Correio do Povo

Porto Alegre, 25 de Julho de 2014


Porto Alegre
Agora
9ºC
Amanhã
16º


Faça sua Busca


Esportes > Fórmula 1

ImprimirImprimir EnviarEnviar por e-mail Fale com a redaçãoFale com a redação Letra Diminuir letra Aumentar Letra

03/12/2010 20:09 - Atualizado em 04/12/2010 03:18

Piloto gaúcho relata surpresa após teste pela Ferrari: "É diferente de todos os carros que guiei"

César Ramos, 21 anos, é natural de Novo Hamburgo

Piloto gaúcho de 21 anos testa carro de F-1 da Ferrari. Veja mais fotos
Crédito: Leandro Demori/Divulgação

Nascido em julho de 1989, César Ramos, gaúcho de Novo Hamburgo, não acompanhou os últimos três títulos mundiais brasileiros na Fórmula-1, conquistados por Ayrton Senna. Lembra um pouco do trágico acidente e da morte daquele que seria inspiração no futuro para a sua carreira. No fatídico 1º de maio de 1994, ainda não tinha completado cinco anos de idade, mas se apaixonou pelo esporte a motor. E na última quinta-feira, realizou o grande sonho: fez um teste de F-1 pela equipe Ferrari.

Leia mais sobre o mundo das corridas no Blog PitLane

Em entrevista exclusiva ao site do Correio do Povo, ele conta como foi a sua trajetória até o título da competitiva Fórmula 3 italiana, cujo campeão foi decidido na última etapa, por quatro pilotos. Morando em Forlli, perto de Bolonha (Itália), fala ainda sobre a saudade da cidade natal Novo Hamburgo e da família e sobre como é ser esportista de alto rendimento, viajando a várias cidades da Europa sem realmente conhecer os lugares.

Confira a entrevista com César Ramos:

Correio do Povo: Como foi testar uma Ferrari? Qual o diferencial para os carros que tu estava acostumado?

César Ramos: Estava esperando muito por esse momento, desde que comecei a me encaminhar para o automobilismo já sonhava com isso. Aproveitei ao máximo cada volta, que pareceram poucas. Vai ficar marcado, pois um teste com a Ferrari não é qualquer momento né, é para sempre. Tive a oportunidade de andar em condições de pistas difíceis e no seco. Mas acabou ficando complicado pois acabei dando poucas voltas no seco. Ficou um gostinho de quero mais. Trinta voltas num F-1 passam muito rápido.

CP: Mas e as reações do carro? A velocidade é muito diferente de qualquer outro veículo, demorou para se adaptar?

Ramos: É diferente de todos os carros que guiei até hoje. Me surpreendeu muito. Esperava um carro muito bom, mas é melhor ainda do que esperava. Tem uma aderência muito grande nas curvas e a freada também impressiona muito. A velocidade que se carrega nas curvas e na freada é mais impressionante que a potência do carro em si. Trabalhei com a equipe da Ferrari Drivers Academy e foi usado o carro de 2008 com os responsáveis pela academia de pilotos da Ferrari, umas 20 pessoas, auxiliando para encontrar o melhor acerto do carro. O melhor é que fui bastante elogiado por todos, só recebi comentários positivos.

CP: E a tua trajetória, como foi? Recebeu algum apoio ou teve de lutar corrida a corrida?

Ramos: No meu caso, comecei correndo de kart no RS, mas no segundo ano já fui disputar campeonatos em São Paulo, que são mais fortes. Comecei na raça, sempre minha família que bancou, meu pai. Nunca tive patrocínio grande assim. O ano não podia ter sido melhor do que foi e agora a gente espera contar com o apoio de algumas empresas, vamos ver o que aparece por aí. Em 2007, comecei a correr de carro na Europa, não fiz nenhuma prova no Brasil. Fiz dois anos de F-Renault e no ano passado F-3 Europeia.

CP: Muita gente aqui no Brasil pensaria que é um tipo de "férias" em tempo integral, mas como é a tua vida europeia?


Ramos: Olha, não é fácil ficar aqui sozinho. Vejo pouco minha família e meus amigos, só o meu pai que vem bastante nas corridas. Mas estou acostumando. O pior da saudade é o primeiro ano, mas tem o lado bom de tudo ser novidade e não cansar do cenário. Agora, que comecei a me acostumar e tudo já está mais conhecido, parece que aumenta ainda mais a saudade do Brasil. Minha vida foi toda em Novo Hamburgo. Nasci em Porto Alegre, mas toda a minha família mora lá. E, na verdade, não conheço quase nada de Europa, conheço um monte de países pelos campeonatos que fiz por aqui, mas acabo não visitando de verdade. É aeroporto para pista, pista para o hotel e já volto para minha base aqui na Itália, onde faço todo o treinamento físico.

CP: E como é o gaúcho César Ramos?

Ramos: (risos) Não tomo mate pois não gosto muito, mas minha familia está sempre tomando. Tenho saudade de tudo, comida, passeios, até do tempo, pois aqui está um inverno terrível, e dos amigos e família, que é o que mais faz falta. Além disso, aqui a gente fica mais fechado no inverno, e eu faço o gênero esportista, não curto muito esse negócio de jogos, videogame. Prefiro programas de aventura e até aproveito quando estou treinando o físico. Mais uma coisa para a gauchada: o negócio é ser campeão. Dá-lhe Inter! O Grêmio tá meio fraco este ano. Eu estava em casa com o macacão vermelho e branco da Ferrari.

CP: Depois das duas conquistas, na F-3 e no teste com a Ferrari, como ficaram os planos para 2011?

Ramos: Terminou minha fase na F-3, quis subir de categoria, e espero correr na World Series by Renault. É um carro bem mais parecido com o Fórmula 1, com mais potência, câmbio no volante e performance parecida com a da GP2, só que com custo bem menor. De lá saiu muita gente de sucesso na F-1. Como o Sebastian Vettel e o Robert Kubica, então é uma categoria que já está muito bem cotada no automobilismo mundial.  A gente está negociando com equipes muito boas para o ano que vem e a ideia é já chegar andando entre os cinco primeiros e, de repente, já brigar pelo título no primeiro ano.

CP: Olhando o teu currículo, é possível ver que o primeiro título de monoposto foi este da F-3 italiana. Ao mesmo tempo, tem gente que ganha tudo por onde passa e chega na F-1 e não vai tão bem. Qual é o segredo?

Ramos: É muito estranho, mas a verdade é que tem muito piloto que ganha tudo na categoria de base, mas tem que ver o equipamento que eles tem. Às vezes estão sempre nas melhores equipes e na F-1 não têm tudo do melhor. Às vezes, tem companheiro de equipe mais rápido, e isso acaba afetando a cabeça, o cara não se acostuma. O Kamui Kobaiashi (japonês que teve grande estreia em 2010) não ganhou quase nada na base, mas chegou lá sem nada a perder e mostrou resultado. O mais importante é aproveitar a situação do momento, não tem como prever.

CP: E como foi a decisão do título da F-3?

Ramos: A decisão do campeonato tinha quatro pilotos com chance na última rodada dupla. Na primeira corrida, um foi eliminado, mas a gente foi para a última corrida do ano em três, separados por oito pontos, com a prova valendo 14 pontos. Foi bem disputado durante o ano todo. Em Monza fiz a pole e podia encerrar o campeonato na primeira corrida, mas o piloto que largava na segunda fila acabou batendo em mim e complicando tudo. Para piorar, como eu tinha sido pole, na segunda corrida o grid dos oito primeiros era invertido. Ia largar em oitavo e o cara que decidia o campeonato comigo largava em segundo! Foi uma corrida bem decisiva, que valia o trabalho do ano todo. Consegui mesmo largando de oitavo, fazer ultrapassagens e ganhei a corrida.

CP: Finalizando, quem são os personagens que mais te inspiram para chegar na F-1?


Ramos: Olha, eu assisti muita coisa gravada, documentários, corridas e vi que o Ayrton Senna é realmente uma inspiração no modo de pilotar. Quando o Senna morreu eu tinha seis anos, não lembro quase nada, mas ainda antes de começar a correr já assistia vídeos com suas vitóras. Meu modelo atual, definitivamente, é o Fernando Alonso, com seu domínio do carro, talento e velocidade.

César Ramos completou 30 voltas em uma Ferrari modelo 2008 | Foto: Leandro Demori/Divulgação

     Ouça o áudio: César descreve como é estar a bordo de um F-1
     Ouça o áudio: Piloto explica como foi a decisão da F-3 italiana
     Ouça o áudio: Paixão no futebol do campeão da F-3


Fonte: Bernardo Bercht / Correio do Povo






O que você deseja fazer?


Busca

EDIÇÕES ANTERIORES

Acervo de 09 de Junho de 1997 a 30 de Setembro de 2012. Para visualizar edições a partir de 1 de Outubro de 2012, acesse a Versão Digital do Correio do Povo. No menu, acesse “Opções” e clique em “Edições Anteriores”.