Porto Alegre, domingo, 23 de Novembro de 2014

  • 30/05/2014
  • 00:29
  • Atualização: 00:33

Montagem propõe um novo olhar sobre vida e obra de Lupicínio Rodrigues

Com dez atores e seis músicos, "Lupi, o Musical" põe abaixo a ideia melancólica acerca do artista

Montagem propõe um novo olhar sobre vida e obra de Lupicínio Rodrigues | Foto: Daniel Scherer / Divulgação / CP

Montagem propõe um novo olhar sobre vida e obra de Lupicínio Rodrigues | Foto: Daniel Scherer / Divulgação / CP

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  • Vera Pinto / Correio do Povo

Um cantor e compositor negro com vasta e refinada produção, gravado por grandes nomes da MPB, que fez sucesso no samba fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, com sua voz suave, numa época em que faziam sucesso vozeirões, como de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Francisco Alves. Lupicínio Rodrigues (1914-1974), no centenário de seu nascimento, ganha homenagem, em "Lupi, o Musical - uma Vida em Estado de Paixão", em cartaz apenas neste sábado, 21h e domingo, a partir das 18h, no Theatro São Pedro.

Numa janta na casa do filho do músico, Lupinho, em junho do ano passado, Juliano Barreto lançou a ideia de uma biografia sobre seu pai que juntasse música, dança e teatro, com músicos ao vivo, ao estilo da era do rádio. O anfitrião acolheu a ideia e contribuiu na pesquisa, junto com o jornalista Marcello Campos, autor de livros sobre Alcides Gonçalves e Orlando “Johnson” Silva, amigos de Lupicínio, no texto escrito por Arthur José Pinto, também na direção. Os fatos principais de sua vida estão no palco, assim como 21 músicas, entre consagradas e inéditas, como Cortiço”, “Namorado” e “Eu Não Sou Louco”. Elas são executadas pelo elenco, com Juliano e Gabriel Pinto, nos papeis respectivos do protagonista na maturidade e juventude, além de Nadya Mendes, Nani Medeiros, Pâmela Amaro, Cíntia Ferrer, Lucas Krug, Mario de Ballrntti, César Pereira e Raul Voges.

E uma banda, formada por Samuca do Acordeon, André (trombone), Pâmela Amaro (pandeiro), Guilherme Sanchez (percussão), Luís Barcelos (bandolim e arranjos) e Mathias Pinto (violões e direção musical). "Lupicínio faz parte de um inconsciente coletivo de todo portoalegrense. Acho que faltam ícones aqui como Dorival Caymmi foi para a
Bahia", diz o autor do projeto, Juliano, que começou aos quatro anos, em jingles. Das cerca de 300 músicas compostas por Lupicínio e das entre 100 e 150 gravadas, segundo registro do pesquisador Marcelo Campos, "a opção por fugir do óbio é maravilhosa, porque a maior parte dos espetáculos e discos com a obra do Lupi batem na tecla da mesmice, fazem parecer que o Lupi só compôs a meia dúzia de coisas de sempre". Após ver o ensaio, o escritor constatou que quase metade são composições menos conhecidas, inclusive a primeira musica gravada do Lupi, "Pergunta aos
Meus Tamancos", lançada pela Odeon em 1936 na voz do cantor e parceiro Alcides Gonçalves.

A paixão idealizada por Inah, seu amor de adolescência; o casamento de 30 anos com Cerenita, sua esposa até o final da vida; o lendário bar da Adelaide, localizado na esquina da Marechal Floriano com a Duque de Caxias, reduto boêmio de Porto Alegre, onde encontrava amigos, como Túlio Piva; o alistamento aos 16 anos, pelo pai, quando constatou sua
verve boêmia; o cuidado com a família, nos finais de semana e a vida noturna, de segundas a sextas, tudo isto está no palco. E ainda a projeção nacional; o esquecimento a que foi relegado, por 20 anos, com a bossa-nova, quando foi considerado fora de moda; o ressurgimentos nos anos 1970, quando Caetano gravou 'Felicidade' e ascenção, quando Gal, Bethania e Gil também o gravaram, até sua morte, em 1974.

"Tenho visto as pessoas fazerem uma leitura superficial, apresentando-o como em sua obra, como uma figura triste, melancólica. Ele saía para fazer observações que usava em sua produção, tinha necessidade dos amigos, da brincadeira, do sorriso", declara o Arthur José Pinto, que nesta produção desmistifica a ideia de dor de cotovelo atribuída ao poeta. O diretor acredita que Lupicínio tenha influenciado João Gilberto, que ao chegar na capital gaúcha, quando morou aqui morou por oito meses, tinha vozeirão e ao sair, adquiriu um tom suave. "A bossa nova calou com Lupicínio em Porto Alegre, aqui ele ficou meio brega, escanteado. Mas no centro do país nunca deixou de ter a devida importância", acrescenta.

Sobre uma de suas letras mais executadas, o Hino do Grêmio, uma das hipóteses ventiladas na peça é de que o pai de Lupicínio fundou o time semiprofissional Riograndense, que o Inter barrou na Liga. Na ocasião seu pai fundou a "Liga dos Canelas Pretas", já que o futebol era um esporte exclusivo de brancos, e então o compositor criou o hino tricolor, em
desagravo, em plena greve de bondes, obrigando-os a ir a pé até o jogo.

Serviço:
Dias: 31 de maio (sábado), 21h 1º de junho (domingo), 18h.
Local: Theatro São Pedro (Praça da Matriz, s/nº)
Ingressos: de R$ 20 a R$ 60

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