernesto Vasconcelos / Divulgação

Solo de Maria Amélia Farah | Foto: Ernesto Vasconcelos / Divulgação

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  • Vera Pinto / Correio do Povo

Quem foi ao Teatro Paiol no último final de semana teve um presente, ao assistir a última produção da Cia. Hiato, de São Paulo, em estreia nacional no Festival de Teatro de Curitiba 2013, no encerramento do evento. Com direção de Leonardo Moreira, "Ficção" parte de relatos biográficos de cada um dos cinco atores, invertendo a lógica do profissional que abre mão de si para ser visto como 'hospedeiro' de seus personagens. Cada um dos cinco intérpretes aborda momentos de conflito com seus familiares e questiona o processo criativo, em performances extremamente delicadas e arrebatadoras, com momentos hilários e forte carga dramática, sem cair na pieguice.

O grupo apresentará a peça, com alternância de atores, paralelamente no Rio de Janeiro (Caixa Cultural) de 11 de abril a 5 de maio, e em São Paulo (Teatro ECUM), de 12 de abril a 12 de maio. Em maio chegará a Porto Alegre, com "Cachorro Morto", em que falará sobre os autistas portadores da Síndrome de Asperger, dentro da programação do Palco Giratório Sesc.

Os espetáculos criados pelo grupo nascem de questionamentos muito pessoais, especialmente sobre o que é ser normal ou especial. Isto se evidencia no primeiro trabalho, "Cachorro Morto"; em "Escuro", que tematiza a cegueira, desorganização da fala e perda auditiva; e "Jardim", sobre o Mal de Alzheimer.

Neste caso, o diretor incitou os atores a causarem desconforto na plateia, expondo suas feridas, em relatos que trazem a interseção das dramaturgias de conteúdo e corporais. "O desafio é encontrar fissura onde por um segundo o espectador não enxergasse o personagem, e sim o ator", diz Fernanda Stefanski, que tematiza o suicídio de seu tio e reflete acerca dos limites éticos de expor um drama familiar.

A atriz que sempre quis interpretar Shakespare e que deu tons hitchockianos a sua performance, utiliza fotos e reconstituições, citando passagens dolorosas de sua vida, como a agressão sofrida por parte de um ex-namorado e a morte da melhor amiga. Com forte veia cômica, Luciana Paes diz que "brinca como fazer artístico, de encarnar um ser a serviço de histórias", ao por em xeque a autoria em um processo colaborativo. A atriz coloca em cena seu projeto relacionado à pintora Frida Kahlo, que não chegou a ser concluído e contextualiza sua realidade, ao falar do pai ausente e depressivo, com quem não mantém uma boa relação.

Aline Filácomo foca suas várias personas, reais ou não, na sua irmã mais nova, também atriz, com quem tinha um relacionamento controverso. A homenagem que intencionava fazer, acabou virando um insulto, pela percepção da outra. Maria Amélia Farah coloca no palco o próprio filho, bebe, falando que "vive vidas tão reais quanto as que inventou", ao tentar agradar a mãe e seguir a tradição árabe, de seus antepassados. E posteriormente, ao tentar criar uma identidade própria, experimentou a cobrança, o fracasso e a decepção.

Já Thiago Amaral se veste de coelho para a ficção "A extinção dos coelhos selvagens", criada por seu pai – não ator – com quem contracena. Isto para se reportar à ruptura, que os afastou por seis anos. Como ele não correspondia às expectativas paternas, resolveu trazê-lo ao seu projeto de vida, num pretexto para retomar os laços. Sua interpretação, ao lado de Luciana, causou grande comoção, sendo aplaudida longamente, no domingo, quando as pessoas se despediam do festival, que segue de 10 a 28 deste mês com as atrações infantis do Guritiba.

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